Cotidiano

Medidas de restrição e genética do coronavírus barram imunidade coletiva em Manaus, aponta infectologista de MS

Quando a curva de casos da Covid-19 estava continuamente descendente em Manaus (AM) ao longo de 90 dias, em agosto de 2020, especialistas brasileiros levantaram a hipótese de que a imunidade coletiva ao novo coronavírus – causador da doença – teria sido alcançada. Mas especialistas de Mato Grosso do Sul e de outros estados não […]

Adriel Mattos Publicado em 09/01/2021, às 16h28 - Atualizado às 16h33

Após relaxamento de restrições em Manaus, pandemia voltou a crescer na região. (Foto: Mário Oliveira, Semcom)
Após relaxamento de restrições em Manaus, pandemia voltou a crescer na região. (Foto: Mário Oliveira, Semcom) - Após relaxamento de restrições em Manaus, pandemia voltou a crescer na região. (Foto: Mário Oliveira, Semcom)

Quando a curva de casos da Covid-19 estava continuamente descendente em Manaus (AM) ao longo de 90 dias, em agosto de 2020, especialistas brasileiros levantaram a hipótese de que a imunidade coletiva ao novo coronavírus – causador da doença – teria sido alcançada. Mas especialistas de Mato Grosso do Sul e de outros estados não veem que esse fato se consolidou.

Estudo conduzido por pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) e publicado no mês passado pela revista científica americana Science estimou em 76% a imunidade dos manauaras contra o vírus. Então por que a curva voltou a ficar ascendente, levando a um novo caos na saúde e a prefeitura decretar novamente estado de emergência?

A professora Ester Sabino, uma das pesquisadoras, avalia que, como o SARS-CoV-2 continua circulando em todo o Brasil, o número de casos voltou a subir quando as pessoas retornaram às atividades normais e continuará crescendo até infectar algo em torno de 95% da população.

“Há um entendimento errado do conceito de imunidade de rebanho. Quando o limiar é alcançado não significa que a doença vai desaparecer e sim que os casos não vão crescer tão rapidamente como na primeira onda. Dificilmente haverá um pico como o de abril [de 2020] – a menos que as pessoas já tenham perdido a imunidade e os casos de reinfecção sejam muito mais comuns do que se imagina”, explicou.

Para Ester, o problema na capital da Amazonas é que há poucos hospitais e os leitos de UTI (Unidades de Terapia Intensiva) se esgotam rapidamente. “A situação não deixa de ser preocupante. Ou se triplicam os leitos de UTI ou será necessário parar a cidade, pois hoje uma pessoa com apendicite pode morrer por falta de atendimento”, afirmou.

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Infectologista Júlio Croda | Foto: Wilson Dias, Arquivo, Agência Brasil

Mais ricos são mais afetados

O infectologista Júlio Croda, pesquisador da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e professor da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), analisou dados da Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado, do Amazonas, e demonstrou que 99% dos novos casos notificados em Manaus são de pessoas que nunca antes tiveram a doença, ou seja, não são reinfecções.

“Nesta segunda onda, a maioria dos pacientes são das classes A e B, que conseguiram se manter em isolamento durante a primeira onda. A prova disso é que o sistema privado de saúde sofreu esgotamento antes do público – diferentemente do que ocorreu em abril de 2020. Após o relaxamento das medidas de controle, o vírus voltou a circular com maior intensidade e atingiu a parcela da população que estava mais suscetível”, afirma Croda.

Para o infectologista, a soroprevalência de 76% apontada no estudo divulgado na Science está superestimada. Ele acredita que mais de 50% dos manauaras ainda não desenvolveram imunidade contra o novo coronavírus.

“Importante ressaltar que o limiar da imunidade de rebanho não é um valor fixo. Ele é calculado com base na taxa de contágio, que depende tanto da genética do vírus quanto das medidas adotadas para conter a disseminação. Recentemente, surgiu uma variante mais transmissível no Reino Unido e isso impacta tanto o cálculo de Rt quanto do limiar da imunidade coletiva”, explica Croda.

O Rt representa a taxa de contágio, inicialmente estimada entre 2,5 e 3, ou seja, cada infectado transmite o vírus para outras duas ou três pessoas.

Ainda de acordo com o pesquisador, os cuidados adotados pela população independentemente do poder público – como uso de máscaras, higiene das mãos e distanciamento social – ajudam a reduzir a taxa de contágio, fazendo com que a imunidade coletiva também diminua.

“Provavelmente foi isso que causou a queda no número de casos observada em meados de 2020. Mas, no momento em que houve o afrouxamento das medidas de controle por parte da população e do poder público, o limiar retornou a patamares próximos de 70%”, finalizou.

