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Prazer duplo: Inter vence Gre-Nal e vai à Libertadores

Em um estado onde o futebol é muito mais do que um jogo de bola, onde sujeitos correndo de vermelho ou de azul formam a identidade cultural de um povo, há duas tatuagens na pele de boa parte dos habitantes: o clássico Gre-Nal e a Libertadores da América. Experimente juntar as duas coisas. Tente imaginar […]

Arquivo Publicado em 04/12/2011, às 21h26

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Em um estado onde o futebol é muito mais do que um jogo de bola, onde sujeitos correndo de vermelho ou de azul formam a identidade cultural de um povo, há duas tatuagens na pele de boa parte dos habitantes: o clássico Gre-Nal e a Libertadores da América. Experimente juntar as duas coisas. Tente imaginar o que seria vencer um Gre-Nal e, por causa dele, ir para a Libertadores da América. Ou pergunte a um colorado. Ele saberá responder o que representa a junção dos sentimentos, porque o Inter, com vitória de 1 a 0 sobre o Grêmio neste domingo, no Beira-Rio, garantiu presença na edição de 2012 da maior disputa do continente – aquela mesmo que vermelhos e azuis ganharam duas vezes cada.


Foi um Gre-Nal histórico, reunindo um time louco pela vitória e outro doido para evitá-la. O Grêmio não foi mal. Deu provas factuais disso ao mandar duas bolas na trave de Muriel. Mas quem ganhou foi o Inter. Quem foi à Libertadores foi o Inter. O domingo é dos colorados. O fim do ano é deles.


O gol do Inter, nenhuma novidade, foi de D’Alessandro, a melhor figura em campo. Ele cobrou, no segundo tempo, pênalti sofrido por Oscar. Assim, permitiu que o Inter fechasse o Brasileirão na quinta colocação, com 60 pontos. O Grêmio vai para a Sul-Americana.


O agora. E nada mais


Jorge Luis Borges, escritor argentino que não dava a mínima para futebol, certa feita criou o conceito de Aleph. É, nos delírios dele, um pequeno ponto luminoso que, na prática, é o mundo todo. Nele, se vê tudo que acontece (e que já aconteceu): cada episódio ao mesmo tempo, sem limites de tempo e espaço, como a explosão de uma memória infinita. É o extremo oposto de um dia de Gre-Nal. Pelas paredes do estádio que recebe um clássico gaúcho, não passam lembranças, não interessa o passado – ninguém tem família, emprego, problemas. É tudo futebol. É tudo agora.


E o agora do Inter era vencer o Grêmio e ir à Libertadores. E o agora do Grêmio era impedir que isso acontecesse. Nada mais importava. Duas instantaneidades diferentes: uma apressada, afobada pelo gol; a outra parcimoniosa, dando tempo ao tempo. Desde o primeiro segundo de jogo, o Inter tentou acelerar os ponteiros do relógio do Gre-Nal. E o Grêmio, no primeiro tempo, conseguiu dar corda lenta neles.


Existe quase uma lei no clássico gaúcho: se é Gre-Nal, que se olhe para D’Alessandro. Se teve alguém chamando cada pedaço do couro da bola no primeiro tempo, foi o camisa 10. Se teve alguém disposto a arriscar de longe (uma, duas, três, quantas vezes fosse necessário), era D’Alessandro. Ele coordenou a tomada de espaço ofensivo do Inter. Mesmo bem marcado (por Fernando, geralmente), conseguiu incomodar. Mas o Grêmio teve Victor.


Foram quatro chutes do camisa 10 nos 45 minutos iniciais. Um foi para fora, e outros três foram espalmados pelo goleiro – vítima do argentino em outros clássicos. Victor ganhou no primeiro tempo. Passou por ele o 0 a 0.


A calma do Grêmio, porém, não foi sinônimo de falta de ambição, de desinteresse. Longe disso. Os visitantes foram ao ataque – embora sem sucesso. Muriel teve que se virar duas vezes – uma em chute de Marquinhos, outra em batida de Douglas. E ainda viu uma bola encontrar sua trave. Foi aos 28 minutos, com Marquinhos, em chute pela esquerda de ataque. Quase.


A pressa fez o Inter tropicar nas próprias pernas em parte de suas investidas ofensivas na etapa inicial. Leandro Damião não esteve bem. Gilberto correu mais do que as jogadas exigiam.


Oscar foi a contrapartida. Ele se apresentou como boa alternativa pela direita. Teve vitória pessoal. Em dois cruzamentos, quase levou o Inter a pular na frente. No primeiro, a bola desviou na zaga, e Leandro Damião conseguiu se atirar nela, mas sem precisão; na outra, Gilberto não conseguiu dar um toque que fatalmente renderia gol.


D’Alessandro. Sempre D’Alessandro


O Inter voltou voando no segundo tempo. E, de novo, sem precisão. O Grêmio, com mais organização do que pressa, seguiu ameaçando. Marquinhos bateu colocado, obrigando Muriel a fazer boa defesa. E aí Douglas quase fez história. Aos oito minutos, mandou cobrança de escanteio. A bola viajou. Cortou o céu do Beira-Rio. Atravessou a área. E parou no travessão de Muriel. Faltou um triz, um milímetro, para ser gol olímpico.


Virou jogaço. O Inter respondeu. D’Alessandro, sempre ele, acertou a rede por fora. Índio, histórico em Gre-Nais, cabeceou muito perto do gol. Cá e lá, lá e cá, cá e lá, lá e cá. Uma hora o gol sairia. E foi de pênalti.


Eram 14 minutos de um Beira-Rio que espumava tensão quando a bola caiu nos pés de Oscar. Ele estava dentro da área, frente a frente com Fábio Rochemback, feito num filme de faroeste, olhos nos olhos. Quem fosse mais rápido, venceria; quem sacasse sua arma primeiro, venceria. Oscar deu a finta. Rochemback esticou a perna. Pênalti.


O torcedor, esperto que é, não precisaria pensar muito para adivinhar quem pegou a bola para cobrar. Quanta história, quantos duelos, quanto significado naqueles segundos, pesados feito chumbo, em que D’Alessandro ficou separado de Victor por uma bola posicionado sobre a marca do pênalti. O argentino correu. E chutou. E viu Victor pular. E viu a bola entrar no cantinho, mansa – bola de Libertadores.


Era a maior notícia do mundo para os colorados. O Inter, com gol de seu ídolo máximo, de seu grande craque, estava indo para a Libertadores. O Beira-Rio entrou em surto. Mas havia uma eternidade pela frente – no jogo do time colorado e de seus concorrentes diretos por vaga na Libertadores.


Miralles entrou bem no Grêmio, em um aviso de que o jogo jamais poderia ser considerado história encerrada. O Inter poderia ter ampliado. Victor defendeu chute colocado de Leandro Damião. E caiu nos pés de Gilberto para evitar gol feito.


Celso Roth, em sua despedida, ainda tentou colocar Lúcio. Também Leandro. Mas não conseguiu o gol do empate, o gol que seria uma desgraça para os colorados. O Inter levou o jogo até o fim, garantiu a vitória, garantiu a vaga. E encerrou 2011 por cima.


Está encerrado o ano. Vem aí 2012, com novos Gre-Nais, com a Libertadores da América, com mais episódios dessa formação da identidade dos gaúchos – para quem o futebol é muito mais do que um jogo de bola.

Jornal Midiamax