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Cientistas de MS realizam pesquisas com mandioca em busca da cura do câncer

Mas, eles precisam de apoio financeiro; de acordo com os pesquisadores, o uso da acetona cianidrina causou a morte das células tumorais de 84,9% e 100% nas doses de 20,0 e 30,0 µg/mL

Arquivo Publicado em 17/03/2010, às 23h02

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Mas, eles precisam de apoio financeiro; de acordo com os pesquisadores, o uso da acetona cianidrina causou a morte das células tumorais de 84,9% e 100% nas doses de 20,0 e 30,0 µg/mL

A mandioca, tão difundida na culinária sul-mato-grossense e brasileira, pode entrar para a história com um título nobre: o de ajudar no tratamento de uma das doenças que mais preocupam a população, o câncer.


Segundo informações da UCDB (Universidade Católica Dom Bosco), estudos desenvolvidos in vitro pelo pesquisador Me. Rondon Tosta Ramalho, orientado pela professora Dra. Marney Pascoli Cereda, demonstraram resultados promissores com o uso da substância acetona [ cianidrina derivada da linamarina], extraída da mandioca, contra células tumorais cancerígenas retiradas de camundongos.


A pesquisa foi tema de dissertação de Mestrado em Biotecnologia da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB) e como resultado foi possível depositar uma patente no Instituto Nacional da Propriedade Intelectual (INPI) para exploração do potencial da substância. O depósito de número 01090027566 foi feito em 27 de maio de 2009, e é a primeira patente da Católica.


A substância em estudo é natural, mas pode ser sintetizada em laboratório para produção em grande quantidade, informam os pesquisadores. Rondon é farmacêutico-bioquímico e, conforme explicou, a linamarina age com efeito alvo, isto é, consegue distinguir entre células saudáveis e cancerígenas e mata a célula doente por asfixia. A pesquisa teve início no estado de São Paulo e foi concluída na UCDB.


“Estamos buscando parceria com empresas e instituições com o objetivo de continuar as pesquisas em condições in vivo e em clínica. Estudos mundiais tinham avaliado o cianeto no tratamento de tumores, mas com resultados muitas vezes controversos quando o princípio era a amigdalina. A amigdalina chegou a ser aprovada para uso antitumoral, mas foi retirada pelo efeito tóxico colateral sobre as células ‘sadias’. A forma como foi proposta a liberação de cianeto abre um novo campo de pesquisa para a aplicação da acetona cianidrina. Todas as plantas de mandioca possuem linamarina distribuída de forma desigual, e esse composto libera cianeto, mas sua ação sobre células tumorais é pouco pesquisada”, afirmou Marney. “A pesquisa nas condições em que foi realizada comprova a hipótese de que podemos liberar gradualmente cianeto sobre células tumorais usando um modelo diferente daquele que vem sendo relatado na literatura internacional”.


De acordo com os pesquisadores, o uso da acetona cianidrina causou a morte das células tumorais de 84,9% e 100% nas doses de 20,0 e 30,0 µg/mL, respectivamente, em apenas 2h de incubação. Nas concentrações baixas de 0,5, 1,0 e 2,0 µg/mL, observaram-se valores acima de 90% de morte celular após 24h, o que evidencia a capacidade da célula tumoral de se intoxicar de maneira irreversível e acumulativa com o cianeto liberado pela acetona cianidrina, como esclarece o texto da patente.


“A pesquisa com a acetona cianidrina pode seguir por vários caminhos, todos eles com um produto que tem efetivamente um efeito diferenciado sobre células tumorais em relação ao seu efeito sobre células normais. Um dos caminhos poderia ser a utilização da substância em nanoterapias, o que poderia minimizar os riscos de intoxicação”, explicaram.


A vantagem, detalhou o autor da pesquisa, é que a “acetona cianidrina pode ser extraída de plantas, assim já poderia ser testado o extrato, mas também seria possível usar o ativo que já é comercializado. Por ser um produto comum na indústria de acrilato, sua produção poderá ser muito vantajosa em termos econômicos”.