Impossibilidades

Na concepção do epidemiologista Paulo Lotufo, da USP, é um “equívoco confiar demais nesse tipo de indicador”, já que é raro atingi-lo.

“O grande problema é que para calcular o limiar da imunidade de rebanho você precisa saber o Rt e esse valor é uma estimativa – é um chute que pode ter um impacto muito grande. A humanidade nunca conseguiu conter uma doença cuja transmissão ocorre entre humanos por imunidade de rebanho. Sarampo e varíola, por exemplo, só foram controlados com vacina. No caso da Covid-19, falar em imunidade de rebanho ou em tratamento precoce só atrapalha os esforços de controle da doença, pois as medidas de distanciamento social deixam de fazer sentido para a população”, aponta.

Lotufo acredita ainda que é difícil ter precisão nos indicadores de Manaus, prejudicando uma análise do crescimento da doença na região.

Além das hipóteses já mencionadas, como reinfecção ou o surgimento de uma nova variante mais infecciosa, ele destaca a possibilidade de parte das internações ser de pessoas do interior do estado do Amazonas que, devido à falta de leitos nessas cidades, buscam atendimento na capital.

Medidas de restrição e genética do coronavírus barram imunidade coletiva em Manaus, aponta infectologista de MS
Casos continuam aumentando em MS, mas reflexo do fim de ano ainda está aparecendo (Foto: Saul Schramm, Subcom-MS)

Festas de fim de ano ainda não refletiram nos números

Desde o ano passado, a UFPel (Universidade Federal de Pelotas), no Rio Grande do Sul desenvolve o inquérito sorológico EPICOVID, conduzido em 133 cidades brasileiras – incluindo municípios sul-mato-grossenses. A quarta fase do estudo, divulgada em setembro do ano passado, apontou a desaceleração da pandemia no País.

Segundo o epidemiologista Pedro Hallal, coordenador da iniciativa, a tendência começou a mudar na reta final das eleições municipais. O tamanho do impacto será medido ainda em janeiro, quando ocorrerá a quinta etapa de coletas do inquérito.

“As duas semanas que precederam o segundo turno foram decisivas. Depois vieram as festas de fim de ano e as férias de verão. Os casos cresceram consistentemente pelo menos até meados de dezembro, segundo as estatísticas oficiais, mas ainda não voltamos ao patamar de quando a média móvel de óbitos era mais de mil por dia. Se a tendência de crescimento se manterá é difícil dizer. A história da pandemia é construída diariamente. Tudo depende de como a população vai se comportar”, afirma.

O pesquisador criticou o governo federal por não tomar medidas efetivas para combater a doença. Uma decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) proibiu que o presidente da República Jair Bolsonaro e sua equipe interferissem ou impedissem as administrações estaduais e municipais de atuar contra o vírus, mas não isentou o Ministério da Saúde de desenvolver sua própria política.

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CoronaVac, produzida no Instituto Butantan (Foto: Divulgação/Instituto Butantan)

“Sabemos o que fazer para a curva cair rapidamente: testagem em larga escala e rastreamento de contatos. Isso nunca foi implementado no país. Se um indivíduo é diagnosticado hoje, ninguém investiga com quais pessoas ele teve contato e isso deveria ser obrigatório. Outros países adotam o lockdown quando os casos começam a subir muito e o vírus rapidamente para de circular e tudo pode reabrir. Aqui no Brasil fazemos um isolamento meia-boca, que é ruim para a saúde pública e para a economia, que também fica meia-boca”,  comentou.

Vacinação

Para Hallal, a política mais importante em 2021 é o plano de vacinação, que acredita ser a única forma de alcançar a imunidade de rebanho para evitar ainda mais mortes. O epidemiologista Paulo Lotufo, da USP, concorda.

“As vacinas do Instituto Butantan [desenvolvida pela empresa chinesa Sinovac] e do laboratório AstraZeneca [desenvolvida pela Universidade de Oxford, Reino Unido] têm boa eficácia, são de fácil manuseio e serão produzidas aqui no país. Se tudo correr bem, poderemos rapidamente vacinar a população”, opina.

Já o professor da UFMS Júlio Croda diz que pode não haver doses suficientes para que a imunidade de rebanho seja alcançada em âmbito nacional. Para isso seria necessário vacinar 80% da população

“Contudo, segundo a Organização Mundial de Saúde, é possível reduzir significativamente as internações e os óbitos vacinando os 20% de maior risco. Isso já será um grande avanço”, afirmou

Jornal Midiamax