Cotidiano

#Retrospectiva 2021: Paralimpíadas foram divisores de águas, com conterrâneos fazendo história em MS

Mesmo sem medalhas, Olimpíadas também representaram mudanças nos olhares de esportes antes marginalizados no Estado

Gabriel Neves Publicado em 25/12/2021, às 14h00

Imagem ilustrativa
Imagem ilustrativa - (Foto: Arquivo/Midiamax)

Ao olharmos para trás é possível relembrar os grandes acontecimentos que marcaram 2021 e se o ano pudesse ser resumido em uma palavra seria: retorno. Pudemos presenciar a volta daquilo que antes era comum, ir a um show de música ou entrar em uma sala de cinema, assistir a uma peça de teatro e até mesmo a volta dos esportes olímpicos.

Em julho, presenciamos o retorno do maior evento esportivo do mundo. As Olimpíadas de Tóquio 2020 foram realizadas em 2021, um mês depois os holofotes se voltaram para as Paralimpíadas de Tóquio 2020,  também realizadas neste ano. E entre os melhores atletas do mundo estavam alguns sul-mato-grossenses, que não apenas participaram, mas subiram no pódio e saíram do oriente com medalhas no peito.

Yeltsin Jacques foi um dos destaques do Estado, que voltou de Tóquio com duas medalhas de ouro conquistadas no atletismo; Fernando Rufino, conhecido como o Cowboy de Aço, não decepcionou e conquistou o primeiro ouro do Brasil na paracanoagem. Além dos conterrâneos, outros atletas serviram de inspiração para muitos cidadãos de Mato Grosso do Sul, como Rayssa Leal que transformou o skate em febre nacional.

Em paralelo ao interesse dos cidadãos, que abriram seus olhos para esportes além do futebol, as prefeituras e governo estadual passaram a tomar iniciativas para proporcionar a prática de novos esportes e o desenvolvimento de novos atletas que possam representar a bandeira de Mato Grosso do Sul e do Brasil em competições internacionais.

De acordo com a Fundesporte (Fundação de Desporto e Lazer de Mato Grosso do Sul), ginásios esportivos serão construídos e reformados em 12 municípios. São eles: Itaquiraí, Jaraguari, Mundo Novo, Rio Negro, Maracaju, Camapuã, Sete Quedas, Dourados, Deodápolis, Nova Andradina, Costa Rica e Bonito.

A Capital também receberá investimentos voltados aos esportes olímpicos. O bairro Moreninhas irá receber uma pista de skate e o Parque Ayrton Senna terá a primeira piscina olímpica pública do município, com arquibancada nos arredores que comportará mil pessoas.

De acordo com o diretor-presidente da Funesp (Fundação Municipal de Esporte), Odair Serrano, o triunfo de Rayssa Leal em Tóquio impulsionou o interesse pelo skate em Campo Grande, e por conta disso será um dos que mais receberá atenção nos próximos anos. A pista nas Moreninhas, ainda em processo de licitação, contará com 2,6 mil metros quadrados e está orçada em R$ 1 milhão, “pra se ter uma ideia, estamos incluindo essa modalidade na próxima edição dos Jogos Radicais, prevista para o segundo semestre de 2022”, comentou Serrano.

Projeto 3D da pista prevista para ser construída nas Moreninhas. (Foto: Divulgação/Governo de MS)

Retorno para o âmbito estadual, os alunos que integram a REE (Rede Estadual de Ensino) podem contar com o Prodesc (Programa MS Desporto Escolar), que oferece treinamento esportivo em 22 modalidades olímpicas e paralímpicas. Os treinos são realizados no contraturno das aulas e funcionam como iniciação no esporte, inclusão por meio de práticas esportivas e descoberta de talentos. Também existe a expectativa da construção  de um complexo multiesportivo de excelência em Maracaju

A visibilidade gerada pela competição não só abriu os olhos das Secretarias e Executivos Municipal e Estadual, mas fez com que o cidadão comum olhasse para os esportes olímpicos de outra forma e a prática que antes era marginalizada ganhou novos rótulos, ajudando aqueles que desejam competir ou apenas praticar.

