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Cotidiano

Mais de 10 anos de fedor: como é morar ao lado do mau cheiro da JBS em Campo Grande?

Matéria especial faz parte do 'Fala Povo: Midiamax nos Bairros' que, nesta semana, percorre o bairro Nova Campo Grande
Osvaldo Sato -

Um problema de longa data de odores desagradáveis atribuídos à fábrica da JBS tem incomodado os moradores da região do bairro Nova por mais de uma década. Apesar de inúmeras reclamações e uma série de ações legais, incluindo processos judiciais individuais de mais de 200 moradores e uma ação civil do MPMS (Ministério Público Estadual de ), o problema persiste.

Enquanto os moradores relatam um odor forte e constante que atrapalha suas vidas diárias e desvaloriza suas propriedades, a JBS nega consistentemente a responsabilidade pelo mau cheiro e não chegou a um acordo com as partes afetadas na Justiça.

O Jornal Midiamax conta esta história dentro de seu novo projeto, o Fala Povo: Midiamax nos Bairros, que apresenta particularidades, problemas e personagens dos bairros de Campo Grande. Ao longo da programação, no site, impresso e televisivo Midiamax (canal 4 da Net), serão exibidas histórias de moradores, curiosidades, pontos gastronômicos, segurança e tudo o que envolve o cotidiano da população local.

Na segunda edição do Fala Povo: Midiamax nos Bairros, o programa será realizado na região da grande Nova Campo Grande, com evento final no dia 30 de agosto.

As reportagens serão publicadas ao longo desta semana, 25 a 29 de agosto, culminando com uma edição do programa transmitida ao vivo da região, no sábado (30).

Moradores cobram soluções

Moradores do bairro Nova Campo Grande, em Campo Grande, convivem há anos com um odor persistente, atribuído à fábrica da JBS, que se intensifica no final da tarde e se espalha por outras regiões da cidade. A situação, que já dura mais de 15 anos, causa incômodo e afeta a qualidade de vida da população.

Após uma série de denúncias dos moradores e também processos judiciais, o fedor tornou-se pontual. No entanto, os moradores dizem que ao menos uma vez a cada bimestre, ‘escapa o mau cheiro’ da indústria de carnes.

Neste ano, o fedor se intensificou entre dezembro e janeiro. Em um dos períodos, durou mais de dez dias seguidos. É nesses dias que fica mais difícil viver no bairro. Quando acontece por um período mais intenso, o fedor invade as casas.

Nas redes sociais, os moradores sempre se unem para monitorar e reclamar do cheiro.

Fedor de couro cozido

Thaleson Televi, um radiologista de 36 anos que mora na região há quatro anos, descreve o problema. “Durante o finalzinho de tarde, esse horário que dá um cheiro bem forte, inclusive até para sentar na frente aqui com o meu chimarrão, tereré, é muito difícil, não consigo”, relata. Ele observa que o cheiro piora quando chove, misturando-se com o calor que sobe.

Júlio César Ferreira da Silva, de 43 anos, trabalha com serviços gerais e reside no bairro há oito meses. Ele afirma que o mau cheiro é “demais” e, em dias de odor forte, as moscas atacam e é preciso lavar a janela. “Nós sofremos aqui essa parte aqui, hein. No bairro Nova Campo Grande, todo mundo aqui, pra falar a verdade, essa área toda, né? O pessoal que mora aqui, todo mundo reclama”, desabafa. Ele explica que, às vezes, o cheiro é mais forte quando eles mexem com “o miúdo”. A situação é tão incô que, quando uma visita chega, as pessoas perguntam que fedor é esse, e a resposta é “é do frigorífico”.

Carlos Eduardo Bortoli, um funcionário público, corrobora as reclamações. “O pior cheiro vem mesmo no final da tarde, a partir das 4h30, fica um cheiro que toma conta de tudo”.

Já o comerciante Antonio Jesualdo Correia Simões, que mora na região há 15 anos, diz que o cheiro já foi bem mais forte e mais frequente. Ele nota que, atualmente, o odor se manifesta “só quando chove muito, ou uma tarde, assim, nessa parte alta daqui [parte mais distante da fábrica]”. No entanto, ele menciona que quem mora mais próximo ainda reclama bastante do cheiro, que se assemelha a “couro cozido”.

