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Ginecologista demonstra preocupação com mortalidade de mulheres grávidas

A presidente da Sogomat-Sul, (Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia de Mato Grosso do Sul), Maria Auxiliadora Budib, tamém apopnta como preocupante os índices de câncer de mama

Arquivo Publicado em 29/07/2012, às 12h43

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A presidente da Sogomat-Sul, (Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia de Mato Grosso do Sul), Maria Auxiliadora Budib, tamém apopnta como preocupante os índices de câncer de mama

A presidente da Sogomat-Sul, (Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia de Mato Grosso do Sul), Maria Auxiliadora Budib, esteve coordenando o 27º Congresso de Ginecologia a Obstetrícia em Campo Grande com o intuito de debater os desafios diários enfrentados no dia a dia desses profissionais.

Ela atua como médica, na área de ginecologia e obstetrícia, há 17 anos e é professora universitária. Em conversa com o Midiamax, Maria Auxiliadora expôs a preocupação dos médicos com a alta taxa de mortalidade de mulheres grávidas, de câncer de colo de útero, câncer de mama, e outros números preocupantes registrados em Mato Grosso do Sul.

Como anda a saúde da mulher em nosso Estado?

Em Mato Grosso do Sul as mulheres têm se cuidado muito pouco. O número de mulheres que faz o pré-natal considerado ideal em número de consultas é mínimo, mamografia também, preventivo a mesma coisa e em relação ao câncer de colo de útero, o Estado lidera o rankig nacional.

O índice de câncer de colo de útero é tão elevado assim e relação aos demais estados?

Quando a gente fala de câncer de colo de útero, a gente fala em medidas de prevenção: Papa Nicolau anual ou bianual, essa paciente tem que ser acompanhada desde o início de sua vida sexual. O que seria esperado de morrer de câncer de colo de útero, em um país civilizado, onde tem uma taxa significativa de prevenção, é taxa quase zero. No Estado a gente tem uma taxa de quase 13%, a cada 100 mil mulheres. Em São Paulo, a taxa está em 5%, para se ter um comparativo.

O que acontece aqui para se ter registros nesse patamar?

Nós somos um Estado de fronteira. Temos irmãos paraguaios, irmãos bolivianos que usam o nosso sistema de saúde. Aquela Lei que diz que para entrar no sistema de saúde brasileiro, poderia ser apenas para casos de emergência, não funciona assim na prática. Como uma pessoa que mora em Pedro Juan Caballero, que é casado com uma brasileira, ou vice e versa, não vai utilizar nosso sistema de saúde? É um Estado também, onde algumas etnias vivem de uma forma diferente, então você tem a situação do indígena, tem aldeia na cidade, mas em geral esse câncer de colo de útero está associado a iniciação sexual precoce. Além disso, Mato Grosso do Sul é um Estado que tem um dos maiores registros de meninas de 12 a 14 anos grávidas.

Que outros Estados têm mais números de casos de câncer que o nosso?

Na nossa frente, em todo país, está apenas o Estado do Amazonas.

Quais os principais motivos causadores desse câncer?

As principais são vida sexual ativa precoce e não utilização de preservativo. Eu acabei de chegar de um congresso europeu, onde eu vi que se você teve 11 relações sexuais com o mesmo parceiro sem proteção, a sua chance de adquirir HPV é de quase 80%. A menina entra na vida sexual, ela tem vergonha de pedir para o menino usar o preservativo, ela acha que se ela exigir a camisinha dele ela vai ser vista como uma menina fácil, se ela levar a camisinha na bolsa ele vai achar que ela sempre está preparada para ter o sexo, além do fato que um namoro estabiliza a relação e consequentemente tira a camisinha do ato sexual.

Então a questão não está ligada apenas a fidelidade nos relacionamentos?

O adolescente é fiel, ele é monogâmico, só que ele é seriado. Hoje ela namora o João, mas daqui seis meses o homem da vida dela é o José. E assim passam inúmeros parceiros e isso a gente tem que conscientizar tanto o menino, quanto a menina. Então o câncer de colo de útero é um câncer que a gente milita bem porque tem prevenção. Uso de preservativo, cuidado com sua vida sexual, é a mesma coisa de você cuidar da sua maquiagem, do seu caderno, é algo que é muito grato pra você a vida inteira.

Qual a relação do câncer de colo de útero e o HPV ou vírus do papiloma humano?

É assim: 100% das mulheres que tem HPV não vão ter câncer do colo do útero, mas 99,9% das mulheres que tem câncer do colo do útero, tem HPV positivo.

Como esse HPV evolui até virar um câncer?

O HPV ele entra no organismo e disfarça para o sistema imunológico. Ele é um vírus manso, que fica lá quietinho, esperando sua imunidade baixar e daí quando isso acontece, ele dá a louca na célula, fazendo uma invasão e uma alteração da camada, onde começa a ter ferida, depois começa a ter ferida de repetição, dor na relação sexual, sangramento na relação sexual fora do período menstrual, e ai a mulher fala “não é só uma infecçãozinha, vou usar um chá de barbatimão, um chá de algodãozinho” e não funciona, porque a paciente não está de olho no corrimento que ela tem, na dor na relação sexual, ela tem medo de falar isso para o parceiro e ele achar que ela está evitando a relação sexual, e isso pode ser uma ferida no útero que já está em estado crônico.