Ainda quando Rayssa Leal alegrava os brasileiros com suas manobras e carisma nas pistas japonesas, amantes do skate em Mato Grosso do Sul vislumbravam um futuro melhor para o esporte no Estado. Em entrevista ao Jornal Midiamax, Aline Neves, de 21 anos, participante de um coletivo de skate para meninas conta que a visibilidade gerada por Rayssa era importante para a principal barreira enfrentada pelo esporte: o preconceito.

“O que pode ajudar é com o preconceito que as famílias têm. Eu ganhei meu primeiro skate da minha avó, mas meus tios e até meus pais tinham um preconceito, achavam que era coisa de vagabundo e não queriam que eu me reunisse com a galera que pratica”, comenta. A mesma barreira também foi enfrentada por Natália de Souza, de 29 anos, que só pôde praticar o esporte que tanto admirava após a maior idade.

“Um dos motivos para essa demora foi o preconceito. Quando eu conheci o esporte, eu pedia um skate, mas meus pais não davam. Achavam que não dava futuro, que a galera era má companhia”, explica.

Para essas meninas, as Olimpíadas de Tóquio 2020 se apresentava como um divisor de águas na modalidade. “Espero que possa trazer visibilidade para patrocínios. O sonho da comunidade é um campeonato estadual, com vaga para o nacional. Talvez, com as Olimpíadas, o governo possa olhar com melhores olhos o esporte”, comentou.

Nossos campeões

Os atletas de Mato Grosso do Sul não foram para Tóquio a passeio, o objetivo não era apenas competir, mas ser campeão e foi isso que aconteceu. Nas Paralimpíadas, nossos conterrâneos retornaram com quatro medalhas de ouro e vitórias que entraram para a história no esporte nacional.

O primeiro ouro do Brasil nesta competição foi conquistado pelo corredor Yeltsin Jacques, campo-grandense de 30 anos. Ele subiu ao lugar mais alto do pódio com o tempo de 15min13s62, na prova dos 5.000 m da classe T11. A segunda medalha de Yeltsin foi nos 1.500 m T11. Mais uma vez, o atleta de MS conquistou o ouro nas Paralimpíadas e marcou o centésimo ouro da história do Brasil.

E as grandes histórias não param no feito de Yeltsin. Outro ouro que entrou para a história do esporte nacional foi o conquistado por Fernando Rufino, de 36 anos, de Itaquiraí. Conhecido como cowboy de aço, ele ganhou o primeiro ouro brasileiro na modalidade. Rufino ficou com a colocação mais alta do pódio ao ganhar nos 200 m da classe VL2.

Silvânia de Oliveira, de 34 anos, conquistou o bicampeonato paralímpico no salto em distância da classe T11. A atleta de Três Lagoas conseguiu a medalha de ouro ao marcar 5 metros no salto. Em 2016, nas Paralimpíadas do Rio, a atleta conquistou o ouro enquanto estava grávida.

Conforme o Comitê Paralímpico Brasileiro, o Brasil se despediu de Tóquio com 72 medalhas. Foram 22 de ouro, 20 de prata e 30 de bronze, que garantiram a sétima colocação no quadro de medalhas da competição. Essa foi a melhor participação do país na história dos Jogos Paralímpicos

Representantes de MS

Débora Raiza Ribeiro Benevides (canoagem)

  • Nascimento: 16/09/1995, Campo Grande (MS)
  • História: A atleta tem má-formação nos membros inferiores, que causa atrofia nas pernas. Iniciou no atletismo aos 15 anos, porém, alguns anos depois, viu que seu futuro era na água, com a canoagem.
  • Principais conquistas: Ouro no caiaque e na canoa no Campeonato Pan-Americano 2018 em Dartmonth (Canadá); prata na canoa no Mundial de Racice (República Tcheca) 2017; ouro no caiaque no Campeonato Sul-Americano de Canoagem, em Paipa 2017 (Colômbia); prata na canoa no Mundial da Alemanha 2016; bronze na canoa no Mundial de Milão 2015 (Itália).

