Cotidiano

Jornalista, DJ e ativista: quem é o jovem indígena de MS que ganhou destaque na ONU

Eric Marky tem 28 anos e defende os direitos indígenas, além de pautas ambientais

Ranziel Oliveira Publicado em 05/10/2021, às 07h02

Jovem indígena de MS é destaque internacional na luta de causas indígenas e ambientais
Jovem indígena de MS é destaque internacional na luta de causas indígenas e ambientais - Foto: Reprodução, Instagram

Da aldeia Cachoeirinha, em Miranda, para o púlpito da pré-COP 26 (Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2021), na semana passada, na Itália. A trajetória do ativista Eric Marky Terena, de 28 anos, é marcada pela preocupação com a terra e o ser humano desde o começo da sua infância. Com destaque internacional após participação da conferência, o jovem indígena, que também é jornalista e DJ, conversou com o Jornal Midiamax e contou mais sobre sua história.

DJ, jornalista e um dos fundadores da Mídia Índia, canal de comunicação voltado para pautas indígenas, Eric já exercia a atividade social desde os 8 anos, após a família fundar a Associação dos Moradores Indígenas do Bairro Guanandi, em Campo Grande. Apesar de nascido na Capital, o jovem dividiu a infância entre a aldeia que cresceu, em Miranda, e a Capital do Mato Grosso do Sul.

“Foi entre 1999 e 2000, eram realizadas ações com indígenas que vinham para Campo Grande e não falavam bem o português. Campanhas sobre saúde, DSTs e auxílio na venda dos alimentos cultivados”, explicou Marky.

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Eric durante suas apresentações como DJ (Foto: Reprodução, Instagram)

A participação nessas mobilizações se estendeu até o Ensino Médio, com a chegada da adolescência, e o fortalecimento de sua responsabilidade social. “No Ensino Médio continuei contribuindo com o nosso povo, nós levávamos mantimentos para a população mais carente das aldeias e visitávamos as festas tradicionais”.

Da aldeia para a faculdade

Comum para muitos jovens, a escolha de um curso universitário foi um divisor de águas na sua vida profissional e ativista. “Comecei Engenharia da Computação, mas era um espaço de difícil acesso à informação e sentia muita dificuldade, optei por parar. Meu pai era comunicador e quando minha mãe ia pra ideia, ele ficava comigo no estúdio de áudio, abriu um novo processo seletivo para Jornalismo e ingressei”.

No mundo acadêmico, a veia ativista ganhou um tom mais formal e a luta pelos direitos indígenas se tornou um norte para o seu currículo universitário. “Fiz parte da Rede Saberes, projeto que ajuda na permanência de estudantes indígenas na universidade. Muitos tinham dificuldades e difícil acesso a uma educação de qualidade. Existiam outras realidades além da minha, durante a graduação toda e qualquer ação que eu fazia era voltada para os povos indígenas: pesquisa e produção de conteúdo até a formatura em 2016”, conta o jovem.

Para Eric, dois momentos foram marcantes na sua trajetória como símbolo da luta pelos diretos dos povos indígenas e proteção do meio ambiente. “Eu sempre tive muita atenção com o cuidado na roça, alimento e a natureza, isso na comunidade indígena é normal. Com o ativismo, foi em 2017 quando fundei a Mídia Índia. Um coletivo de comunicadores indígenas que trabalha na gestão territorial indígena e automaticamente na proteção do território, que está ligado com o clima”.

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Eric é um dos fundadores da Mídia Índia (Foto: Reprodução, Instagram)

ONU

O primeiro contato com a ONU (Organização das Nações Unidas) aconteceu em 2019, após um convite para fazer parte do anuário da organização. “Em 2018, rodei o Brasil com a Sônia Guajajara [candidata à vice-presidente pelo PSOL em 2018] fazendo o registro audiovisual de povos indígenas. Recebi o convite da ONU para participar do anuário de 2019 com uma foto que tirei dela”, disse ele.

Em 2019, o indígena Terena registrou detalhes da cúpula da ONU, onde jovens do mundo se reuniram para procurar saídas para um mundo melhor. O ponto mais importante foi em dezembro do mesmo ano, na COP 25, realizada em Madri. “Participei da sala de situações para resolver problemas, a fim de pensar em uma estratégia para resolver as mudanças climáticas ou reduzir a emissão de gases. Lá eu fui como líder indígena”, explica.

Em abril desse ano, ele fez a inscrição para a Pré-Cop 26, e teve seu projeto aprovado para participar do evento. “Meu projeto era levar a ferramenta da comunicação digital para processos de reflorestamento. A comunicação como ferramenta de conscientização e educação para a população global”, afirma.

Durante a conferência, o jovem sul-mato-grossense ganhou ainda mais destaque internacional ao posar ao lado de Greta Thunberg, ativista sueca que luta contra as mudanças climáticas e tem seguidores no mundo todo. 

Dessa experiência, ele conclui. “Não se pode falar de mudanças ambientais se não colocar os povos indígenas em pauta, nós temos a maior área preservada do planeta. Foi muito importante ver a juventude global se mobilizando para garantir um futuro melhor”, finalizou o jovem. 

Acompanhe mais sobre o trabalho de Eric em sua página no Instagram

Confira uma das músicas feitas pelo DJ:

Jornal Midiamax