Cotidiano

#CG122: Comércio histórico do Centro foi motor de desenvolvimento que chegou aos bairros

Antiga Rodoviária, Rua 14 de Julho, Shopping Marrakech são todos exemplos de uma Campo Grande cujo comércio era o coração

Lucas Mamédio Publicado em 04/08/2021, às 07h47 - Atualizado às 07h48

Edifício José Abrão na Rua 14 de Julho
Edifício José Abrão na Rua 14 de Julho - (Foto: Raoni Ramires)

O comércio de Campo Grande é, historicamente, um dos motores impulsionadores de seu desenvolvimento econômico, social e urbanístico. O seguimento sempre foi responsável pelo aparecimento de grandes personagens de nossa história e também de mudanças de hábitos dos campo-grandenses.

Durante muitos anos, como é natural no desenvolvimento de uma cidade, ficamos “reféns” do Centro da cidade como um polo comercial, porém, essa é uma formatação que já não corresponde mais à realidade, pelo menos na Capital.

Antes de falarmos sobre essa mudança de comportamento, contudo, temos de refazer o caminho histórico que nos trouxe até aqui. Por isso, vamos saber um pouco mais sobre importantes prédios e regiões comerciais de Campo Grande.

Rodoviária Antiga

Estação Rodoviária Heitor Eduardo Laburu é lembrada não só como um ponto de chegadas e partidas, mas também por ter abrigado um dos centros comerciais mais modernos da época. Inaugurado oficialmente em 16 de outubro de 1976, iniciou as atividades de ponto de transbordo três anos antes com plataformas urbanas e interurbanas.

O condomínio ainda possui 235 salas comerciais, a maioria desativada, além duas salas de cinema, que também não estão em funcionamento. Segundo levantamento interno da administração, o ponto recebeu no período de 1994 a 2008 mais de 11,5 milhões de passageiros, sem contar os frequentadores que passavam pelo local. No mesmo período, circulavam, diariamente, cerca de duas mil pessoas e 500 ônibus urbanos, intermunicipais e interestaduais, um prato cheio para comerciantes tanto do prédio, quanto da região, principalmente do bairro Amambaí, onde está instalada.

Na década de 90, veio a promessa de uma nova rodoviária para Campo Grande. A rodoviária que seria entregue em 1994, num prédio localizado na avenida Ernesto Geisel, no bairro Cabreúva, não saiu do papel. 

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Construção da Antiga Rodoviária, em 1973 (Foto: Roberto Higa)

Rosane Nely Lima é uma personagem muito conhecida na região. Além de moradora do bairro Amambaí, é síndica administrativa do Centro Comercial do prédio da Antiga Rodoviária. É tida como uma figura controversa por alguns, mas tem sido uma das únicas vozes que ressoam sobre o abandono do local.

"Em 2010, quando a rodoviária saiu foi um caos, mais de 30 lojas fecharam de uma vez, hotéis nos arredores, chegaram a colocar tapumes nas lojas fechadas. Eram comerciantes de 30, 40 anos que viraram família e de repende não existia mais. É um prédio que tem um valor emocional para todo mundo que passou ali".

Depois de desativado como rodoviária, o prédio do Centro Comercial Condomínio Terminal do Oeste continuou funcionando como um centro de compras, ponto de apresentações culturais esporádicas e chegou a receber trailers de lanche.

O prédio já tem um projeto de revitalização aprovado pela Prefeitura no valor de R$ 15,6 milhões. O projeto em elaboração prevê a integração (por elevador e escada) entre o térreo e o piso superior da estrutura, que será fechada nas laterais que dão acesso para as ruas Barão do Rio Branco e Joaquim Nabuco.  A entrada da população e dos funcionários das repartições será por dentro da área do centro comercial. São 24 mil metros quadrados, divididos em 240 lojas que pertencem a 90 diferentes proprietários. 

Shopping Marrakech

Em 1989, Campo Grande inaugurava o seu primeiro Shopping, que reinou sozinho por apenas três meses. A estrutura, com três andares e um subsolo, abrigava 120 lojas e tinha o primeiro elevador panorâmico da capital sul-mato-grossense.

Eventos promocionais, uma praça da alimentação disputada e um lustre de cristal no teto trazido do Marrocos eram alguns dos elementos que deram charme ao Marrakech nos tempos áureos.

O Shopping Marrakech surgiu por uma idealização do empresário Abdalla George Sleiman. Para a arquitetura do prédio, contratou-se o arquiteto mais influente de Mato Grosso do Sul na época, Lauro Malaquias. Por ser de origem árabe, o administrador do Centro Comercial batizou o lugar com o nome da capital marroquina, considerada um destino turístico pela beleza.