Fernando Rufino (canoagem)

  • Nascimento: 22/05/1985, Itaquiraí (MS)
  • História: Fernando sempre teve o sonho de conquistar o mundo montado em cima de um touro. No entanto, após ser atropelado por um ônibus e perder parcialmente o movimento das pernas, o sul-mato-grossense começou na canoagem.
  • Principais conquistas: Ouro no caiaque e na canoa no Campeonato Pan-Americano 2018 em Dartmonth (Canadá); bronze no caiaque e prata na canoa no Mundial em Mantemor-o-Velho 2018 (Portugal); ouro no Campeonato Sul-Americano de Canoagem, em Paipa 2017 (Colômbia); bronze no caiaque no Mundial de Milão (Itália) 2015.

Yeltsin Francisco Ortega Jacques (atletismo)

  • Nascimento: 21/09/1991, Campo Grande (MS)
  • História: Yeltsin nasceu com baixa visão. Ele conheceu o atletismo ajudando um amigo, totalmente cego, a correr. Então, começou a treinar junto com ele para competir e iniciou sua carreira nas Paralimpíadas Escolares em 2007.
  • Principais conquistas: Ouro nos 1.500m nos Jogos Parapan-Americanos de Lima 2019; ouro nos 1.500m e nos 5.000m dos Jogos Parapan-Americanos de Toronto 2015; prata nos 1.500m e bronze nos 800m no Mundial de 2013 na França.

Silvânia Costa de Oliveira (atletismo)

  • Nascimento: 23/05/1987, Três Lagoas (MS)
  • História: Desde criança, Silvânia tem uma enfermidade chamada Doença de Stargardt, por isso, sua visão regride paulatinamente. Seu encontro com o esporte ocorreu aos 18 anos, como uma ferramenta de inserção social.
  • Principais conquistas: Ouro no salto em distância nos Jogos Rio 2016; ouro no salto em distância nos Jogos Parapan-Americanos de Toronto 2015; ouro no salto em distância no Mundial de Doha 2015.

Ricardo da Costa de Oliveira (atletismo)

  • Nascimento: 14/06/1982, Três Lagoas (MS)
  • História: Com apenas 2 anos, Ricardo já apresentava dificuldade para enxergar. Em 1996, descobriu que possuía a doença de Stargardt, que já estava em estágio avançado e o deixou totalmente cego. Iniciou no esporte com corridas de rua e depois passou para as provas de pista do atletismo. O atleta competiu pela primeira vez internacionalmente em 2015, no Mundial de Doha, no Catar.
  • Principais conquistas: Bronze no salto em distância no Mundial de Londres 2017; ouro no salto em distância nos Jogos Rio 2016.

Fabrício Júnior Barros Ferreira (atletismo)

  • Nascimento: 17/01/1998, Naviraí (MS)
  • História: Fabrício nasceu com toxoplasmose, doença que afeta a visão. Aos 14 anos, sofreu também descolamento de retina. Conheceu o esporte paralímpico em 2013 por meio de uma associação para deficientes visuais.
  • Principais conquistas: Bronze nos 100m no Mundial Dubai 2019; ouro nos 100m e bronze nos 400m nos Jogos Parapan-Americanos Lima 2019.

Vilmar Roberto Dias (guia)

  • Nascimento: 13/12/1982, Fátima do Sul (MS)
  • História: É um dos guias da maratonista Edneusa de Jesus.

Rafael Carlos da Silva “Baby” (judô)

  • Nascimento: 11/05/1987, Campo Grande (MS)
  • História: Natural de Campo Grande (MS), o atleta foi criado em Rolândia, no interior do Paraná, onde passou toda a infância e começou a praticar a modalidade aos 15 anos.
  • Principais conquistas: Bronze pela categoria peso-pesado em Londres-2012; Bronze pela categoria peso-pesado no Rio 2016.

Leonardo Gomes de Deus (natação)

  • Nascimento: 18/01/1991 
  • História: Mais conhecido apenas como Léo de Deus no meio esportivo, o atleta é “dono” dos 200 metros no estilo borboleta da seleção olímpica brasileira de natação. O nadador de 30 anos nasceu em Campo Grande (MS), mas por ser filho de militar percorreu e morou em diversas cidades do país.
  • Principais conquistas: Nos 200m borboleta, ele foi finalista olímpico em Tóquio 2020, duas vezes finalista em Mundiais, duas vezes vice-campeão do Pan Pacífico e tricampeão dos Jogos Pan Americanos.

Jornal Midiamax