A caminhada, diária e matinal, da aposentada Zenóbia Pedrosa, jamais denuncia a mulher forte diante dos olhos. Reservada, ainda mais em tempos de pandemia, ela passou um período somente em casa e se orgulha das mantinhas que confecciona para doar a gestantes, além da lucidez que, aos 75 anos, a faz lembrar de muitos causos quando atuou como a primeira delegada titular da delegacia da mulher, em Campo Grande.
Conhecida pela rigidez ao flagrar agressores de mulheres, Zenóbia ganhou apelido de sargentona na década de 80 e até hoje é referência na Polícia Civil de Mato Grosso do Sul. Nesta terça-feira (8), data em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, ela fala que, embora as limitações da idade, continua ativa, lúcida e contente com o andamento dos trabalhos voltados às mulheres vítimas de violência doméstica no estado.
![[Colocar ALT]](/media/uploads/whatsapp-image-2019-03-07-at-15.47.36.jpeg)
No ano de 1986, mais precisamente no dia 25 de abril, a delegada participou da inauguração da delegacia especializada. A sede ficava na região central, mais precisamente na rua 14 de julho, esquina com a 7 de setembro.
Na época, um grupo de mulheres se sensibilizou com a questão e exigiu a construção da unidade policial. De Campo Grande, houve a expansão destas delegacias para outras cidades do estado.
Pouco antes, em 1970, ela diz que iniciou a carreira no primeiro distrito policial e, após a divisão do Estado, assumiu o cargo de assessora no gabinete da Diretoria Geral da instituição, onde permaneceu de 1980 a 1986. Em seguida, foi nomeada como titular da Delegacia de Atendimento à Mulher, onde permaneceu até a aposentadoria, em 1997.
“Eu sou de uma época em que não contávamos com celular, internet e muito menos computador. Todo o trabalho era feito, desde o início do inquérito, com tudo datilografado. As intimações também, então, o trabalho do escrivão era bastante intenso. Assim que chegava, a mulher ou qualquer outra pessoa já ia conversar com a delegada. Daquele primeiro contato, tudo era documentado e, depois da ocorrência, usávamos os recursos que tínhamos na época”, comentou Zenóbia.
Mesmo sem tantos recursos, a delegada ressalta que ela e a equipe “davam conta” do serviço na Casa da Mulher Brasileira. “Eu sabia como era difícil, até hoje é, mulher ir até a delegacia. Na época, eu pensava muito em ter um local seguro para essa mulher ficar com os filhos, principalmente para não voltar para casa e correr o risco de ser morta. Quando estavam construindo o prédio, refazendo a cela da delegacia, chegamos a algemar preso em mastro de bandeira temporariamente. É o que podíamos fazer pra ele não ir lá e matar a mulher”, relembrou.
Enquanto isso, a delegada fala que mantinha contato com a vítima enquanto ela buscava a casa de parentes ou até mesmo outro local para residir com os filhos. “Desde o início, tivemos apoio de juízes, promotores, defensores e acho que tudo isso colaborou muito com a delegacia da mulher. Não me lembro de ninguém contra o nosso trabalho e parabenizo todas as delegadas sucessoras”, alegou Pedrosa.
Depoimentos das vítimas eram primordias, diz delegada
Sem a tecnologia do retrato falado em poucos cliques no computador, principalmente nos casos de estupro, a delegada fala que as características repassadas pelas vítimas eram primordiais para a investigação delinear o rosto do suspeito.
“Naquela época, o retrato era feito por um policial com aptidão para o desenho. Ele colaborava com as investigações e conclusão do inquérito policial. Eu tinha uma parceira muito grande nesta época, a agente de polícia Vanessa Sales. Algumas das vítimas, no trajeto da escola para casa, eram estupradas por desconhecidos e aí as mulheres colaboravam com detalhes e nós fazíamos o nosso trabalho”, argumentou a delegada.
Sobre ser uma mulher forte, Zenóbia fala que realmente se sente desta forma. “Eu já escutei muito isso e me considero sim uma mulher forte. Lembro quando cheguei em uma casa e vi uma mulher suja, cheia de lama, com as crianças chorando, enquanto o homem estava deitado. Eu o prendi e percebi o quanto ele achou ruim passar a noite em uma delegacia, com a cela lotada. Ele me chamou de valentona, sargentona e, na verdade, eu só estava agindo com rigor necessário. Agora, vendo os jornais amarelados, vi até conciliações que eu fazia”, finalizou.
