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Morte de cortadores de cana que voltavam de Mato Grosso do Sul paralisa cidade no PE

Buíque, cidade com 52 mil habitantes, parou no enterro dos trabalhadores pobres recrutados para trabalhar na indústrica sucro-alcooleira sul-mato-grossense. Muitos levavam brinquedos para os filhos quando voltavam de MS.

Arquivo Publicado em 05/12/2011, às 13h29

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Buíque, cidade com 52 mil habitantes, parou no enterro dos trabalhadores pobres recrutados para trabalhar na indústrica sucro-alcooleira sul-mato-grossense. Muitos levavam brinquedos para os filhos quando voltavam de MS.

Uma cidade inteira está parada nesta segunda-feira (5) e o motivo está diretamente relacionado à expansão da indústria sucro-alcooleira em Mato Grosso do Sul. Buíque, a 258 quilômetros do Recife, no Pernambuco, está de luto. Hoje o município enterra 24 trabalhadores que morreram no último sábado, quando retornavam de Jateí (MS),


Os cortadores de cana foram recrutados no nordeste para trabalhar em Mato Grosso do Sul em uma prática comum da indústria sucro-alcooleira e da construção civil nos estados do Sudeste e Centro-Oeste do Brasil:  a ‘importação’ de mão-de-obra de locais remotos e pobres.


Segundo autoridades que participaram do resgate dos corpos, entre os pernambucanos de Buíque, que vieram para o interior de Mato Grosso do Sul em busca de renda melhor, muitos brinquedos que teriam comprado para os filhos com os ganhos temporários longe de casa. Os brinquedos não devem chegar, assim como os pais.


Trinta e três pessoas morreram no acidente e sete corpos ainda aguardam identificação. Desde o início da noite de ontem (4), treze caixões ocuparam o Clube Municipal da cidade que tem 52 mil habitantes. Uma multidão deve acompanhar o enterro dos cortadores de cana.


O governador de Pernambuco, Eduardo Campos, não deve perder o funeral, marcado para logo mais, às 11 horas. Outros onze corpos foram levados nesta manhã por um avião da Força Aérea Brasileira (FAB), mas os enterros dessas vítimas não foi confirmado para hoje.


A Prefeitura de Buíque decretou feriado municipal.


Pelo perfil do sistema de recrutamento desses trabalhadores, a maioria dos mortos morava em bairros humildes da Zona Rural. Algumas famílias perderam até oito parentes de uma só vez e a tragédia é financeira também, pois muitas dependiam do dinheiro que esses trabalhadores mandavam do corte de cana no Mato Grosso do Sul.


A viúva de José Edvaldo Pereira da Silva, Jailza Lúcia de Oliveira, conta que ele ganhava apenas R$ 90 por semana quando trabalhava tirando leite de vaca numa fazenda a poucos quilômetros de casa. Com quatro filhos para criar, o dinheiro era curto. Ele, então, decidiu seguir o conselho do namorado da filha mais velha e viajou para longe.


Em Mato Grosso do Sul, a renda mensal do agricultor chegava a R$ 1 mil. “Ele mandava, em média, R$ 500 para a gente. Este acidente foi terrível. Só Deus vai dar força para mim e para os meus filhos”, afirmou a também agricultora Jailza.


Dois dias antes de chegar, o marido ligou dizendo que tinha comprado brinquedos para os filhos. “Ele não teve tempo de entregar os carrinhos”, lamentou a mulher, com quem José Edvaldo era casado há 19 anos.


Já a dona de casa Judite Moreira perdeu oito parentes no acidente. “Todos ajudavam a família. Aqui o salário é pouco. Eles tinham que sair para poder alimentar os filhos. Meus sobrinhos passavam seis meses, às vezes um ano no Mato Grosso e depois voltavam para casa”, contou.


Doze feridos no acidente permanecem internados. José Cláudio da Silva, que está no Hospital Prado Valadares, em Jequié (BA), está com suspeita de morte encefálica. Ailson Pereira, Damião Pereira e Valdison Santana foram transferidos do Prado Valadares para o HR. Valdison, de apenas 20 anos, corre o risco de ficar paraplégico. (Com informações do Diario de Pernambuco)

Jornal Midiamax