Geral

Esvaziamento do Civitox pode ter contribuído para mortes no Hospital Regional

Diretor do Civitox fala em falta de médicos, atendimento por telefone, sem contato com pacientes e despreparo na rede de atendimento do SUS.

Arquivo Publicado em 16/11/2011, às 13h38

None
691110890.gif

Diretor do Civitox fala em falta de médicos, atendimento por telefone, sem contato com pacientes e despreparo na rede de atendimento do SUS.

Agora mesmo, eles poderiam estar em casa com a família. A menina Maria Eduarda Rissi, de apenas três anos, brincando como sempre. E o rapaz Márcio Paulo de Souza, 27 anos, trabalhando com o pai, pedreiro, e junto ao irmão deficiente, que protegia.


Mas foram duas vidas perdidas, precocemente. Os dois casos que se sucederam num prazo de apenas 10 dias, depois que as vítimas foram picadas por escorpião amarelo e por cascavel, estão enquadrados pela Policia Civil como “morte a esclarecer”. 


No caso da menina, o diretor do Civitox (Centro Integrado de Vigilância Toxicológica) Sandro Benites, falou em “fatalidade”. No de Márcio, que ficou dentro do Hospital Regional por horas esperando pelo soro que poderia salvá-lo, a direção do HR informou que abriu uma sindicância, mas adiantou que “em nenhum momento houve omissão de socorro ao paciente”.


Mas essa pode não ser a verdade. Pelo menos é o que apontam as revelações do próprio diretor do Civitox, Sandro Benites, à reportagem do Midiamax. Na entrevista, o diretor relata o contínuo esvaziamento da unidade que já foi referência em tratamento toxicológico no país, desde que o Civitox foi transferido de dentro do pronto socorro do HR, onde funcionava há seis anos, para o centro da cidade, em abril de 2010.


Desde então, segundo o relato do diretor, o Civitox perdeu médicos, profissionais especializados e estagiários, mas que não foram repostos pela secretaria de Saúde, nem em número, nem em qualidade.


Segundo Benites, o Civitox praticamente não efetuou treinamentos com os médicos do HR e do interior, nos postos de saúde e com os paramédicos do Samu – que não são especializados em toxicologia, mas fazem o atendimento total aos pacientes envenenados.


As limitações do Civitox são tão grandes que o contato de seus especialistas com os médicos do pronto-socorro do Hospital Regional é feito por telefone, segundo o diretor. Mesmo que a distância entre pacientes graves, em com risco de morte, e o Civitox seja de apenas alguns poucos quilômetros.


Sobre a reposição dos especialistas que deixaram a unidade em troca de um trabalho melhor, Sandro Benites chega ao ponto de dizer que ter um médico de plantão no Civitox, por 24 horas, todos os dias, seria um “sonho”.


O diretor se referia aos centros semelhantes de outras cidades brasileiras, também fora dos hospitais, mas que estão adequadamente aparelhados.


Sandro Benites afirmou que no Civitox, dentro do HR, “existiam três médicos, um deles psiquiatra (para tentativas de suicídio), cinco farmacêuticos, dois biólogos, uma veterinária, assistentes sociais, e um grupo de estagiários que toda semana, uma ou duas vezes por semana, a gente fazia a reciclagem deles, com aulas ministradas para eles e os próprios profissionais”.


Comparando com a situação atual, o diretor afirmou: “Hoje nós temos três farmacêuticos, dois biólogos, um deles cedido pela secretaria de Educação, e dois médicos. Os centros de outros estados tem muitos mais médicos que farmacêuticos. Tem centro que 24 horas por dia são cobertos por médicos, isso acho que seria um sonho, o ideal, um médico, capacitado, para estar dando esse tipo de informação dentro de um centro”.


O que se pode deduzir, e é mais grave, é que no Civitox nem sempre quem repassa as informações, e por telefone, é um médico especializado.


Entrevistas revelam que demora no atendimento provocou mortes
Segundo o que já foi amplamente noticiado, a menina foi picada por volta de 19 horas, e os pais a levaram para a UPA Coronel Antonino, onde Maria Eduarda ficou recebendo antialérgicos e analgésicos, até às 22h30. Por volta das 23 horas, ela foi internada no Hospital Regional, em estado grave, e veio a falecer no dia seguinte.


Depois da morte da garotinha, Benites afirmou à imprensa que “o veneno deste escorpião amarelo ataca diretamente o coração, e se não tomar o soro rapidamente, a evolução é fatal”. Rapidamente, com presença de vômito, são 15 minutos.


O caso pode retratar a falta de treinamento em toxicologia da rede de atendimento, como Sandro Benites reportou ao Midiamax.


Segundo o Samu, a menina foi encaminhada para a UPA por indicação da central de regulação, porque o caso não era grave.Ainda não, porque a criança acabara de ser picada, e o veneno só estava começando a circular por todo o seu organismo, provocando vômitos – que indica o alastramento da intoxicação, segundo o diretor.


Pai de Marcio passou a madrugada implorando por atendimento no HR
Para comprovar a real situação da rede de atendimento às pessoas envenenadas por animais peçonhentos, a reportagem colheu o relato desesperado de Milton de Souza, o pai de Márcio. O pai relatou o drama vivido pelo filho e por ele, durante 15 horas, em busca de atendimento.