(Foto: Madu Livramento, Midiamax)

Moradores entram na Justiça contra empresa

A situação do mau cheiro na região do Nova Campo Grande resultou em cerca de 200 ações judiciais individuais movidas por moradores contra a JBS. Eles pedem por danos morais e materiais, alegando que o odor desvaloriza seus imóveis. Conforme uma conciliadora, os moradores ficam “presos” ao bairro, pois não conseguem vender suas propriedades ou precisam vendê-las por um preço muito abaixo do valor real.

Durante a “Semana da Pauta Verde” do Tribunal de Justiça de MS, um mutirão para a resolução de conflitos ambientais, a JBS participou de audiências de conciliação, mas não apresentou propostas de acordo. A empresa alegou que não tem culpa do mau cheiro, atribuindo a origem do odor a uma lagoa que, segundo a JBS, não seria de sua responsabilidade. Diante da falta de acordo, os processos seguem para a 15ª Vara Cível de Campo Grande.

A defesa da JBS chegou a acusar os advogados dos moradores de “litigância predatória”, uma prática de mover ações em massa para obter ganhos financeiros. A empresa também tentou descredibilizar reportagens e laudos oficiais, afirmando que as acusações são “embasados exclusivamente por meio de reportagens jornalísticas tendenciosas e vídeos”.

Ministério Público e JBS firmam TAC

O Ministério Público de Mato Grosso do Sul também entrou com uma Ação Civil Pública contra a JBS após diversas denúncias e fiscalizações. O MPMS pede que a JBS adote as providências necessárias para acabar com o mau cheiro, incluindo a detecção e reparo de avarias no sistema de exaustão e o plantio de uma “cortina arbórea” em todo o perímetro do terreno.

Isso porque os técnicos confirmaram os relatos dos moradores e, através de estudos e análises, concluíram que é possível haver incômodo a partir do forte odor emitido pela produção do frigorífico. “Relevante destacar que em situações de constante percepção/inalação desses odores pela comunidade adjacente ao frigorífico, o incômodo pode surgir”.

Em suma, a JBS rejeitou firmar um Termo de Ajustamento de Conduta com o MPMS, alegando que as obrigações do termo já haviam sido cumpridas. No entanto, um relatório técnico do MPMS apontou o contrário, mostrando vestígios de extravasamento de efluente bruto, falta de vedação nas estruturas e aberturas nas paredes laterais do frigorífico, o que permitia o escape de gases de mau cheiro.

Em fevereiro de 2024, o MP firmou TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) com o frigorífico para regularizar a situação. Uma das cláusulas previa implantação de sistema de controle de emissões atmosféricas, que será alvo da fiscalização.

A empresa alega ter adotado todas as medidas para evitar o vazamento de odores, como o fechamento das platibandas após a vistoria do MP. Em relação à cortina arbórea, a JBS informou que as mudas estão pequenas, mas que devem crescer em dois anos.

O MPMS reforçou a necessidade de a JBS cumprir o acordo. No entanto, a discussão perdurou, e o órgão chegou a ser denunciado no Conselho Nacional do Ministério Público por “falta de empenho” na resolução do caso. A situação levou o MPMS a solicitar que a JBS apresente um projeto técnico para cobrir e isolar as unidades com maior emissão de gases.

Lagoa de efluentes também seria responsável por espalhar odor ruim para bairro. (Reprodução)

Fala Povo: Midiamax nos Bairros

A história dos bairros de Campo Grande é tema do Fala Povo: Midiamax nos Bairros. Ao longo desta semana, reportagens especiais vão apresentar aos leitores aspectos históricos, indicadores socioeconômicos, demandas populares e peculiaridades das diversas regiões de Campo Grande, culminando com programa ao vivo no sábado. Quer ver seu bairro na série? Mande uma mensagem para (67) 99207-4330, o Fala Povo, WhatsApp do Jornal Midiamax! Siga nossas redes sociais clicando AQUI.

(Revisão: Bianca Iglesias)

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