Com a diminuição do movimento comercial, a localização privilegiada abriu espaço, no fim dos anos 90, para a entrada de instituições de ensino no shopping. O primeiro a desbravar essa tendência foi o Colégio Avant Gard, que ocupava o terceiro andar. Anos depois, a faculdade FCG passou a ser a locatária da cobertura. Entre 2010 e 2012, a franquia de cursos preparatórios LFG teve a última oportunidade de preencher o território que já foi da animada praça de alimentação.

Trinta e um anos depois, a Capital possui quatro shoppings: Campo Grande, Norte Sul, Bosque dos Ipês e Pátio Central. Cada um deles conta com pelo menos duas mil vagas de estacionamentos, lojas âncora, diversas opções de consumo, cinemas e uma estrutura de entretenimento à altura de uma cidade próxima de atingir um milhão de habitantes.

Hoje o Marrakech já nem possui mais status de shopping, seu prédio ainda existe e, além de receber algumas instituições ensino, hoje abriga repartições públicas como o Incra e braços do Ministério da Agricultura em MS.

Rua 14 de Julho

A denominação é em homenagem à queda da Bastilha, proposta pelo vereador Miguel Garcia Martins (3ª legislatura – 1909-1911), que significou um marco histórico para a humanidade, quando os franceses se insurgiram contra a tirania real, iniciando o movimento conhecido como Revolução Francesa, que tanto influenciou no comportamento dos povos ocidentais.

Em Campo Grande, a 14 de Julho se constituiu aos poucos como principal rua comercial e por várias décadas se configurou como via de acesso à Estação Ferroviária da Noroeste do Brasil. Inicialmente chamada de Beco – porque ali existia um trilheiro deserto, curto e sem saída –, recebeu o nome de rua 14 de Julho no final da primeira década de 1900.

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Rua 14 de Julho em 1949 (Foto: Arquivo Histótico de CG)

Em 1930, mudou seu nome para Aníbal de Toledo, em homenagem ao presidente eleito do Estado de Mato Grosso. O governante, no entanto, durou apenas nove meses no poder e a rua passou a se chamar João Pessoa, em homenagem ao candidato à vice-presidência do Brasil que nesse mesmo ano fora assassinado, comovendo toda a nação.

Em 1941, a rua volta a sua denominação primitiva, que nunca tinha sido abandonada pela população. Ela recebeu seu principal calçamento no final dos anos 20, pelo processo inaugurado na Inglaterra, o macadame.

Na confluência da rua 14 de Julho com a avenida Afonso Pena, foi inaugurado, no dia 23 de agosto de 1933, o famoso relógio, que se transformou no grande ponto de referência da cidade. Demolido em 7 de agosto de 1970, voltou a ser construído no final de 2019, por ocasião do Reviva Centro.

Depois de 17 meses de obras, no final de 2019, a revitalização da rua 14 de julho, da avenida Fernando Correa da Costa até a avenida Mato Grosso, foi concluída. Entre as principais mudanças, houve o embutimento de rede, onde saíram da paisagem mais de 11 quilômetros de cabos e 139 postes, troca completa da calçada e da pista de rolamento.

Hotel Americano

José Abrão, nascido em 1892, em Mardin, na Turquia, veio com a esposa, Dona Mansoura, para Campo Grande em 24 de dezembro de 1924. Fixando-se na cidade, ele logo estabeleceu um pequeno armazém de secos e molhados na rua 14 de Julho, entre a rua Antônio Maria Coelho e a avenida Mato Grosso. José Abrão prosperou com grande rapidez e tornou-se um dos mais fortes comerciantes de seu tempo. Adquiriu outros imóveis e, em 1939, demoliu a primitiva residência em que morava para construir um dos mais modernos prédios da época, o Edifício José Abrão.

Construído em 1939, o Edifício José Abrão representou o primeiro degrau vencido rumo ao processo de verticalização de Campo Grande, sendo ele o primeiro prédio a ultrapassar o gabarito de dois andares encontrado até então na cidade.

A edificação foi originalmente concebida para abrigar um conjunto de escritórios e lojas, porém, sua conformação apresentava uma grande adaptabilidade para se prestar às instalações de um hotel, por esta razão o Hotel Rio demonstrou interesse de nele instalar uma filial, no entanto, o primeiro locatário foi Américo Namour, que inaugurou o Hotel Americano, que nele funcionou até a década de 2000.

Após o encerramento das atividades do Hotel Americano no imóvel, foi iniciada uma reforma no ano de 2009 com a finalidade de estabelecer ali um grupo de consultórios odontológicos. A reforma foi efetuada sem o devido licenciamento do poder público municipal, e sem as diretrizes urbanísticas específicas obrigatórias por lei que deveriam ter sido solicitadas ao Planurb (Instituto Municipal de Planejamento Urbano).

