Israel enterra nesta segunda-feira seu chefe de guerra e ex-primeiro-ministro Ariel Sharon, “herói” popular em seu país e “criminoso de guerra” para os palestinos. “Arik” (diminutivo de Ariel) será enterrado às 14h locais (10h de Brasília) com honras militares na fazenda de sua família no sul de Israel, não muito longe da Faixa de Gaza.

O general Sharon expressou seu desejo de repousar ao lado de sua segunda esposa, Lily. Seus dois filhos, Gilad e Omri, e o chefe do Estado-Maior, Benny Gantz, pronunciarão os elogios fúnebres.

Diante da proximidade de Gaza, controlada pelo movimento islamita palestino Hamas, a polícia israelense enviou reforços ao sul de Israel, onde estão mobilizadas baterias do sistema antimísseis móvel Domo de Ferro.

Mais cedo, foi realizada uma homenagem nacional a Sharon no Parlamento israelense, em Jerusalém, na presença de autoridades do Estado e de delegações estrangeiras. A homenagem oficial, que contou com a participação do vice-presidente americano, Joe Biden, do ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair e do ministro alemão das Relações Exteriores, começou com cantos religiosos tradicionais.

“A terra da qual você veio te abraça com os braços cálidos da história de nossa nação, à qual você somou um capítulo inesquecível”, declarou o presidente israelense Shimon Peres na cerimônia transmitida ao vivo pela televisão.

O falecimento no sábado do homem forte da direita nacionalista, aos 85 anos e que passou oito anos em estado de coma, afundou Israel em uma atmosfera de luto nacional.

Cerca de 20 mil israelenses passaram no domingo diante do caixão exposto no exterior do Parlamento. Muitos lembravam o carisma e a bravura do décimo primeiro chefe de Governo de Israel.

“Nunca conheci ‘Arik’ pessoalmente, apenas como líder, um dos últimos que restavam em Israel”, declarou Meir Gavron, 56 anos e que viajou de Ramat Gan, perto de Tel Aviv. “Me identificava muito com o homem”, completou.

O conselho de ministros semanal, presidido por Benjamin Netanyahu, observou um minuto de silêncio. O primeiro-ministro voltou a saudar seu rival político como um de “nossos mais eminentes líderes e audazes comandantes”.

Já a imprensa israelense fazia um balanço equilibrado da “herança de Sharon”. “Fou um gênio generoso e cruel ao mesmo tempo”, resumiu o jornal de direita Maariv.

Inclusive o Haaretz, da esquerda e firme adversário do “buldôzer” (um dos apelidos de Sharon), dedicou elogios ao ex-líder. “Desde a saída de Sharon, Israel carece de uma liderança política que reconheça os limites da força, mantenha a aliança com os Estados Unidos e demonstre valor nos Territórios (palestinos) sem se deixar impressionar pelos colonos”, declarou.

Campeão da colonização, Sharon foi, no entanto, o líder que retirou as tropas e os 8 mil colonos da Faixa de Gaza em 2005. Uma decisão pela qual não é perdoado pelos ex-colonos do enclave palestino. Também entrará para a História como o artífice em 1982 da desastrosa invasão do Líbano quando era ministro da Defesa.

Uma comissão investigadora israelense determinou a responsabilidade indireta, mas pessoal, de Sharon no massacre de centenas de civis palestinos por seus aliados falangistas cristãos libaneses nos campos de refugiados de Sabra e Chatila em Beirute em setembro de 1982.

De Gaza a Ramallah, de Yenin aos campos de refugiados no Líbano, os palestinos expressaram sua imensa alegria com a notícia da morte do “criminoso Sharon” e lamentaram que o general israelense tenha falecido sem ter comparecido perante a justiça internacional.