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Ana Ruas fala sobre seu trabalho com as crianças e o fascínio das sombras na arte

A artista plástica Ana Ruas tem seu trabalho estampado em diversas obras públicas de Campo Grande, reunidas no seu livro “Intervenções Urbanas”. Arte educadora, ela desenvolve diversos trabalhos em seu ateliê com as crianças, público cativo de sua arte. Lá, ela recebeu o Midiamax com suas seis calopsitas e mostrou que as crianças aprendem a […]

Arquivo Publicado em 25/10/2012, às 18h17

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A artista plástica Ana Ruas tem seu trabalho estampado em diversas obras públicas de Campo Grande, reunidas no seu livro “Intervenções Urbanas”. Arte educadora, ela desenvolve diversos trabalhos em seu ateliê com as crianças, público cativo de sua arte.


Lá, ela recebeu o Midiamax com suas seis calopsitas e mostrou que as crianças aprendem a desenhar além do convencional, enxergando o mundo sob outras perspectivas.


O trabalho de Ana Ruas é recheado de sombras, que desenvolveu fascínio especial sobre a artista desde criança. Na entrevista, ela explica o motivo.



Midiamax: Por que você escolheu desenvolver trabalhos especialmente com as crianças?


Ana: Eu gosto do desenho da criança e do olhar despretensioso que ela tem sobre o mundo. No meu ateliê vêm crianças que gostam de pintar, que tem prazer em desenvolver os desenhos que faz. Aqui não é brinquedoteca, é um lugar para quem realmente gosta de pintar.


Nós desenvolvemos juntos a o modo como elas percebem o mundo. A gente conversa e vai mostrando para a criança como ela pode ver as coisas de outro modo, enxergar o que não tinha percebido. Aí ela começa a desenhar isso e é muito bonito ver a evolução.


A árvore deixa de ser o palitinho com uma nuvem em cima, porque eu mostro tipos de caules, raízes, folhas. E ela se interessa por aquilo e passa a desenhar.  Eu me encanto com as pinturas que elas acabam me trazendo.



Midiamax: Você já desenvolveu projetos em escolas também. Como foi trabalhar com adolescentes?


Ana: Percorri 53 bairros em três anos com o projeto “A cor das Ruas” em Campo Grande. Foi um trabalho que reuniu 720 adolescentes e foram produzidos diversos materiais com o projeto, como vídeos e cartões postais.


Fomos a escolas, Uneis e outras instituições. A experiência com a criança é uma lição de vida. Cada uma delas têm seus problemas, independentemente da classe social, todos nós temos problemas. E eles são importantes para nós. A diferença é perceber as dificuldades dos outros e enxergar as lições que elas trazem para a nossa vida.



Midiamax: Atualmente você desenvolve um trabalho com a Pestalozzi da capital. Como é o contato e o ensino para pessoas com deficiências?


Ana: Em 1998 eu já estive lá, mas a percepção de hoje é diferente. Levei o papel artesanal da Pestalozzi para a mostra ‘Morar Mais Por Menos’, para participar do ambiente que criei.


Lá a gente aprende muito o que significa cumplicidade e companheirismo também. Cada um tem um problema diferente, mas sempre que um precisa do outro, todos ao redor se dispõe a ajudar. É muito bonito de se ver. 



Midiamax: O seu trabalho é permeado pela pintura da sombra de um objeto ou um lugar. Por que?


Ana: Precisamos deixar a nossa marca no mundo. Quando um objeto é deixado em um lugar, gosto de deixar a memória de que ele passou por ali, é o registro de que esteve ali e isso é marcado pelo desenho da sombra.


Em uma intervenção urbana, na Euler de Azevedo, desenhei a sombra dos trilhos ao meio dia do mês de dezembro. Hoje não temos mais o trilho para verificar certinho a sombra real sobrepondo o desenho, mas a memória de que ele existiu é a sombra que pintei.



Midiamax: E de onde nasceu o fascínio pela sombra?


Ana: Passei a minha infância em um vilarejo chamado São João da Urtiga e de vez em quando passava na frente de casa um senhor vendendo gravuras. Eu observava o desenho do reflexo das crianças na água, as árvores e perguntava a professora, aos pais, como se fazia aquilo.


Minha mãe ganhou uma bandeja de casamento que tem o reflexo de uma criança. Eu tenho até hoje comigo o desenho. Percebia a diferença de iluminação e os reflexos e achava muito mágico. Nasceu daí minha vontade de pintar o reflexo, a sombra.


Na construção do meu ateliê, foi colocado um andaime de seis metros de altura. Eu o pintei na parede para deixar a memória de que ele esteve aqui, ele faz parte da história da construção.  Mais tarde, pedi para passarem uma tinta branca por cima. Na primeira mão de tinta, falei: ‘está bom. Agora sim ele parece a lembrança de que esteve aqui’.


A marca está ao lado da luminária gigante pintada nas paredes e é vista se observada com atenção.


Jornal Midiamax