Cotidiano

Reabertura de parques de Campo Grande reaviva memórias e gera expectativa entre vizinhos

Espaços de esporte e lazer serão reabertos na segunda-feira mediante medidas de biossegurança e desejo de volta à normalidade.

Humberto Marques Publicado em 11/09/2020, às 07h27 - Atualizado às 14h12

Lídio e amigo caminham ao redor do Elias Gadia, no Taveirópolis. (Foto: Henrique Arakaki)
Lídio e amigo caminham ao redor do Elias Gadia, no Taveirópolis. (Foto: Henrique Arakaki) - Lídio e amigo caminham ao redor do Elias Gadia, no Taveirópolis. (Foto: Henrique Arakaki)

Decreto da Prefeitura de Campo Grande garante, a partir de segunda-feira (14), a reabertura da maioria dos parques e praças esportivas fechados em março, dentro das medidas de enfrentamento ao coronavírus. Além de devolver uma opção de lazer aos campo-grandenses, a medida traz conforto ao coração de quem cresceu ou construiu a vida nos arredores desses espaços, “quintais” que guardam memórias felizmente intocadas pela pandemia.

A Covid-19, aliás, faz parte das lembranças como um alerta para que outros momentos sejam vivenciados em parques como o Belmar Fidalgo, Horto Florestal e Elias Gadia. Temores sobre a doença fazem com que algumas pessoas ainda vejam com preocupação a abertura dos portões e as consequentes aglomerações –as quais a Prefeitura de Campo Grande pretende combater.

A reabertura foi permitida em parecer do Comitê Técnico de Combate à Covid-19 com medidas de biossegurança a serem adotadas nos parques e praças e que exigem capacitação dos servidores: uso de máscaras, medição de temperatura para barrar pessoas com febre, exigência de distanciamento social, fornecimento de álcool 70%, higienização de equipamentos e limitação da ocupação a 50% da capacidade estão entre as normas.

Exigências importantes que são um detalhe a mais para quem conta os minutos para a reabertura. “Estou esperando o público. Todo mundo reclama que o parque está fechado, mas tudo já reabriu. Precisa reabrir o parque para as pessoas fazerem atividade física”, contou Antônio de Almeida, de 50 anos, 20 deles vendendo água de coco em locais como o Belmar.

“Sinto muita falta [do parque aberto], porque aqui é um lugar que as pessoas buscavam lazer com segurança”, prosseguiu ele. Antônio também espera que a retomada permita restabelecer a renda, que caiu 70% desde o início da pandemia de coronavírus.

A jornalista Julia Torrecilha, por sua vez, era um bebê quando Pelé pisou no Belmar Fidalgo –então o principal estádio campo-grandense–, em 1965. A passagem, porém, virou memória de seu pai, e a praça esportiva, com a chegada das décadas de 1980 e 1990, acabou convertida em um poliesportivo. “A gente tem uma história nesse parque”, contou ela.

“Participei dos primeiros grupos de ginástica com minhas colegas de faculdade”, prosseguiu Julia, para quem o parque, hoje fechado, traz sensações diferentes. “Dá uma tristeza ver no final da tarde isso aqui sem movimento. Você caminha e fica amigo das pessoas. Sinto falta das conversas, da atividade física, de ver as pessoas”.

Para a jornalista, a reabertura, seguindo os protocolos de biossegurança, “vai trazer vida para toda a região central”.

Espaços de esporte e lazer serão reabertos na segunda-feira mediante medidas de biossegurança e desejo de volta à normalidade.
Equipamentos esportivos aguardam usuários no Belmar. (Foto: Henrique Arakaki)

‘Vai ser mais alegre com as pessoas’, diz vizinha do Horto Florestal

A poucos quilômetros do Belmar Fidalgo, o Horto Florestal –que, conta a história, viu Campo Grande nascer no encontro dos Córregos Prosa e Segredo– traz uma sensação de abandono aos vizinhos. O motorista José Gilberto, 60, mora nas imediações do espaço da Vila Carvalho desde 1973, é um deles.

