Cotidiano

Cercada por desinformação, infertilidade de casais ainda é desafio nos lares de MS

Saiba quais exames pedir e sintomas devem ser observados desde cedo

Dândara Genelhú Publicado em 19/06/2021, às 17h13

Uma em cada 10 mulheres podem ter endometriose
Uma em cada 10 mulheres podem ter endometriose - Foto: Reprodução | Freepik

Presente em cerca de 15% da população mundial, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), a infertilidade é um assunto que ainda é tabu e permeado por desinformação, que, acaba pegando muita gente desprevenida. Não é a toa que junho ganhou a alcunha de Mês Mundial da Conscientização da Infertilidade, tudo para que o assunto saia da penumbra e entre em pleno debate.

E quando o assunto surge à tona, é comum que algumas falsas verdades sejam desmascaradas, tais como a associação da infertilidade ao quesito "idade": apesar de a maior parte das pessoas ligarem a infertilidade feminina diretamente ao tal do "relógio biológico", mulheres jovens também podem ter dificuldades para engravidar. Mesmo com 90% de possibilidades de ter uma gestação natural, indivíduas de até 30 anos podem sofrer de doenças que impedem a geração de um bebê.

Uma das situações que podem causar esta condição é a endometriose, doença que atinge uma entre cada dez mulheres em idade reprodutiva. A pastora Gisele Vilalva de André Marçal, de 38 anos, é uma delas. Ao Jornal Midiamax, Gisele relatou que, já aos 15 anos, foi diagnosticada com síndrome dos ovários policísticos. Desde então, faz tratamentos para amenizar a doença. Casada há 15 anos, Gisele conta que continuou fazendo consultas com ginecologistas para saber o motivo das pausas tão longas na menstruação.

“Eu não menstruava, já fiquei até 11 meses sem menstruar”, lembra a pastora. Desta forma, no interior de Mato Grosso do Sul, em Aquidauana e Maracaju, ela não conseguiu o amparo suficiente no sistema público de saúde para buscar um diagnóstico definitivo. Apenas em 2020, após 14 anos tentando engravidar, Gisele e o marido decidiram ir a uma cidade com mais estrutura e fazer consultas privadas para entender o caso. Os dois passaram por exames que verificam a fertilidade.

“Fiz vários exames e ele também. O diagnóstico foi de endometriose e de síndrome dos ovários policísticos”, explicou. Depois disso, o casal procurou um especialista da Capital, que infelizmente informou que já não havia tempo para uma gravidez natural. Para eles, foi recomendado fertilização in vitro. “Infelizmente eu não iria conseguir [a gravidez natural], porque com mais de 14 anos de casado e a gente tentando engravidar, eu já não tinha conseguido”.

Mesmo com a notícia de que ainda poderiam ter um filho gerado em Gisele, ela conta que a notícia foi dolorosa. “Foi muito difícil para nós. A gente pensava quer seria preciso só fazer um tratamento, tomar uma medicação, e que tudo ficaria bem. Nunca passou pela cabeça que a fertilização seria necessária", conta.

Investimento em um sonho

Na época do diagnóstico de endometriose, o casal não tinha condições financeiras para continuar o tratamento de saúde. “Quanto recebemos a notícia que precisaríamos fazer a fertilização in vitro, já tínhamos gasto mais de R$ 16 mil com exames, medicação, consultas para os dois”.

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Gisele e o esposo esperam resultado da fertilização | Foto: Arquivo Pessoal | Reprodução

Sabendo da situação financeira do casal de pastores, o médico indicou que eles conseguissem doadores de óvulos. Gisele conseguiu quatro candidatas, porém, somente duas foram aprovadas. "Uma amiga minha doou duas vezes e outra doou uma vez. Com essa doação, isso custeou totalmente a minha fertilização in vitro", explicou.

Os óvulos ficaram congelados por dois meses, enquanto Gisele fazia as preparações do corpo. “No dia 10 de junho, eu já fiz a transferência e agora estou esperando o dia 21 para saber se deu certo ou não, se nosso milagre aconteceu”, relata.

A fertilização de Gisele aconteceu justamente no mês em que é lembrada a infertilidade feminina. Em junho são destacadas as diversas formas que podem atingir o sonho de uma mulher de engravidar.

A dificuldade pode estar em qualquer um

Antonio Miziara é um médico que debruçou a carreira no tema. Atuando como ginecologista, ele auxilia famílias que querem diagnóstico sobre fertilidade. Nas palavras de Miziara, um casal pode ser considerado infértil se "tem relação sexual com frequência semanal e  não engravida após 12 meses de tentativas”. Ou seja, independente da idade, é preciso ficar atento aos sinais do sistema reprodutor.

Miziara destaca que a busca pelo diagnóstico é conjunta, ou seja, ambos devem fazer exames. Isso porque a infertilidade é igualmente proporcional em homens e mulheres: são cerca de 40% de chances de cada gênero ter algum impedimento. E em 20% dos casos, são os dois parceiros que possuem infertilidade.

Nas mulheres, as principais causas são: ovários policísticos; os fatores tubo-peritoneais; alterações nas trompas, causadas principalmente por sequelas devido à infecções no passado de algumas bactérias que são transmitidas principalmente pela via sexual; e endometriose. Já nos homens, o principal problema que causa infertilidade é a varicocele, “que são varizes nos testículos, que atrapalham na produção e determinam a qualidade dos espermatozoides”. Além disso, homens e mulheres devem se atentar aos cuidados com a saúde e estilo de vida. Excesso de peso, uso de tabaco, calmante, uso de álcool e outros, por exemplo, podem atrapalhar “tanto na qualidade dos ovos, quanto na qualidade dos espermatozoides”.

Quanto mais cedo, melhor

Gisele demorou pelo menos 15 anos para receber o diagnóstico da endometriose. Se isso acontecesse mais cedo, talvez ela pudesse tentar outros tratamentos. “Provavelmente, se eu tivesse recebido esse diagnóstico e a orientação de procurar um especialista em pelo menos 15 anos atrás daria para fazer alguma coisa”, relata Miazara ao Jornal Midiamax.

O especialista lembra que mulheres que menstruam a cada 40, 50 dias, ou até em intervalos maiores, devem se preocupar, caso tenham o desejo de ter uma gestação. “Isso é sinal de que ela não está ovulando adequadamente. Então, já pode procurar ajuda, mesmo antes de iniciar as suas tentativas de engravidar”, explica.

Outro sintoma que deve ser observado em mulheres são as cólicas menstruais muito fortes. “É a paciente com dor limitante no período menstrual, que não consegue trabalhar e que às vezes tem que ir ao hospital tomar medicação. Isso pode ser um sinal”, lembra o ginecologista. Dores durante o ato sexual também podem indicar algum tipo de dificuldade, como endometriose.

Desta forma, quem pretende ser mãe biológica algum dia deve procurar exames que comprovem a fertilidade. O especialista indica estes: ultrassom seriada para controle de ovulação, quando acompanham todo o tempo menstrual para avaliação das trompas; histerossalpingografia, que é uma radiografia das trompas, na qual é colocado o contraste no útero; e a ultrassom comum, para quem não sabe o básico, e para conferir a saúde útero, se existem miomas, ou se há alguma suspeita de enfermidade.

Jornal Midiamax