Cotidiano

Projeto que nasceu na busca por vítimas de serial killer em MS ajuda a encontrar mortos em guerra na África

Especialistas liderados por professor da UFMS foram contratados pelo Governo de Angola para encontrar ossadas

Lucas Mamédio Publicado em 19/11/2021, às 17h25

Professor Ary à esquerda durante entrevista à TV angolana
Professor Ary à esquerda durante entrevista à TV angolana - (Foto: Divulgação)

Uma equipe liderada pelo geofísico Ary Filho, professor da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), está ajudando o governo da Angola, na África, a encontrar ossadas de pessoas mortas durante a Guerra Civil Angolana entre os anos de 1975 e 2002. Até o momento, ossos de nove pessoas já foram encontradas

O trabalho feito pela equipe em solo angolano não é só liderado por um sul-mato-grossense, mas nasceu em Campo Grande durante um dos casos mais macabros da história da Capital, do serial killer Nando, acusado de matar 16 pessoas e enterrá-las em um cemitério clandestino no bairro Danúbio Azul.

Os crimes de Nando foram descobertos em 2016 e durante as buscas aos cadáveres, um equipamento capaz de medir a condutividade elétrica aparente do solo, chamado EM38-MK2, de fabricação canadense, foi usado pela primeira vez para encontrar os corpos. A experiência foi tão exitosa que passou a ser utilizada em outros casos, até chegar ao projeto na Angola.

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Equipe do professor Ary durante buscas em solo Angolano

A hipótese de funcionalidade do equipamento, porém, foi feita pela primeira vez por um perito criminal da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, Cícero Wagner Calixto dos Santos, que em 2016 também era acadêmico de geografia na UFMS e aluno do professor Ary.

“A perícia não tinha nenhuma tecnologia para ajudar nas buscas. As escavações eram realizadas de forma aleatória, através da indicação do próprio acusado, que muitas vezes indicava pontos errados, tendo em vista que o terreno havia sido modificado com o tempo. Foi então que eu levantei a hipótese de que aquele equipamento, visto na aula, poderia detectar alterações no solo devido à presença de um cadáver”, explicou Cícero.

Foi então que ele solicitou ao professor Ary, na época, para fazer uma varredura no local e, por meio do equipamento, encontraram dois corpos, além constatarem ser útil para esse fim.

A varredura foi feita inicialmente em locais onde as ossadas já haviam sido removidas, mas o necrochorume infiltrado no solo provocou alterações químicas que aumentaram a condutividade elétrica do solo, parâmetro medido pelo equipamento

“De todo esse trabalho eu escrevi meu TCC. Nesse ano surgiu o caso do cemitério do santo Eugênio. Novamente fizemos a varredura e encontramos mais um corpo com o equipamento. Em suma: hoje a perícia do MS tem uma tecnologia capaz de detectar a presença de um corpo”.

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Polícia durante buscas às vítimas de Nando, em 2016 (Foto: Aquivo/Midiamax)

Trabalho na Angola

A partir daí o governo de Angola conseguiu o contato Ary, que está desde o começo deste mês no continente africano utilizando a metodologia para encontrar os corpos das vítimas da Guerra Civil Angolana, que começou em 1975 e continuou, com interlúdios, até 2002. O governo também comprou os equipamentos necessários do Canadá.

Já foram encontrados nove 9 corpos além da identificação de mais noves possíveis áreas com mais ossadas. As buscas são baseadas em denúncias feitas ao longo dos anos.

A reportagem do Midiamax não conseguiu entrevistar o professor Ary, mas em entrevista à TV estatal angolana, ele detalhou como o trabalho está sendo feito.

“Nós fazemos uma pré-análise com mapeamento da área. O GPS aponta possíveis alterações que ficam em vermelho, em uma segunda etapa, coletamos uma amostra desse solo e analisamos em nosso laboratório”.

A perícia de Mato Grosso do Sul, contudo, não tem o equipamento e depende sempre da boa vontade da UFMS para fazer as varreduras. “Eu sei que ele detecta o necrochorume, isso está pacificado, porém, seria interessante a perícia ter esse equipamento para essa finalidade. Hoje dependemos da UFMS, o equipamento deles é cautelado, é de propriedade da USP”, finalizou Cícero.

Jornal Midiamax