“Vi o Horto virar Horto. Sou da época que isso era um brejo, com tratamento de esgoto“ conta, mostrando foto do encanamento que rasgava o local. Ele afirma que um matadouro e a antiga prefeitura funcionaram onde hoje está o Instituto Mirim. “Essa avenida [Fábio Zahran, a Via Morena, no antigo traçado dos trilhos] era mato, depois virou um campo de areia. Aí veio o asfalto”, destaca.

Quanto a reabertura, Gilberto afirma ter necessidade de um local para exercícios e caminhadas. “Fico contente porque é um local de lazer, de fazer exercício e de levar as crianças”.

A dona de casa Marileide Rocha, 53 anos –30 deles na região do Horto–, também comemora. “Sinto saudade do lugar, acho que está abandonado. Fazíamos caminhada, tínhamos a feira de brechó, aí veio a pandemia e fechou tudo”, conta. “Vai ser uma felicidade. Agora só tem o vento lá dentro. Vai ficar mais alegre com as pessoas”.

Espaços de esporte e lazer serão reabertos na segunda-feira mediante medidas de biossegurança e desejo de volta à normalidade.
Garça caminha em um Horto Florestal sem público. (Foto: Henrique Arakaki)

Medo do coronavírus divide espaço com desejo de ‘saúde física e mental’

Nem todo mundo, porém, consegue ver a reabertura sem se preocupar com o risco do coronavírus. A artesã Gisele Fraga, por exemplo, reconhece sentir falta das caminhadas, árvores e do ar puro no Horto Florestal. “Isso aqui é um privilégio, Deus me livre se um dia acabar”.

No entanto, ela cobra “consciência” da população no uso. “Deve usar máscara e precisa ter mais guardas, porque tem muito vândalo. Mas não acho que seria o momento de abrir, e sim no final do ano”, opinou Gisele.

Com sentimentos mais divididos, o doutorando Rafael Kendy, 27, olha para o Parque Elias Gadia, no Taveirópolis, como lugar de sua preferência para caminhadas e exercícios. “Usava o espaço três vezes por semana para fazer atividades físicas”, afirma, considerando “meio perigoso” a reabertura e cobrando responsabilidade da população.

“Fico em um misto de ser perigoso pelas pessoas não levarem a sério [a prevenção ao coronavírus], mas também sei que será benéfico para a saúde mental e física das pessoas”, considerou Rafael.

O aposentado Lídio Racalde, 77, por sua vez, critica veementemente o fechamento do Elias Gadia. “A troco de que?”, disparou ele, que fazia as caminhadas frequentes na pista do parque. Agora, circula a calçada com um amigo. Quanto à reabertura, ele também rejeita as medidas de biossegurança. “Se for com um monte de regra eu continuo aqui fora”.

Lídio, porém, revela respeito pelo espaço no qual jogou futebol entre 1961 e 1962, quando o extinto Esporte Clube Taveirópolis mandava seus jogos no antigo estádio Elias Gadia. “Hoje ele tem uma utilidade boa, mas está abandonado”, afirmou.

Por outro lado, o casal Gutenberg Moisés, 46, motorista, e Rosa Ortega, 46, do lar, festeja a reabertura do Elias Gadia, considerado por eles o único espaço de lazer no bairro. “É um lugar muito gostoso, onde trazíamos os netos. Moramos a duas ruas do Elias Gadia, que é referência para tudo e um lugar muito bom para encontrar os filhos e amigos”.

Espaços de esporte e lazer serão reabertos na segunda-feira mediante medidas de biossegurança e desejo de volta à normalidade.
Elias Gadia também foi fechado por conta da pandemia de Covid-19. (Foto: Henrique Arakaki)

Gutenberg revela que a ansiedade pelo retorno do local contagiou a família. “Meu filho mandou um print [imagem com a notícia] da reabertura. Está todo mundo na expectativa”.

Dentre as praças e os parques municipais de Campo Grande fechados, apenas 2 não reabrirão na segunda-feira: o Parque Ayrton Senna, que abriga o polo de combate ao coronavírus, e o ginásio Avelino dos Reis (Guanandizão), que segue em reforma.

Jornal Midiamax