Cotidiano

Com fome e no meio do lixo, famílias permanecem em área invadida na esperança de novo “lar”

Na esperança de conseguir um lugar para morar, famílias permanecem na área invadida denominada Cidade de Deus no bairro Dom Antônio Barbosa, em Campo Grande, na tarde desta terça-feira (28). Além da fome, o local é marcado pela alta vulnerabilidade com lixo, matagal e até animais mortos.. Ao chegar no local, é possível ver materiais […]

Karina Campos Publicado em 28/07/2020, às 17h36 - Atualizado às 17h54

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Apenas com lona e pedaços de madeira, famílias constroem barracos novamente. (Foto: Leonardo França)

Na esperança de conseguir um lugar para morar, famílias permanecem na área invadida denominada Cidade de Deus no bairro Dom Antônio Barbosa, em Campo Grande, na tarde desta terça-feira (28). Além da fome, o local é marcado pela alta vulnerabilidade com lixo, matagal e até animais mortos..

Ao chegar no local, é possível ver materiais recicláveis, lixo orgânico, matagal, animais em decomposição e odor forte. Enquanto os pais levantam lonas e madeiras dos barracos, crianças brincam descalças em meio a sujeira.

Sem querer se identificar, uma mãe conta que vai dormir no lugar para garantir um espaço para as filhas que estão grávidas, uma de 3 e a outra de 5 meses. Ela diz que durante a operação de desocupação, o barraco foi derrubado, mas garante que ficará pela moradia as filhas.

“Ontem (27), eles vieram e derrubaram, eu reconstruí, hoje derrubaram de novo, é a terceira vez que reconstruí. Eles (moradores) não tem moradia, se estão aqui é porque precisam, estamos em uma área que não estão usando. Se derrubam de dia, de noite estamos aqui para erguer de novo. Estou aqui pelos meus filhos”, disse.

Gestante de 5 meses, Geisiane Ferreira,21, relata que estava pagando aluguel, o marido ficou desempregado há dois meses e não tem para onde ir. No barraco está mais três filhos, uma menina de 2 anos, e dois meninos de 5 e 3 anos de idade. Ela estava sem comer o dia todo, e o que tinha, alimentou as crianças.

“É difícil, faço qualquer coisa para eles não ficarem com fome. Eu fico o dia sem comer, tomo um tereré com salgadinho e continuo. Nós limpamos a ‘carniça’ com as próprias mãos. Me sinto constrangida, para eles (autoridades) a gente não é nada. Só queremos um lugar para morar”, desabafa.

Com a 4 crianças e a esposa, Willian da Silva,25, disse que trabalhava como jardineiro, mas foi demitido devido a pandemia de coronavírus. O aluguel da casa que moravam atrasou por meses, e também não tem lugar para ficar.

“Vou dormir aqui com minha esposa e meus filhos. A Ehma (Agência Municipal de Habitação de Campo Grande) disse que ia parecer, eu quero pagar, não quero nada de graça. Só quero uma vida confortável para meus filhos, vejo meus filhos sem nada, na sujeira, me dá um aperto no coração. Se tivesse um trabalho, eu iria agora, mas ninguém está contratando na pandemia”, lamentou.

Em entrevista ao Jornal Midiamax, o diretor-presidente da Emha, Enéas Neto, explicou que a maior parte das famílias no local já receberam moradia e as equipes devem intensificar a fiscalização para desocupação do terreno.

“Temos um grupo permanente para tentar evitar qualquer tipo de invasão. O problema é pontual. Pessoal que falaram com a imprensa já receberam unidades habitacionais ainda da segunda ocupação da segunda favela que tinha sido retirada, foram 323 famílias levadas para Vespasiano Martins, Bom Retiro e Jardim Canguru”, finalizou.

* Material atualizado às 17h54

Jornal Midiamax