Os incêndios na Serra do Amolar, região pantaneira de Corumbá, cidade a 425 quilômetros de Campo Grande, completam oito dias nesta segunda-feira (5). A atuação por terra ou ar desafia as equipes diante da complexidade das áreas de difícil acesso, pouca visibilidade e até risco de colisão com pássaros no combate aéreo.

Ao todo, 18 militares do Corpo de Bombeiros atuam na região, somando a força-tarefa do IHP (Instituto Homem Pantaneiro), brigadistas, voluntários e equipes do S.O.S Pantanal. A operação de controle dos bombeiros começou no dia 29 de janeiro, mas com atuação de brigadistas dois dias antes, segundo o Governo do Estado.

Para se ter uma ideia, a região de reserva da biosfera é patrimônio natural da humanidade. O território é formado por 80 km de extensão de morrarias que chegam a ter quase 1.000 metros de altitude. A área fica a aproximadamente 700 km de Campo Grande, a partir de Corumbá e por via fluvial, pois só é possível chegar a esse local por ar ou pelo Rio Paraguai. O combate requer preparação minuciosa, desde a logística para abastecimento de combustível e água aos cálculos que garantem a segurança dos voos e das equipes em solo.

“A dificuldade maior, além de acesso e áreas mais restritas e de proximidade de pistas que as aeronaves necessitam, são os pássaros. Como é uma aeronave que voa baixo para fazer o lançamento (de água), temos que ficar em constante atenção para não colidir com os pássaros grandes que tem no pantanal, como tuiuiú e garça. Dependendo da região que pega pode acabar até derrubando a aeronave. Então é uma atenção constante que a gente tem que ter durante os voos”, explicou o tenente Jonatas Lucena, do GOA (Grupamento de Operações Aéreas).

Ainda conforme o Governo do Estado, as aeronaves realizam o abastecimento das águas com 3 mil litros, o processo dura cerca de três a cinco minutos. O combate aéreo começou na quinta-feira (1º), com lançamentos diários partindo da fazenda Santa Tereza, que serve de base e apoio aos trabalhos, que já somaram aproximadamente cinco horas de voos.

“Temos um sistema de engate certo para conectar na aeronave. A gente faz uma ponte com uma motobomba no açude, com mangueira de 100 metros, que puxa a água para a piscina portátil que a gente movimenta em qualquer terreno nivelado. Precisamos trazer tudo isso de barco para a base, pois a área não tem acesso por terra. Tudo para dar suporte aos aviões”, explicou o cabo J. Gomes, que atua como tripulante e apoio das aeronaves.

“A gente tem bastante trabalho de logística anterior, de captação de água e mobilização do nosso material de apoio no solo. Precisamos deslocar os militares de barco com o material até a localidade para poder montar o apoio do abastecimento de água da aeronave e dar início as operações. Então, dependendo do local, o acesso acaba sendo mais restrito e necessita até do apoio de outra aeronave para trazer o material para começar os combates”, disse o tenente Lucena.

O combate atua com dois aviões ‘air tractor’ que podem fazer lançamentos de água em locais de difícil acesso por terra, outras duas aeronaves prestam apoio no transporte de carga e equipes. Tudo condicionado a possibilidade do uso de pistas, e garantia de segurança para pousos e decolagens.

“A gente necessita do apoio de pista. Muitas vezes conseguimos levar as equipes até mais próximo possível do local do incêndio. Mas antes a gente faz um levantamento de dados, análise das pistas próximas da região, condições meteorológicas. Então é sempre feito um estudo mais técnico e minucioso antes de destacar uma operação da aeronave deste porte”, afirmou o piloto do Corpo de Bombeiros.

Combate continua na região (Natalia Yahn, Governo do Estado)

Cenário desafiador

Ao todo, o fogo devastou mais de quatro mil hectares. As chamas ainda persistem na região, apesar da chuva para amenizar e o combate diário.

“Há restrição de visibilidade nos locais de incêndio em virtude da quantidade de fumaça. Outra situação também é que aeronave voa bem baixo, por isso a gente faz sempre uma passagem para verificar se existem árvores e postes, para poder, na segunda passagem, ir mais baixo para fazer o lançamento da carga d’água”, afirmou o piloto.

O incêndio na área de preservação próxima à Serra do Amolar é atípico, e o segundo que conta com a atuação dos bombeiros em 2024 na região pantaneira – outro ocorreu na semana passada em Miranda, na região do Parque Estadual do Pantanal do Rio Negro.

“As mudanças climáticas estão acontecendo. Um reflexo são esses incêndios, por exemplo, em janeiro, que é um mês comumente de chuvas na região. Porém, já atuamos em dois grandes incêndios este ano. E tivemos também na temporada de 2023, no mês de novembro, um crescimento absurdo dos focos de calor e incêndios aqui no Estado. Então a gente está se preparando cada vez mais, para que no momento de resposta a gente consiga dar um melhor atendimento, mais rápido a este tipo de emergência”, explicou a tenente-coronel Tatiane Inoue, diretora de Proteção Ambiental do Corpo de Bombeiros Militar, que realiza o monitoramento dos incêndios florestais no Estado.