Cotidiano

Sem emprego e com mais mortes, 'sepultamentos sociais' aumentaram quase 60% em Campo Grande na pandemia

Modalidade ocorre quando a família da pessoa falecida não possui condições econômicas para velório e enterro

Gabriel Neves Publicado em 11/04/2021, às 13h00

Apesar de aumento dos óbitos, cemitérios não relatam problemas com lotação
Apesar de aumento dos óbitos, cemitérios não relatam problemas com lotação - Foto: Leonardo de França/Midiamax

O número de sepultamentos sociais, modalidade voltada a famílias carentes que não conseguem arcar com os custos de velório e sepultamento de entes queridos, sofreu aumento de quase 60% em Campo Grande no primeiro ano da pandemia. De acordo com a Prefeitura de Campo Grande, em 2019 ocorreram 277 enterros sociais na Capital. Já no primeiro ano da pandemia, o número foi de 441, o que crava um aumento de 59,2% na estatística.

Sepultamentos sociais são subsidiados pela Sisep (Secretaria Municipal de Infraestrutura E Serviços Públicos) a famílias de baixa renda, que não possuem condições de pagar um jazigo. A partir disso, as despesas com caixão, cerimônia póstuma e velótio são custeadas. O aumento de quase 60%, portanto, reflete o aumento do empobrecimento na Capital durante a pandemia.

O número fez com que a prefeitura aumentasse uma área no Cemitério Do Cruzeiro para atender a demanda dos enterros sociais. “Quando falamos em enterro social a gente pode adiantar o serviço de abertura da cova, porque sabemos que ela será preenchida, é diferente de um jazigo comprado, porque não sabemos quando aquela pessoa que comprou irá falecer”, disse Marcello Barbosa da Fonseca, gestor dos cemitérios municipais da Capital.

Fonseca destaca o óbvio, que o cenário de crise, com menos empregos e mais mortes, foi crucial para o aumento dos enterros sociais. Desde o início da pandemia, logo no início de 2020, a economia brasileira passa por diversas dificuldades e o desemprego é uma de suas principais causas. Em Mato Grosso do Sul, apesar de menos trágico, o cenário não é tão diferente. No último 10 de março, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou um balanço apontando que, no quarto trimestre de 2020, o Estado registrou uma taxa de desocupação 2,7% menor do que foi registrado no trimestre anterior. Em Mato Grosso do Sul, entre os 2,20 milhões de moradores acima de 14 anos, apenas 1,22 milhão estavam ocupadas e 125 mil estavam desocupadas, grupo onde há os desalentados, pessoas que desistiram de procurar emprego, que aumentou para 34 mil.

O que é o sepultamento social

O benefício consiste nos serviços de:

  • Preparação e conservação do corpo
  • Oferecimento de urna funerária
  • Velório na capela municipal
  • Translado do corpo e sepultamento, nas regiões do município de Campo Grande.

Como recorrer ao sepultamento social

De acordo com a prefeitura de Campo Grande, o benefício é concedido às famílias com renda per capita não superior a meio salário mínimo.

Àqueles que precisam do auxílio podem entrar em contato pelo telefone (67) 98403-5352. Vale lembrar que, segundo a prefeitura, por conta da pandemia, os atendimentos estão ocorrendo de forma remota.

A família que necessita do atendimento pode buscar orientações nesse número, bem como nas equipes de atendimento de hospitais e demais unidades onde ocorra o falecimento do ente.

O plantão do Auxílio Funeral funciona todos os dias, das 7h às 22h. A pessoa deve apresentar documentos pessoais que comprovem o parentesco com a pessoa falecida e a situação socioeconômica da família.

Aumento de mortes

De acordo com dados do Portal da Transparência, nos três primeiros meses de 2021. Campo Grande registrou um total de 2.249 mortes, número 61% maior do que o registrado no mesmo período de 2020, quando faleceram 1.390.

Ainda segundo dados do Portal, entre todas as mortes registradas nos três primeiros meses deste ano, 878 foram decorrentes de casos suspeitos ou confirmados de Covid-19, o equivalente a um percentual de 39% dos óbitos registrados na Capital.

Lotação dos cemitérios

O grande número de mortes, registrados em todo o Brasil, causou diversos transtornos tantos nos hospitais como nos cemitérios. Nesta quarta-feira (7), a prefeitura de São Paulo iniciou uma operação de abrir 600 novas covas por dia nos hospitais municipais, para atender o número de óbitos registrados nos últimos dias.

O crescimento da demanda é tão grande, que a prefeitura da capital paulista estuda a abertura de um cemitério vertical que poderá 26 mil novas urnas. Em Campo Grande, apenas do aumento de 61% no número de óbitos entre o primeiro trimestre de 2020 e 2021, os cemitérios não correm risco de lotação.

Com a maior parte dos cemitérios de Campo Grande sendo particulares, o poder público não vê a lotação como um problema no momento. “Claro que nós temos um problema de área que já é antigo, não tem relação com a pandemia, mas como muitas pessoas possuem planos particulares não vemos um risco de lotação no momento”, explicou o gestor dos cemitérios municipais de Campo Grande.

De acordo com a assessoria da Sisep, “é improvável que presenciemos cenários alarmantes de lotação ou até mesmo exumação de corpos como em São Paulo ou outros grandes centros. Exumação e aberturas de covas ocorre normalmente, mas não de uma forma que fere preocupação”.

Os cemitérios particulares também registraram um aumento no número de enterros, mas a lotação não é algo que os preocupa no momento. “Em dezembro, por exemplo, tivemos 65 enterros, destes, 35 foram covid, mas a lotação não é uma preocupação, estamos abrindo mais covas, mas ainda há bastante espaço disponível”, comentou a proprietária do cemitério Parque de Campo Grande, Thereza Cristina.

Luiz Carlos, encarregado pelo cemitério Popular Park das Oliveiras, conta que registrou o aumento de enterros após a pandemia. “Hoje a gente realiza uma média de 76 enterros por mês, onde 30 são apenas de covid”, comentou.

“Mas lotação eu acho difícil, eu tenho mil gavetas disponíveis e deve abrir mais 600 nos próximos meses. Eu tenho 7 hectares de terra aqui e mesmo com essas mil novas gavetas abertas, usei apenas 3,5 hectares até hoje”, comentou Luiz.

Jornal Midiamax