Ainda abalado,o pedreiro relatou todo o agravamento do estado de saúde do rapaz, provocado pelo veneno de cascavel, até que ele morresse, no final da manhã seguinte. O pedreiro não sabia que estava presenciando o alastramento do veneno no corpo do filho, que ele chamava de “meu guri”.


Ouça a denúncia:



Segundo Milton de Souza, a médica do pronto socorro,“menina novinha” desconhecia os próprios sintomas decorrentes do veneno de cascavel, e que constam na internet:a chamada “cara de bêbado”, por atingir o sistema nervoso central, adificuldade de abrir os olhos, visão dupla,urina cor de sangue, dificuldade em respirar e manter-se em pé por desorientação mental.


Mesmo depois do rapaz ter identificado a cobra que o picou como sendo uma cascavel – “a do chocalho” – a médica afirmou ao pai que o rapaz parecia estar com os sintomas de uma “overdose” .


Márcio já apresentava a maioria destes sintomas quando saiu de casa com o Samu, e foi encaminhado para a UPA de vila Almeida, onde permaneceu por quase seis horas.


Embora o rapaz tenha sido transferido para o Regional por volta de meia noite, só na manhã seguinte é que saiu o resultado confirmando o envenenamento,segundo o pai. Depois disso é queo rapaz tomou o soro antiofídico. Mas em poucas horas depois,Márcio estava morto. 


Na entrevista à reportagem, gravada, o diretor do Civitox afirmou que estes exames para detectar o tipo de veneno não demoram mais que uma hora.


Na entrevista à reportagem, o pai de Márcio descreve o desespero que passou vendo o agravamento do envenenamento do filho,em uma maca do corredor do pronto socorro, sem saber que aqueles sintomas conduziriam o filho à morte.


Milton de Souza chegou a levar, sozinho, o filho ao banheiro, e ao ver a cor avermelhada da urina, supôs que fosse o efeito de remédios. Um enfermeiro certamente teria informado o fato à médica.


Na entrevista, Milton de Souza resumiu a situação que enfrentou no hospital: “Um caso desses, desde que chegou e falou, se não está preparado para aquele coisa, chama quem entende, comunica quem entende, eu sei lá, é um despreparo total”.


Leia a entrevista com o diretor do Civitox ou escute a gravação:




Diretor – “A mudança maior foi a saída do Civitox de dentro do Hospital Regional, porque está tendo uma reforma no pronto-socorro. O Civitox ficava dentro do pronto atendimento do hospital regional. Aí com aquela reforma, a gente não tinha para onde ir, não tinha espaço físico no hospital, aí a gente ficou ali na rua Joel Adib, no Centro de Referência do Trabalhador. Então esse contato que a gente tinha com o paciente, deixou de ter.


Reportagem – Vocês não tem contato direto com o paciente?


Diretor – O contato é só por telefone”. A diferença é que numa situação mais grave, seria interessante um profissional estar se deslocando até o hospital. É diferente você passar o sintoma pelo telefone do que você estar vendo pessoalmente. Antes, a própria equipe do Civitox ficava dentro do hospital”.


Reportagem – Se chegar um paciente lá e disser que “a minha filha foi picada por um escorpião” ou “meu filho acha que foi picado por uma cascavel”, se ele está falando com você dentro do Hospital, do pronto-socorro, você já sabe que procedimento vai ter. Mas se ele fala isso para um plantonista que atende todos os casos que estão lá, e são muitos, a atenção é outra. O sr. concorda com isso?


Diretor – Concordo, mas há outros centros fora de hospitais em outras cidades.A presença do Civitox num hospital de referência é importante, como a gente estava um ou dois anos atrás? Eu acho que sim, facilitaria até para os profissionais que estão lá, até para segurança deles, que não estão lidando com isso todo dia como o pessoal do Civitox. Eu acredito que vai ser melhor se estiver lá dentro, mas não é uma decisão nossa, é do gestor, não é (Beatriz Dobashi, secretária de Saúde e Ronaldo Perches Queiroz, diretor do HR)
Nós tivemos também a saída de alguns profissionais dentro do Hospital Regional, que tinham um conhecimento enorme, mas que passaram em outros concursos. Eles saíram, e a gente teve que se readequar.  Então, fica difícil manter o Civitox, manter uma equipe no Hospital Regional, muito mais bem preparada do que a gente tem hoje.
E quando a gente tinha estagiários, na época – não estou falando mal do pessoal que está lá hoje…na verdade os médicos que estão trabalhando no pronto-socorro estão preparados para atender tudo. Na dúvida, eles têm que entrar em contato conosco, e foi feito o contato.


Reportagem – O que o sr. acha, já pode fazer um balanço do que ocorreu?


Diretor – Eu acho que uma medida deveria ter sido tomada, e foi tomada. Segunda-feira (7/11) nós fomos chamados junto a secretária de Saúdepara que seja feito um treinamento, uma capacitação para o profissional que está lá, uma sensibilização para a gravidade dos casos que nós temos a partir de então. Isso vai ser feito no próximo dia 24, agora.
Mas não adianta, por outro lado, você ir lá, fazer uma capacitação, fazer uma vez na vida, e nunca mais continuar, voltar lá. Tem que ser um treinamento constante e continuado dos profissionais que atuam na rede.
Os centros que funcionam à distância, em outros estados, eles têm muito mais médicos, do que farmacêuticos. Existem centros que 24 horas por dia são cobertos por médicos. Isso seria um sonho, seria o ideal – um médico capacitado estar 24 horas dentro do centro para dar esse tipo de informação.

Jornal Midiamax