Pular para o conteúdo
Cotidiano

Com educação que ensina a ‘relevar sentimentos’, mulheres amadurecem mais cedo ou são ensinadas?

Neste 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, o Midiamax encerra série de reportagens especiais e propõe uma reflexão
Jennifer Ribeiro -
(Madu Livramento, Midiamax)

Uma das primeiras memórias que me vem à cabeça quando penso em uma instituição que estudei na infância, é de quando um garoto, uns 5 anos mais velho que eu – na época eu tinha entre 6 e 7 – me pressionou com seu corpo contra a parede, sem me dar qualquer brecha para escapar.

As outras crianças que brincavam de basquete com a gente minutos antes tinham ido cumprir com alguma demanda passada pelos professores, que não me lembro qual era e, ali, sozinha, sem nem entender o que estava acontecendo, só conseguia sentir medo.

Pedi para ele me soltar, o que ele fez alguns longos segundos depois. Ao se distanciar, ele fez um gesto obsceno, disse algo tão esdrúxulo quanto, e saiu dando risada.

Com vergonha, contei para uma professora, uns dois dias depois, o que o garoto tinha feito. Ele já era conhecido da coordenação por seu mau comportamento. Ela me olhou e disse que não era nada, que aquele menino era assim mesmo e que já nem adiantava mais levar ele à coordenação, porque “ele não tinha jeito”.

Talvez, anterior a este episódio, eu até tenha passado por outra situação de assédio. Mas, como muito nova que era, não me lembro. Então, esse dia ficou marcado como o primeiro dos tantos infelizes que viriam. Hoje, vejo que aquela foi provavelmente a primeira vez que a ‘vida’ me empurrou à primeira lição de sobrevivência para quem nasce mulher em uma sociedade machista: os erros de meninos e homens sempre serão justificados com o fato de serem do sexo masculino. Enquanto isso, meninas são ensinadas a relevar tudo o que as magoam, diminuem ou restringem suas próprias liberdades, afinal, “mulheres são mais maduras que os homens”.

Com a liberdade de ser escrita em primeira pessoa, esta é a 5ª reportagem especial de uma série de matérias em alusão ao Dia Internacional da Mulher, celebrado nesta sexta-feira (8). Hoje, trazemos o questionamento: meninas amadurecem mais rápido ou são forçadas a isso?

Amadurecimento ou adultização infantil?

Que atire a primeira pedra a menina que nunca ganhou uma boneca, utensílios de cozinha ou então uma minipassadeira de roupa na infância, enquanto o primo ou os irmãos eram instigados a praticar diferentes esportes, aprender sobre carros ou, então, curtir alguns jogos de videogame. Essa realidade já é figurinha repetida.

Enquanto os meninos têm autorização para passar a tarde pós-aula jogando bola com os amigos na pracinha do bairro, bom é que a menina esteja em casa ajudando com os afazeres. Além de dividir as tarefas domésticas com a mãe – que diariamente sente a exaustão da jornada interminável de trabalho – ela aprende a ser responsável, porque dali uns anos precisará administrar a casa e cuidar de seu marido e filhos, como pede o manual.

Sobre o assunto, conversamos com Estela Márcia Rondia Scandola, professora e pesquisadora em gênero e geração com ênfase em diversidades, democracia e participação nas políticas sociais; crianças e adolescentes e povos indígenas; e investigações quali-quantitativas em saúde. A especialista aponta que o que socialmente é esperado de meninos e meninas é estabelecido antes mesmo do processo educacional, antes até do nascimento da criança.

Quando enfim ocorre o processo de educação, na maioria das vezes, as mulheres são as responsáveis por isso, já que socialmente ela é pautada pelo que é ‘certo e errado’. Isso muda conforme a comunidade em que o núcleo familiar está inserido, igreja que frequenta, bairro em que mora, as festas de que participa e, posteriormente, a escola em que estuda.

“A educação sexista na família é uma reprodução das condições em que o machismo opera em todas as esferas da nossa vida. Então, falar para as meninas fecharem as pernas e falar para os meninos, ‘mostra o que você tem’, por exemplo, é uma forma de demarcar o que vai ser das meninas e o que vai ser dos meninos”, pontua.

Ou seja, ao invés de ensinarmos meninas e meninos de forma igualitária os comportamentos e atitudes necessários para uma convivência social respeitosa, reforçamos o pensamento de que meninos podem tudo, enquanto meninas devem ser polidas e respeitáveis – embora nem sempre respeitadas.

E é, então, que esbarramos na adultização infantil, muitas vezes confundida com o amadurecimento. O que muitas pessoas admiram e apontam como ‘maduro e responsável’ nas meninas é, na verdade, a aceleração das fases da vida durante a infância e, depois, na adolescência. Ou seja, é estimular a criança, de forma inadequada, a entrar no mundo adulto antes mesmo de estar com o desenvolvimento físico e psicológico completo.

A resposta, portanto, é muito simples: meninas não amadurecem mais cedo que os meninos. Somos cobradas e direcionadas desde crianças a criar responsabilidades mais que os homens.

Impacto da educação respeitosa na infância

A jornalista Nathaly Campos, 35 anos, conta que se tornou uma mulher reflexo da criação que recebeu de seus pais na infância. Foi devido à base educacional que, com muito esforço, eles lhe proporcionaram, que ela conquistou seu espaço sem que ninguém a limitasse ou a subestimasse.

