Cotidiano

Com maior seca em 60 anos e inércia do governo, Pantanal tem risco de nova onda de incêndios este ano

Conselho de Biologia cobra medidas para enfrentar novo período de seca no bioma

Gabriel Maymone Publicado em 11/04/2021, às 14h00

Bombeiros lutaram dia e noite para conter chamas no Pantanal em 2020
Bombeiros lutaram dia e noite para conter chamas no Pantanal em 2020 - Pedro Silvestre/Canal Rural

O Pantanal vive a maior seca dos últimos 60 anos e a combinação desse fator com a ação humana e falta de estrutura para combate a incêndios fez com que o Pantanal sofresse uma das maiores tragédias ambientais de sua história no ano passado, com a devastação de cerca de 30% do bioma pelo fogo. A previsão para este ano não é nada animadora, visto que as ações do poder público foram pontuais e a meteorologia prevê chuvas abaixo da média para 2021.

Para o biólogo responsável pela delegacia do Conselho Regional de Biologia 1ª região - cuja jurisdição engloba os estados de São Paulo, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, José Milton Longo, a hora de agir é agora. "Mesmo com toda a destruição no ano passado, com toda a comoção nacional, nada foi feito. Os governos ainda não colocaram em prática as medidas preventivas que tanto discutimos", avaliou.

No ano passado, o fogo consumiu 4,4 milhões de hectares. Na época, já nos meses de março e abril houve recorde de queimadas para o período. A situação se agravou a partir de julho e só deu trégua com a chegada das chuvas de novembro. Além de disponibilizar os brigadistas e bombeiros com equipamentos, profissionais de outros estados precisaram se deslocar ao Pantanal para auxiliar no combate às chamas.

Várias medidas foram discutidas na ocasião, mas com o fim do fogo, o debate esfriou. "A inação do poder público e a falta de informação e conscientização levam a este cenário. Falta educação, fiscalização e colocar em prática as brigadas regionais de combate a incêndios no Pantanal", pontua o biólogo, especialista em ecologia e conservação.

A reportagem entrou em contato com a Semagro (Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Produção e Agricultura Familiar), através da assessoria de imprensa, para se manifestar sobre o assunto, mas não obteve retorno. O espaço segue aberto para esclarecimentos.

Condições climáticas desfavoráveis

A meteorologista do Cemtec-MS (Centro de Monitoramento do Tempo e do Clima), Franciane Rodrigues, explica que o verão é o período mais chuvoso no Pantanal, mas que esse ano ficou abaixo da média. "Mesmo tendo janeiro com chuvas acima do esperado na região, isso não foi suficiente. Os dados de precipitação da sub-bacia do Alto Paraguai mostram que desde abril de 2019 as chuvas estão abaixo da média de forma significativa. Nos meses subsequentes, as condições de chuva reduzem mais ainda e as chuvas volumosas acabam sendo menos frequentes até meados de setembro", explica.

De acordo com pesquisadores do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres (Cemaden), o Pantanal vive atualmente a pior seca dos últimos 60 anos. Os pesquisadores alertam também que a seca ainda deverá durar mais alguns anos e ter graves consequências para a fauna, a flora e as pessoas, a exemplo do aumento de grandes incêndios.

Conforme prognóstico climático do Instituto Nacional de Meteorologia, os próximos meses poderá ser de chuvas abaixo da média com total previsto em abril de até 80 milímetros, maio em até 60 milímetros e junho em até 40 milímetros. "Com esse prognóstico, é necessário atenção redobrada com incêndios florestais e seguir a recomendação de não utilizar fogo no período seco do Estado, para que não tenhamos situações catastróficas como nos anos de 2019 e 2020", alerta a meteorologista.

Seca afeta répteis (Foto: Divulgação / Corpo de Bombeiros)
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Falta de medidas preventivas

As condições climáticas adversas não podem ser alteradas, mas outros tipos de ações podem ser feitas para evitar uma nova tragédia no Pantanal este ano. 

A primeira recomendação dos especialistas é a criação de brigadas de incêndio locais do PrevFogo (Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais) do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). A capilarização das brigadas permitiria o rápido deslocamento das equipes para o combate aos incêndios. A logística de deslocamento no Pantanal é complexa e uma equipe do PrevFogo pode demorar até dois dias para chegar, por exemplo, de Corumbá até um foco de incêndio.

Assim como citado pelo biólogo José Milton, o aumento da fiscalização é medida necessária, pois grande parte dos incêndios de 2020 foi provocada por ação humana. s proprietários de terras no Pantanal podem realizar queimas controladas, desde que autorizados pelo poder público e com as devidas precauções para contenção do fogo. Em 2020, e em menor escala nos anos anteriores, houve muitas queimadas não autorizadas que fugiram do controle e tornaram-se incêndios de grandes proporções, o que se enquadra como cometimento de crime ambiental.

 Brigadistas combatem fogo no Pantanal | Foto: Henrique Arakaki
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Para que a tragédia não se repita este ano, os governos federal, estaduais e municipais precisam investir em contratação de recursos humanos para as brigadas e órgãos de fiscalização, treinamento das equipes, criação de infraestrutura local e compra de materiais, como equipamentos de proteção individual, além do aluguel de helicópteros para deslocamento e aviões com capacidade para despejar água sobre as áreas em chamas.

Recuperação

Quem passa pelos locais atingidos pelos incêndios acredita que a vegetação já está totalmente recuperada, mas a natureza pode levar anos para recuperar a fauna e flora perdida. 

“Houve uma perda muito grande e de todos os grupos, incluindo os polinizadores, dos quais muitas espécies vegetais dependem”, explica Milton.

Ainda conforme José Milton, espécies consideradas de baixa mobilidade como anfíbios, mamíferos e répteis foram os mais afetados. “Fauna de solo, insetos e outros grupos invertebrados também”. Essas espécies foram prejudicadas de várias formas como “perda de abrigos, de comida, de recursos em geral, além de serem queimados”, pontua o biólogo.

Jornal Midiamax