Novos confrontos na Líbia assustaram a população neste sábado (27). Segundo o correspondente da TV Globo que está na Líbia, Marcos Uchôa, a noite deste sábado é a mais barulhenta e cheia de tiros desde que o repórter chegou a Trípoli, a capital do país.

“A troca de tiros não cessou e, durante a tarde, houve falta de tiros em alguns pontos da cidade, o que dá a impressão de que grupos leais que lutam a favor do ditador Muamar Kadhafi tenham saído às ruas”, disse o correspondente.

Existem relatos de moradores de carros de grupos pró-Kadhafi que estão passando pelas ruas e matando pessoas em vários bairros da cidade. Há também informações de que um reservatório de armas tenha sido saqueado.

 A população continua com problemas em sistemas essenciais. Falta luz todos os dias e há quatro dias não há água. Uchoa relata que faltam remédios em hospitais e também gasolina para o abastecimento de veículos.

Muitas pessoas estão deixando de trabalhar por medo e o governo convocou a população para tentar retomar a rotina.

O governo provisório tenta retomar a rotina do país e se preocupa com a questão de segurança e com a falta de combustível. Mas, para os rebeldes que passam o tempo todo pelas ruas, não faltam balas para tiros nem gasolina. Há um mercado negro de gasolina, pois todos os postos estão fechados.

Os telefones quase não funcionam e o lixo se espalha pelas ruas e as pessoas começam a reclamar. O pedido do governo para as lojas abrissem a partir deste sábado foi atendido por poucos. Mas as poucas que estão abertas tiveram grande movimento. Dentre os negócios que voltaram a funcionar há açougues e supermercados, fazendo a população comemorar a chegada de comida à cidade.

Aeroporto tomado pelos rebeldes

Os rebeldes anunciaram neste sábado (27) que controlaram todo o aeroporto internacional de Trípoli, na Líbia, mas admitiram a existência de combatentes leais a Muamar Kadhafi na área, que dispararam na sexta-feira (26) foguetes que destruíram três aviões civis na pista de pouso.

“Controlamos totalmente o aeroporto. Restam poucos focos de resistência na zona de Qafr ben Ghirshir”, a dois quilômetros de distância, disse Bashir al-Taibi, líder dos rebeldes que afirmam controlar o aeroporto.

Nas ruas de Qasr ben Ghishir, uma multidão festejava a “libertação”, aos gritos de “Kadhafi acabou para sempre”. “Ontem à noite, entre 60 e 80 carros do batalhão de Khamis Kadhafi, um dos filhos de Muamar Kadhafi, abandonaram a região e fugiram”, declarou Moktar Lakder, comandante da rebelião.

Vários habitantes confirmaram que veículos de partidários de Kadhafi deixaram a área, alguns com armas pesadas. Os combatentes leais a Kadhafi dispararam foguetes na sexta-feira e destruíram três aviões civis. Outras aeronaves foram atingidas.

De acordo com outro combatente rebelde, Basam Turki, ainda existem francoatiradores em Qafr ben Ghirshir. Os rebeldes líbios, que conquistaram na sexta-feira a principal passagem de fronteira com a Tunísia, prosseguiam avançando neste sábado ante o regime agonizante de Muamar Kadhafi.

 Combates esporádicos eram registrados na frente oriental e em Trípoli, enquanto vários países pediam a reconciliação. A comunidade internacional também quer evitar ações de vingança.

Um comboio com seis carros blindados que poderia transportar altos dirigentes líbios, incluindo Kadhafi, passou na sexta-feira pela fronteira entre Líbia e Argélia, informou a agência oficial egípcia Mena, citando uma fonte militar líbia rebelde.

“Seis Mercedes blindados passaram na manhã desta sexta-feira pela cidade de Ghadames”, revelou a agência, que cita um conselheiro militar líbio desta localidade situada na fronteira com a Argélia. O comboio foi escoltado até sua entrada na Argélia pelo chefe de uma “katiba” (brigada), explicou o militar rebelde, acrescentando que não pôde atacá-lo por falta de munição.

“Pensamos que transportavam altos dirigentes líbios, possivelmente Kadhafi e seus filhos”. Kadhafi está desaparecido desde a entrada dos rebeldes em Trípoli, no final de semana passado.

Uma fonte do governo argelino, no entanto, considerou pouco provável a entrada de Kadhafi no país. A Argélia afirma que mantém uma “estrita neutralidade” e se nega a interferir nos assuntos internos do país vizinho. Argel não reconheceu o Conselho Nacional de Transição (CNT), órgão político da rebelião.

Na região oeste da Líbia, os rebeldes assumiram o controle de Ras Jdir, área de fronteira com a Tunísia, e hastearam a bandeira da rebelião. Na frente oriental, a Otan informou neste sábado que continua bombardeando Sirte, cidade natal de Kadhafi, e afirmou ter destruído, entre outros equipamentos, 11 veículos com armas e um blindado.

De acordo com um colaborador da AFP, na frente oriental, os combatentes leais a Kadhafi resistem em Ben Yawad, 140 km ao leste de Sirte. Também eram registrados confrontos em Ras Lanuf, 20 quilômetros mais ao leste.

Em um clima ainda tenso, a ONU, a União Africana (UA), a Liga Árabe e a União Europeia (UE) pediram a todas as partes no conflito que evitem represálias, anunciou Catherine Ashton, chefe da diplomacia da UE.