“Tive o privilégio de ter sido criada em uma família com mulheres muito fortes: minha avó, minha mãe, minhas tias, minha irmã. Cada uma em sua geração, com influências sociais distintas, mas firmes em suas posições, influentes e respeitadas no núcleo familiar”, pontua.

“Em casa, eu e a ‘mana‘ sempre ouvimos que tínhamos que estudar ‘para sermos independentes de pai, mãe, marido’. A mulher que sou hoje vê essa fala como um ato de amor e uma forma de proteção, para que as minhas escolhas nunca fossem condicionadas pela falta de opção – ocasionada, muitas vezes, pela dependência – especialmente, a financeira”, acrescenta.

Já em relação aos afazeres domésticos, a jornalista explica que ela e sua irmã foram ensinadas a serem adultas funcionais, capazes de desenvolver qualquer função em casa, seja um cuidado com a casa, seja um reparo em algum móvel, por exemplo.

“Lógico que ganhei bonecas, que brinquei de comidinhas, que fui incentivada a atos de serviço e cuidado. Mas, também, ajudava o meu pai a montar e a desmontar coisas, a parafusar e a desparafusar. A carregar o que fosse preciso e necessário”, conta.

“Tenho direito de escolha, busco ter voz nos espaços que ocupo e não me sinto obrigada a permanecer em qualquer lugar ou relação”.

Reflexo na vida adulta

Ao chegar na fase adulta, a mulher começa a corrida contra o tempo, em uma ânsia de conseguir concluir todo o checklist social: formação acadêmica, emprego bom, casamento, compra de uma casa e filhos.

Imersa e, na maioria das vezes, sozinha nesse cenário, os dias se tornam, no mínimo, exaustivos. Isso porque aprendemos que reclamar é sinônimo de ingratidão ou falta de amor pela família. Precisamos dar conta de tudo e todos! Se fugimos disso, somos questionadas: “Se as coisas sempre foram assim, por que mudar?”

“Muitas mulheres, quando começam a cuidar dos filhos sozinhas, começam a ser elogiadas pela sociedade como guerreiras, lutadoras, que fazem tudo pelo filho. Essa também é, na sociedade, uma forma de justificativa do machismo, porque reforça nas meninas que é isso”, volta a explicar a pesquisadora Estela Scandola.

Dessa maneira, portanto, a mulher precisa ser capaz de fazer muitas coisas sozinhas para não passar fragilidade. Mas, no fundo, sofre com a sensação de incapacidade, com a sensação de que poderia ser melhor.

Estela rememora o dia em que, ao abordar o assunto em sala de aula, um aluno discordou e disparou: “Não entendo o que você quer dizer. Minha mãe criou sete filhos sozinha, sendo lavadeira e passadeira, e ela é uma mulher honrada”. Surpresa com o apontamento, Estela esclareceu que não estava dizendo que ela não era uma mulher honrada, mas que a ela foram negadas todas as outras condições de ser mulher. Seu aluno não conseguiu compreender.

“É muito comum a ideia de que a sociedade precisa dessas mulheres guerreiras. As mulheres são forjadas a serem fortes. Ouvimos: ‘de agora em diante, você não vai ser frágil, você vai ser forte’ e isso mantém as mulheres numa relação extrema de violência, uma violência que impõe a condição de nunca poder dizer que está sobrecarregada porque ela se torna heroína, mulher forte, guerreira”, explica a pesquisadora.

E assim, restam os questionamentos. Qual versão dela mesma, a mulher, está deixando de viver para cuidar do outro? Quantos passeios, viagens, sonhos, bate-papo com amigas ela tem deixado de lado porque a rotina da casa consome 100% do seu tempo? Quanto do seu potencial segue escondido atrás de um sorriso cansado de quem foi ensinada que pode e deve dar conta de tudo?

Onde estão essas respostas?

Confira as reportagens anteriores desta série:

Compartilhe

Notícias mais buscadas agora

Saiba mais

Condenado por agredir a mãe, filho de Nicolas Cage não será preso; entenda

Cinco comerciantes foram selecionados (Foto: Divulgação, prefeitura)

Dourados divulga lista de comerciantes de pescados para Festa da Páscoa

Felipe Neto tinha intenção de criticar autoritarismo e divulgar audiolivro (Foto: Reprodução)

Felipe Neto desmente pré-candidatura à Presidência da República; vídeo foi jogada de marketing

Com sete mortes confirmadas, casos de dengue chegam a 2.445 em MS

Notícias mais lidas agora

detran direitor

Ex-diretor do Detran-MS é absolvido por supostas contratações irregulares

ferveu

VÍDEO: Ônibus ‘ferve’ e atrasa passageiros no Terminal Morenão

Mais de uma década depois, juiz inocenta 11 em sentença da Coffee Break

Após adiar por quatro vezes, CNMP vai julgar relatório sobre inspeção no MPMS

Últimas Notícias

Cotidiano

Minha Casa Minha Vida vai financiar imóveis até R$ 500 mil; veja simulação

A faixa 4 vai poder financiar imóveis de até R$ 500 mil, com benefícios do programa social

Cotidiano

Salário dos servidores municipais de Campo Grande está disponível para saque

O salário pago aos servidores corresponde a folha de pagamento do mês de março

Trânsito

VÍDEO: Motorista perde controle, derruba árvore e bate em poste de avenida de MS

Um rapaz de 18 anos foi socorrido

Polícia

VÍDEO: Homem é preso após perseguir mulher até delegacia depois de fazer ameaças em MS

Como forma de intimidar a vítima, o homem começou a trafegar em um carro na frente da Delegacia de Polícia