Em 2012, aconteceu outra reforma numa das lojas do pavimento térreo, o que gerou um Termo de Embargo, visto que a reforma foi iniciada sem a devida autorização. Hoje a parte térrea do prédio abriga uma loja de celulares. 

Mercado Municipal (Mercadão)

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Não dá para falar de comércio histórico, sem falar do Mercadão. Localizado na rua 15 de Novembro com a travessa José Bacha, em frente à Praça Oshiro Takimori. A lei de criação do Mercado Municipal foi aprovada pela Câmara de Vereadores na gestão dele, mas o mercado foi construído em outra administração.

Desde a década de 20, havia a intenção de construir um mercado municipal em Campo Grande, então foi aberta concorrência com o objetivo de se construir o mercado e aprovada a planta arquitetônica. O local determinado pelo executivo, em 1922, para a instalação do mercado, é o mesmo onde, 36 anos mais tarde, seria construído o Mercado Municipal de Campo Grande.

Foi inaugurado em agosto de 1958, a partir de uma feira livre, um ponto de vendas de carnes e verduras que ocupava uma grande área margeando os trilhos da Noroeste, entre a avenida Afonso Pena e a rua 7 de setembro. A feira funcionou até o final dos anos 50, quando o terreno foi doado à municipalidade. O Mercadão passou a ser referência na comercialização de produtos hortifrutigranjeiros, peixes e especiarias, tendo sido por longo tempo um dos poucos locais de comércio aberto ao público.

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Feira livre na década de 20, onde hoje é o Mercadão

Acometido por um incêndio, passou por uma reforma em 1966, que resultou em acréscimos de área ao projeto original, com o objetivo de acomodar uma peixaria, um aviário e um restaurante. Também foi construída, na área externa, uma plataforma para carga e descarga de produtos hortifrutigranjeiros.

Um ano após a inauguração do Mercado Municipal, elevou-se à condição de praça o espaço conhecido até então como Largo da Feira, denominando-se Praça João Pedro de Souza, que só foi denominada Oshiro Takimori a partir de 13 de agosto de 1974. Em 6 de outubro de 2011, foi protocolado processo de tombamento do Mercadão, sendo desde então já considerado bem protegido com interesse na coletividade do município de Campo Grande. 

Comércio nos bairros

Ao longo dos anos, esses foram e ainda são alguns dos principais pontos de comércio de Campo Grande. Porém, com a expansão demográfica, os bairros passaram a ser autossuficientes em muitos nichos do comércio, inclusive com o surgimentos de centros comerciais próprios.

Segundo Moacir Pereira Júnior, gestor da Escola de Varejo da Associação Comercial de Campo Grande e coordenador do projeto ACICG Itinerante, que realiza ações focadas nos bairros de Campo Grande, houve aguda modernização do comércio dos bairros.

"Antes os bancos ficavam concentrados no Centro, então as pessoas já iam pagar conta, passar nas lojas e fazer tudo ali, na mesma região. Hoje, existem outros meios para fazer essas operações. Sem falar que os comércios de bairro estão usando redes sociais, então mantiveram uma relação próxima por ser do bairro e evoluíram para um profissionalismo igual ao do Centro", pontua Moacir.

Um exemplo disso são os Corredores Gastronômicos Turísticos e Culturais, instituídos pela própria Prefeitura. Esses corredores gastronômicos turísticos e culturais buscam incentivar a promoção e o ordenamento do local, promover apresentações musicais, poéticas e artísticas, realizar festivais e encontros gastronômicos e culturais para divulgação do corredor.

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Corredor Gastronômico do Bairro Vilas Boas

- Corredor Gastronômico Turístico e Cultural do Bairro Vilas Boas / Localização: avenida Bom Pastor, entre a avenida Eduardo Elias Zahran e a rua do Marco, Bairro Vilas Boas.

- Corredor Gastronômico Turístico e Cultural do Bairro Parati / Localização: rua da Divisão, entre a avenida Guaicurus e a avenida George China.

- Corredor Gastronômico Turístico e Cultural do Bairro Nova Lima / Localização: avenida Gualter Barbosa, entre a rua Marquês de Herval e a avenida Zulmira Borba, Bairro Nova Lima.

Para Moacir, a realocação da importância do comércio em Campo Grande aconteceu majoritariamente na última década. "Hoje as pessoas não têm mais tempo, se for para sair, tem que ser mais perto. Por isso, é fácil afirmar: mesmo com a revitalização, o Centro da cidade nunca mais vai voltar a ser o mesmo, pelo menos em sua relevância comercial". 

Jornal Midiamax