Cotidiano

Aglomerar é necessário? Na pandemia, quase 700 festas clandestinas foram flagradas em Campo Grande

‘Se não é na minha casa, não gera empatia’, explica psicóloga sobre mortes e descaso com isolamento

Gabriel Neves Publicado em 17/04/2021, às 09h31 - Atualizado às 09h49

Festa clandestina sendo realizada em Campo Grande durante a pandemia.
Festa clandestina sendo realizada em Campo Grande durante a pandemia. - (Foto: Arquivo/Midiamax)

Há cerca de um ano, quando a pandemia do novo coronavírus chegou em Mato Grosso do Sul, todos viram suas rotinas mudarem de forma brusca. As festas acabaram, um simples encontro para tomar tereré se tornou perigoso. Perigo que não afetou algumas pessoas.

Conforme dados da GCM (Guarda Civil Metropolitana), apenas em Campo Grande, foram realizados 699 atendimentos operacionais relacionados a aglomerações, sejam em locais de festas ou residências.

De acordo com a psicóloga Luisa Freira, esse comportamento é um reflexo da falta de empatia da sociedade, gerada muitas vezes por uma falsa impressão de que a quebra da quarentena não está, de fato, afetando as pessoas ao seu redor.

“As pessoas possuem dificuldade em ter empatia com outros indivíduos que elas não conhecem, a gente se preocupa quando uma avó, uma mãe é contaminada ou acaba falecendo, mas quando se trata de pessoas que não conhecemos, acabamos tratando como um caso sem relevância”, comentou.

Segundo dados cedidos pela GCM, no período entre 21 de março de 2020 e 14 de abril de 2021, ocorreram 89 atendimentos operacionais em festas e eventos realizados em salões e 610 encerramentos de festas e aglomerações realizado em residências.

Já as pessoas abordadas por estarem descumprindo as medidas de combate à Covid-19, foram 58.463, além de 396 estabelecimento notificados pelo mesmo motivo apenas na Capital.

Para Freira isso explicita, de forma geral, dois grandes problemas que levam as pessoas a quebrarem as medidas de isolamento: a falta de empatia e o efeito de grupo. A profissional explica que, de modo geral, "existe um sentimento de certo modo narcisista", onde as pessoas simplesmente não se importam em colocar suas vontades e necessidades a cima da dor de outras pessoas.

“Já o efeito de grupo é muito comum entre os jovens que, por influência de um grupo maior,ou por não querer se sentir deslocado, aceita sair de casa, se aglomerar ou participar de festas, apenas para se ver incluída em um certo grupo de amigos”, explicou.

A psicóloga comenta que, ao ver seus amigos e colegas quebrando a quarentena, gera uma sensação de “se ele pode, eu também posso”. Como já noticiado anteriormente pelo Jornal Midiamax, a “lotação” é um dos atrativos utilizados pelos organizadores de festas clandestinas em Campo Grande.

Seja nos convites, nos áudios ou vídeos, os organizadores frisam que o local estará lotado, publicando imagens de festas anteriores com espaços comportando um número de pessoas muito superior ao permitido.

Como lidar com o isolamento

Luisa explica que primeiramente as pessoas precisam entender que essa situação não é algo isolado, que apenas uma pessoa ou seu grupo de amigos estão passando. “É necessário compreender que se rata de um problema global, que todos estão passando pelas mesmas frustrações e que suas atitudes podem causar danos a desconhecidos”,

Ela conta que neste momento a tecnologia, se utilizada de forma correta, se torna um grande aliado, mas para isso as pessoas precisam ter vontade de encarar esse novo estilo de vida. “Nós temos uma recusa à ideia de realizar uma vídeo-chamada com um amigo por exemplo, mas precisamos sair dessa zona de conforto e encarar a nova realidade, precisamos aprender essa nova forma de se comunicar”.

A psicóloga explica que outro ponto importante é a fuga das redes sociais. “Sair um pouco do Instagram, onde vemos vidas e rotinas perfeitas que fogem da realidade”. Segundo a profissional, as redes sociais, em muitos casos, trazem mais frustações do que recompensas.

Por último a psicóloga explica considera importante que as pessoas encontrem lazeres individuais que façam com que elas se sintam “vivas” novamente. “Com o home-office, muitos entraram em um ‘modo automático’, a pessoa acorda, trabalha, come e vai dormir, algumas vezes nem o pijama ela tira”, comentou.

“Eu tenho pacientes que começaram a pintar, tocar violão, as vezes até mesmo assistir um filme, eu acredito que as precisam encontrar algo prazeroso e realizar essa atividade algumas vezes na semana, para que elas saiam desse piloto automático e voltem a sentir que a vida está acontecendo, que estão vivos”, explicou. “Até mesmo adotar um animal de estimação é uma possibilidade, principalmente para crianças”, finalizou.

Jornal Midiamax