Tem um tempo médio entre adquirir a doença e desenvolver o câncer?

Tem sim. Existe um patamar entre adquirir a doença e desenvolver o câncer de 14 anos. Então não acontece assim “olha eu tive contato com HPV hoje e eu morri amanhã”. Então a prevenção é muito importante e o acompanhamento também. Tem que ir no médico, fazer o preventivo de câncer de colo de útero. As mulheres precisam ter consciência de cuidar da própria saúde. Temos os serviços no sistema público.

Existem muitas pessoas que não fazer esse acompanhamento ou que nunca foram ao ginecologista ainda hoje?

É muito comum. Não é nem na questão de não ir. Elas se cuidam no pré-natal, e chegam depois de 10 anos num consultório e o médico pergunta: “- quando foi a última vez que a senhora fez o preventivo?”, e elas respondem: “- há, quando a minha menina caçula nasceu”, e isso foi há nove, 10 anos atrás. E a relação monogâmica também, porque daí elas têm a desculpa: “- há , mais eu só tenho um parceiro”. Mas quem disse que esse parceiro só tem você? Esse é outro ponto que a gente também tem que pensar.

O fato do HPV nos homens não ter sintomas deve ser mais um ponto em favor do uso do preservativo?

Sim. Na grande maioria dos casos o homem é assintomático. Com isso a mulher fica muito tranquila, confiando naquela relação monogâmica. Mas isso também já está mudando. O HPV está vindo muito forte no câncer anal, o câncer de pênis que está começando a surgir. Já tem vacina que inclusive o menino pode tomar, lá pro futuro evitar o condiloma, aquela verruga. Não querendo ser machista, nem feminista, o casal tem que sempre estar preservando a saúde do outro e isso não é o que acontece.

Qual o percentual de eficácia da vacina?

Ela é extremamente eficaz. Para se ter uma ideia, Estados Unidos, Canadá, União Europeia inteira, contando com o Reino Unido, já estabeleceu para a faixa etária de meninas de 10 a 12 anos. Antes da primeira relação sexual ela é 100% previnível, então você está dando um presente pra sua filha, fazendo uma vacina contra o câncer do colo do útero.

Quem já iniciou a vida sexual também pode tomar?

A partir do momento que você começou a vida sexual você pode e deve tomar a vacina, porque ela também previne o avanço do câncer. No caso de quem já tem o HPV também pode tomar, porque mostra o anticorpo. Se você tem o HPV, ele fica lá dando de bobo e quando você toma a vacina faz um anticorpo anti HPV, que numa diminuição do seu sistema imunológico, aquilo vai reagir a favor do seu organismo. Então a vacina não é só pra virgem e no Brasil está sendo recomendada para mulheres de nove a 26 anos, ou de 10 a 26 anos, conforme a vacina. Na União Europeia já esta chegando a 45 anos, porque alguns estudos mostram que tem anticorpos produzidos por essas mulheres de 30 anos.

Quantas doses devem ser tomadas para que tenha o efeito desejado?

São três doses que devem ser administradas. Contudo, infelizmente ainda não há vacinas pela rede pública, só pela rede privada. Houve um projeto de Lei aqui no Estado, mas foi vetado pelo Governador André Puccinelli, sob alegação de que não haveria recursos financeiros suficientes.

Qual deveria ser a previsão para vacina, em se tratando de Brasil?

Se a gente for pensar em sistema público, quem a gente vacina contra hepatite B? A criança que acaba de nascer pra não ter câncer de fígado lá na frente, e as gestantes que têm que preservar o feto. Então a vacina do HPV, pra entrar no sistema público, eu acredito que o Ministério deva acampar para a faixa etária de 10 a 12 anos, que é onde vai ter 100% de eficácia. Isso se chama farmacoeconomia, ou seja, eu gasto agora mas não pago daqui há 20 anos quimioterapia, radioterapia para essas mesmas mulheres.

Então a economia seria muito grande no caso da prevenção com a vacina?

Muito. Hoje você gasta, vamos supor R$ 1 milhão com a prevenção. Quando esse grupo etário estiver com 40 anos você não vai estar pagando radioterapia, quimioterapia e outros tratamentos, além de que não estará pagando aquele preço intangível que é a vida de uma mulher, que está em idade fértil, que tem filho em casa, tem parceiro e acaba se despedindo da vida de uma maneira trágica.

O Ministério da Saúde está incorporando novos medicamentos para tratar de câncer de mama a partir de 2013. A medida vai ajudar efetivamente?

