O bairro Água Limpa Park, na região da Avenida Tamandaré, em Campo Grande, vive a própria tragédia anunciada sob o temor de novas enchentes em dias de chuvas, conforme avaliam os moradores, ligadas ao transbordamento de uma lagoa de contenção fluvial, localizada entre as ruas Marluce e Formosa.

Os moradores sonhavam anos atrás que o bairro se tornaria em um ‘novo’ Carandá Bosque, com ruas tranquilas e crianças brincando rodeadas por imóveis de alto padrão. Porém, hoje vivem o pesadelo de ter a casa arrastada, como a que foi destruída com o impacto da água que transbordou de uma lagoa de contenção fluvial em 4 de janeiro deste ano.

Os proprietários veem os preços de avaliação e venda dos imóveis derretendo dia a dia, especialmente quando o nome do bairro fica em evidência por alguma tragédia. Conforme o relato dos moradores que a reportagem encontrou, enxurradas, bocas de lobo transbordando, asfalto esfarelando com a força da chuva e, mais recentemente, o caso da casa destruída, são alguns dos problemas do bairro que começou a ver seu cenário mudar há cerca de dez anos.

Cerca de uma década atrás as primeiras casas de fino acabamento chegaram, o que foi um chamariz para as seguintes. Hoje os imóveis custam a partir de R$ 350 mil e ultrapassam facilmente R$ 1 milhão.

A Rua Marluce faz uma divisão arquitetônica da região, mais antiga na parte da Vila Marli, e moderna do lado da Água Limpa Park. Casas antigas mostram que a área tem muitos anos de história, mas os imóveis recentes das quadras abaixo, em morros semelhantes aos de São Paulo e Rio de Janeiro, mostram que a região teve uma virada imobiliária.

Mas por que é uma tragédia anunciada?

Há anos os moradores alertam a prefeitura municipal de Campo Grande sobre os riscos de transbordamento da lagoa de contenção fluvial que fica acima do bairro, entre as Ruas Marluce e Formosa, conforme afirma o presidente da ONG SOS Água Limpa Park, Eliaquim de Oliveira. A entidade foi criada pela necessidade, diante dos problemas ambientais que o bairro enfrenta.

O piscinão é o mesmo em que a água transbordou no início de janeiro e, com a força da correnteza, ultrapassou terrenos e levou as paredes e móveis de uma residência.

Uma bacia de contenção é um espaço abaixo do nível da rua em que a água da chuva é escoada pela rede de encanamento, como um piscinão.

A lagoa de contenção fluvial que se projeta na parte alta do bairro recebe água de três fontes: da nascente do local, da água da chuva que cai ali e da água escoada de bairros próximos.

Conforme explica Eliaquim de Oliveira, a bacia de contenção foi construída décadas atrás para segurar a água que antigamente escorria, ultrapassava os bairros e alagava a Avenida Ernesto Geisel até próximo à antiga rodoviária.

O piscinão, que faz divisa com um condomínio, está cheio de mato e árvores na área. A ONG estima que são 15 metros de profundidade no local, que está assoreado, o que tem prejudicado o escoamento da água. 

“O que a Prefeitura tem que fazer urgentemente? É uma questão simples. Vim com um caminhão basculante e com um trator desassorear isso aqui e afundar aqui de uns 5 a 10 metros, tirando terra. É um problema ambiental”, categoriza Eliaquim.

Além disso, outro problema apontado pelos moradores é o entupimento e sujeira nas bocas de dreno da bacia de contenção. Além disso, a manilha por onde entra a água é maior do que a de saída, o que prejudica o escoamento. 

“A minha preocupação é com o bairro inteiro. Se a gente não trazer para a sociedade e tiver uma solução do poder público imediatamente, o risco é muito maior de virar um tsunami que pegou a casa aqui, de ser muito mais violento, mais forte e derrubar mais casas”, teme Eliaquim.

Moradores apontam diferença de tamanho nos drenos de entrada (esquerda) e saída (direita). (Foto: Arquivo Pessoal)

Eliaquim pontua que o bairro está em rota de enchente e que o problema de transbordamento é antigo. Porém, antes não haviam casas na região. “A ideia dos gestores da época era contencionar a água em cima, nas nascentes, onde a água vem firme que a gente reduz o impacto lá embaixo [na Avenida Ernesto Geisel]”. 

Estudos sobre a região

De acordo com artigo “Problemas ambientais das bacias hidrográficas do espaço urbano de Campo Grande/MS: a percepção ambiental de quem lê e vê a paisagem, o local está localizado na bacia hidrográfica do Segredo. 

No nível de classificação, a bacia hidrográfica do Segredo é de grau de criticidade nível V, ou seja, tem mais chances de alagamentos, inundações, enchentes e assoreamento. 

“A declividade e o índice de urbanização desta bacia hidrográfica representam condições desfavoráveis para o escoamento das águas pluviais, pois a água gerada a montante [nascente] escoa rapidamente para jusante [foz], área mais plana e com grande capacidade de geração de escoamento superficial devido o índice de urbanização”, explica a professora doutora da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul) e uma das autoras do artigo, Eva Faustino. 

Casa destruída por enxurrada
Casa destruída no bairro Água Limpa Park em 4 de janeiro. (Foto: Danielle Errobidarte)

A pesquisadora ressalta que o planejamento urbano deve prever ações que considerem a drenagem urbana integrada à infraestrutura municipal. 

“Atualmente o grande gargalo do sistema de drenagem de Campo Grande é a prevenção conjugada com a preservação, previstos pelos Plano Diretor de Drenagem Urbana [2015], no Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano Ambiental de Campo Grande [2018] e no Zoneamento Ecológico-Econômico do Município de Campo Grande [2020]”, relembra.

No trabalho do acadêmico de geografia da UEMS, Marco Piato, é mostrada a alteração da paisagem pela expansão urbana. O documento mostra que no piscinão da Rua Marluce foram feitas obras paliativas para evitar a erosão e, consequentemente, o assoreamento e a perda de uma área de nascente subterrânea. 

O que diz o poder público?

De acordo com a ONG SOS Água Limpa, foram enviados pedidos de limpeza da área para a Prefeitura de Campo Grande e Câmara Municipal, encaminhados pelo menos desde 2021.

Além disso, em maio de 2022, foi realizada uma sessão pública na Vila Nasser, em que foi exposto pelo presidente do bairro Água Limpa Park, Roger Araújo, a necessidade de limpeza do piscinão e o temor dos moradores.

Ao Midiamax, a Prefeitura Municipal disse que para solucionar o problema, será necessário uma obra. “Os serviços de limpeza da bacia já foram executados pela Sisep, mas para a total solução do problema será necessária uma obra de engenharia que se encontra em fase de projeto”, disse em nota.*

*matéria atualizada às 17h00 para acréscimo de informação