Cotidiano

Fome também é consequência da pandemia e ONG de Campo Grande pede doações para alimentar famílias

Além das ruas vazias, colapso econômico e hospitais superlotados, a fome também é uma das consequência da pandemia do novo coronavírus, mas que quase ninguém vê. Diferente de parte da população que tem o privilégio de estocar comida e álcool em gel e de manter-se em casa, há uma camada desprotegida incapaz de acatar as […]

Guilherme Cavalcante Publicado em 19/03/2020, às 14h02 - Atualizado às 17h24

Famílias afetadas pela quarentena conseguira se alimentar nesta quinta-feira, mas estoque de ONG pode não durar e instituto pede doações | Foto: Divulgação
Famílias afetadas pela quarentena conseguira se alimentar nesta quinta-feira, mas estoque de ONG pode não durar e instituto pede doações | Foto: Divulgação - Famílias afetadas pela quarentena conseguira se alimentar nesta quinta-feira, mas estoque de ONG pode não durar e instituto pede doações | Foto: Divulgação

Além das ruas vazias, colapso econômico e hospitais superlotados, a fome também é uma das consequência da pandemia do novo coronavírus, mas que quase ninguém vê. Diferente de parte da população que tem o privilégio de estocar comida e álcool em gel e de manter-se em casa, há uma camada desprotegida incapaz de acatar as recomendações sanitárias – o que expõe, mais uma vez, o aspecto político e social da pandemia.

É a situação, por exemplo, de cerca de 50 famílias campo-grandenses do bairro Jardim Canguru, na região do Anhaduizinho, uma das mais carentes da Capital. Para elas, autoquarentena é uma palavra vazia de significado, ainda mais quando o barulho da fome no estômago soa mais alto que o das notícias na TV.

Nesse momento de desabastecimento, a comida que falta nas gôndolas também falta nos pratos. Isso porque muitas dessas famílias vivem da informalidade, como o comércio em ruas e semáforos. Assim, com clientes escassos, não há renda. Sem renda, portanto, não há comida na mesa.

A situação desse grupo agravou-se na terça-feira (17), quando o Instituto Maná do Céu, obedecendo ao decreto municipal, anunciou que suspenderia as atividades por 20 dias, deixando de atender cerca de 120 crianças e adolescentes.

Só que a conta não fechou. Sem acesso às instalações, a direção da ONG entendeu que muitos dos atendidos basicamente passariam fome.

“Suspendemos as atividades por 20 dias, mas não tem como não alimentar essas pessoas. Eles só conseguem contar com a gente. Recebemos relatos de famílias que ontem almoçaram repolho e não jantaram. Outra família nem se alimentou, porque a mãe está desempregada e o pai trabalha montando palcos, mas não estão acontecendo eventos. Eles não tem renda para comprar comida, quem dirá para estocar”, conta o pastor Igor Silva, que participa do instituto.

Diante desta realidade, os integrantes da Maná do Céu decidiram seguir ao menos com o fornecimento da alimentação. Uma reunião discutiu os cuidados a serem tomados, como uso de álcool em gel, máscaras e evitar contatos. Às famílias, a orientação foi para que apenas um integrante fosse ao local entregar os vasilhames que são abastecidos com alimento. Eles também destacam a importância de ficar em casa e dos hábitos de higiene.

“Só que é tudo muito difícil. Algumas casas nem água tem, como que eles vão lavar as mãos? Nós corremos risco? Sim. Estamos sendo cuidadosos ao máximo, fizemos escalas para fazer com que os voluntários saiam de casa o mínimo possível. Mas, entre estar vulneráveis e deixá-los com fome, preferimos ficar vulneráveis. A fome já é uma certeza”, destaca Igor.

Nesta quinta-feira (19), o quarto dia de autoquarentena, as 50 famílias tiveram comida na mesa. Mas, o estoque da instituição não deve durar os 20 dias de suspensão de atividades – que podem ser prorrogáveis. Por isso, a Maná do Céu pede doações, que podem ser feitas diretamente na conta bancária da instituição, também para evitar contato físico e deslocamentos.

“A fome é um medo real para essas pessoas, é algo que está no dia a dia delas. Tomamos todo o cuidado no preparo dos alimentos e na entrega. Mas, se eles não comerem, não terão nem imunidade pra enfrentar o que pode estar por vir”, avalia o voluntário.

Segundo o Igor, o estoque de arroz na despensa deve durar cerca de 20 dias, caso o alimento não seja reposto. Já o de feijão dura apenas 12. As doações podem, eventualmente, até ajudar com que o grupo amplie as famílias atendidas.

Quem puder contribuir com doações, pode fazer depósitos na conta do instituto, na Caixa Econômica Federal (Agência 2112, Conta Corrente 415-3, operação 003). Outras formas de doação podem ser combinadas por telefone: (67) 99240-7413. Além dos alimentos, a ONG também recebe doação de produtos de limpeza.

Jornal Midiamax