O medicamento Herceptin(trastuzumab) que é para câncer de mama é o que está vindo agora em 2013. O que o SUS tem feito é incorporação de novas tecnologias. Então quando você vai no hospital do Câncer, no Universitário, no Regional, a gente tem tratamento para os pacientes portadores de câncer. Esse medicamento entra em 2013 porque ele já mostrou que em casos de câncer de mama metastático – aquele que já se espalhou para algum lugar como pulmão, cérebro – essa medicação vai ter uma eficácia fundamental para a sobrevida dessa mulher. O governo entra agora em 2013 com R$ 130 milhões para esse tratamento de câncer de mama, que esta na ponta da linha e faz parte do programa de Prevenção e Tratamento Precoce.

O câncer de mama também tem medidas de prevenção?

O câncer de mama é diferente do câncer de colo de útero e não é previnível. Ele vem com uma carga genética. Quem tem parente de primeiro grau que é portador de câncer de mama ou que teve a doença ou que morreu decorrente a ela, tem que ligar a antena e ir no ginecologista frequentemente, fazer mamografia a partir dos 40 anos anualmente e fazer a detecção precoce.

Existe alguma outra alternativa para essa mulher que tem essa predisposição genética, como uma vacina por exemplo?

Ainda não existe a vacina para câncer de mama, nem alguma coisa para prevenção genética de quem tem predisposição a doença. Então os tratamentos, quanto mais cedo foram feitos, mais eficazes são para o combate. As únicas prevenções que existem é para que as pacientes evitem alimentos industrializados, pratiquem atividade física, combatam obesidade, diabetes sedentarismo, porque já foi provado que todos esses agravantes causam risco maior da paciente desenvolver o câncer de mama após os 50 anos. Por isso a mamografia entre 50 e 60 anos é obrigatória.

A orientação é para que a mulher não espere ficar doente para procurar o médico?

Sim, até porque o ginecologista ele não é para fazer diagnostico de doença, mas para prevenir. Agora não adianta tudo isso e ter vida sedentária e depressão. O câncer de mama está muito ligado a depressão, perda, divórcio, morte de um filho, é psicossomático.

O que as mulheres devem fazer para rever quadros como esses?

Uma das indicações é participar de atividades coletivas, seja na igreja, seja em grupos de amigos, seja em trabalho voluntário, isso é importante, porque você também vai fazer uma melhora na sua qualidade de vida para não desenvolver um quadro depressivo. Agora, se já estiver com depressão tem que tratar, porque depressão é igual diabetes, não é frescura e tem medicação para tratamentos de casos mais graves.

E o pré-natal, as mulheres têm feito de forma correta?

Em Mato Grosso do Sul os números também são alarmantes em relação ao pré-natal. A taxa de mortalidade das gestantes ainda é altíssima. O ideal seriam 12 consultas ou no mínimo sete consultas em nove meses, mas não é isso o que acontece. Na grande maioria de casos a mulher vai lá faz um ultrassom e acha que já está bom. E não é. Ai o médico perde a pressão arterial que está subindo, a diabetes eu está aparecendo, o retardo de crescimento intrauterino dessa criança, então temos a dificuldade dessa fidelização também.

Se acompanhada desde o início da gravidez, quantos partos de risco podem ser evitados?

Evitaria quase 100% deles. Não é 100% porque existem as embolias, os riscos de descolamento de placenta, mas diminui em muito o perigo tanto para a criança quanto para a mãe.

Hoje, qual a estatística de mulheres que fazem o preventivo regularmente?

A faixa de fidelização atual é de menos de 30% das mulheres em Campo Grande, no sistema de saúde privado. No SUS é um pouco abaixo. Então o número ainda é mínimo. O ideal é que fosse pelo menos 80%. E por isso estamos sempre fazendo campanhas, congressos, para informar as pessoas e plantar a semente nos médicos, para que eles continuarem nessa luta.

De quanto em quanto tempo as mulheres devem ir ao médico ginecologista?

O preventivo deve ser feito a cada ano. Só se o médico pedir para marcar antes, ai a mulher deve voltar obrigatoriamente. Temos médicos ginecologista em qualquer unidade de saúde, então as mulheres também tem que fazer a sua parte e se cuidar. O agendamento pode até demorar em alguns casos, mas a consulta sai.

E aquela mulher que se queixa da falta de tempo?

Eu sempre digo que cemitério está cheio de insubstituíveis. “Não vou a fazer a mamografia porque eu tenho que estar no meu trabalho porque só eu sei fazer tal coisa”. No cemitério está cheio de gente assim. Uma coisa é a morte que tem que acontecer, outra coisa é a qualidade de vida. Quando você se previne, evita morte precoce ou com doenças associadas.

Existem números atualizados de mulheres que se cuidam com regularidade no Estado?

Esta sendo feito neste momento um mapeamento por meio do projeto ônibus do câncer. Ele esta passando por todas as cidades do interior. É um projeto social beneficente, que começou em março e já percorreu até agora 15 cidades. Todos os finais de semana estão em um município. Em um ano, quando passarem por todos os municípios, nós teremos um raio x completo de todo Estado.

Jornal Midiamax