PESQUISAS


O câncer é, no Brasil, a segunda causa morte por doença. Entre os tratamentos, alguns são locais, como a cirurgia e radioterapia, e outros são sistêmicos, como a quimioterapia, na qual as drogas usadas são de pouca seletividade e atacam tanto as células tumorais como as células normais que possuem características semelhantes. Em todo o mundo, diversos grupos desenvolvem pesquisas avançadas para buscar formas alternativas de tratamentos, mais eficazes e menos agressivos aos pacientes. Uma destas vias é o uso de células transgênicas com efeito alvo.


Uma das pesquisas transgênicas da ação alvo do cianeto em células tumorais está sendo desenvolvida por uma equipe europeia situada em Newcastle, no Reino Unido, e em Madri, na Espanha. Os pesquisadores vêm desenvolvendo trabalhos com testes em cobaias por meio da utilização de linamarina extraída da mandioca e linamarase excretada por células tumorais modificadas geneticamente.


Os artigos desta equipe, publicados em literatura internacional, descreveram sobre estrutura, interações e outras características das substâncias, relatando total êxito na eliminação de células tumorais sem, no entanto, agredir as células normais de roedores. Entretanto, esse modelo de liberação exige o uso de agentes geneticamente modificados e isso restringe o uso mais generalizado do princípio ativo selecionado em saúde humana. O modelo proposto pelos pesquisadores não exige intermediários.


O cianeto é uma substância comum no meio ambiente e tanto o homem como outros animais podem estar expostos a ele por diversos meios, como a água, materiais plásticos e acrílicos, fumaça de cigarro, plantas ciano­gênicas, entre outros. Os vegetais são uma importante fonte de cianeto, presente na forma de glicosídeos cianogênicos.


O uso de compostos cianogênicos no tratamento do câncer tem sido há muito estudado e chegou a ser adotado pelo Food and Drug Administration (FDA), dos Estados Unidos, por curto período de tempo.


A pesquisa da UCDB avaliou a eficiência de uma rota alternativa àquela usada pelos pesquisadores europeus, com o teste da acetona cianidrina, um metabólico da linamarina sobre cultura de células tumorais in vitro, dispensando o uso da enzima linamarase, explicam os autores. Para os testes foi utilizada como fonte a acetona cianidrina da marca Sigma-Aldrich, com 99% de pureza. Os animais foram camundongos Swiss machos, portadores de Tumor Ascítico de Ehrlich (TAE), doados pelo Departamento de Patologia da UNESP de Botucatu (SP). Os camundongos foram mantidos e multiplicados no Biotério da UCDB. Todos os procedimentos foram realizados em concordância com o Comitê de Ética em Pesquisa da Instituição.


 RESULTADOS


Os resultados apresentados foram comparados a outros obtidos através do uso de substâncias cianogênicas. A pesquisa, nas condições em que foi realizada, confirma a hipótese de que é possível avaliar o efeito do cianeto sobre células tumorais usando um modelo de liberação diferente daquele relatado na literatura, que usa a terapia gênica para produzir cianeto livre, a partir de linamarina.


O método de avaliação foi disponibilizado pela Dra. Denise Fecchio, da Faculdade de Medicina da UNESP, mas o experimento foi todo realizado na UCDB. “Conseguimos um efeito citotóxico similar ao de outras pesquisas, mas com um custo que possivelmente será bem inferior, o que estabelecerá custo benefício favorável com o uso da acetona cianidrina. Em pesquisa anterior era necessário usar a linamarina e, neste caso, o grama da substância chegava a custar U$ 2 mil”, destacou Marney Cereda. 


Diante dos resultados parciais, mas conclusivos, uma nova fase de pesquisa deverá ser iniciada, com busca de uma empresa parceira para experimentos mais complexos. O uso da substância como antitumoral demonstrou ser de grande eficiência, e novos trabalhos para melhor evidenciar seu uso como quimioterápico se fazem necessários, uma vez que praticamente inexistem trabalhos a esse respeito, completam os pesquisadores.

Jornal Midiamax