Cotidiano

Sucateada, malha ferroviária da fronteira de MS é alvo de ladrões

Estação General Candido Rondon, em Ponta Porã, corre o risco de ficar até sem dormentes para contar histórias às gerações futuras

Marcos Morandi Publicado em 03/10/2021, às 07h45

Estação levou quase uma década para ser construída
Estação levou quase uma década para ser construída - Gene Whitmer

Abandonada há décadas, a malha ferroviária de Ponta Porã, que já foi símbolo de desenvolvimento da região fronteiriça, além de sucateada, é alvo de ladrões que estão levando trilhos, dormentes e a memória da antiga estação. Além disso, partes do madeiramento de alguns vagões estão sendo tomados pelos cupins.

A ação do tempo, de ladrões e vândalos está dilapidando o pouco que restou da história que marcou época em Mato Grosso do Sul, conforme denúncia feita pelo secretário municipal de Segurança Pública, Marcelino Nunes.

A ferrovia da linha Ponta Porã, que passava por Maracaju, chegava a Campo Grande e tinha como destino a cidade de Bauru, no interior paulista, está deteriorada. Inaugurada em 1953, a Estação Ferroviária da cidade fronteiriça demorou anos para ser entregue e fazia parte do ramal da cidade. “O furto dos trilhos na antiga estação de Ponta Porã vem ocorrendo há muitos anos e, aos poucos, a malha ferroviária está desaparecendo”, disse Marcelino.

Os trilhos que faziam a ligação entre São Paulo, Mato Grosso, a fronteira e algumas cidades paraguaias, guardam memórias de um tempo em que as estradas de asfalto não passavam de um sonho.

Durante décadas, a linha ferroviária foi um dos motores do desenvolvimento regional. Muitas estórias e histórias retratam o passar dos anos desse meio de transporte, que durante um longo período foi um dos principais meios de ligação entre as cidades, principalmente quando o asfalto ainda era um sonho.

A linha da Noroeste, que ligava Campo Grande à fronteira paraguaia, também conhecida como o ramal de Ponta Porã, saía da estação de Indubrasil, na linha-tronco e chegava até a fronteira seca com Pedro Juan Caballero, no Paraguai.

Fim de linha

Sempre com pouco movimento, os trens de passageiros foram um dos últimos a serem extintos pela RFFSA (Rede Ferroviária Federal S/A), em junho de 1996, logo depois que a linha passou para a concessão da Novoeste.

A partir de então, a linha foi abandonada e nem cargueiros a utilizam mais e apesar de estar entregue às intempéries das sobras do passado, os restos físicos dos áureos anos ainda eram testemunhas do progresso.

A estação de General Rondon foi inaugurada em 1953 no trecho final do ramal que teve o tráfego aberto até a estação de Ponta Porã. O trem de passageiros passou pela última vez em Itahum no dia 1º de junho de 1996. 

Apesar da última viagem e da forma rápida como tudo acabou, o projeto de construção do Ramal de Ponta Porã durou quase uma década, mas que aos olhos dos historiadores, parecia uma eternidade.

No entendimento do pesquisador Paulo Roberto Cimó Queiroz, no livro “Uma ferrovia entre dois mundos”, a obra dispunha, "em 1938, de um vultoso crédito orçamentário, que montava a 10 mil contos de féis, de tal modo que dentre os materiais adquiridos com a verba do ramal, inclui-se até mesmo um avião”.

“Diante do que está acontecendo, o que fica é a sensação de descaso não só com a memória da nossa cidade, como também com as pessoas que praticamente deram a vida para que o projeto da malha ferroviária de Ponta Porã se tornasse realidade”, explica professora de história, Maria Antônia Navarrete Gomez.

Jornal Midiamax