Cotidiano

‘Cansados de ver gente morrer’: enfermeiros já defendem lockdown para frear coronavírus em MS

“Estamos exaustos”. Este é o desabafo de uma profissional da saúde, que terá a identidade preservada, e está atuando na linha de frente de combate ao coronavírus, no hospital de referência para tratamento da doença no Estado, o HRMS (Hospital Regional de Mato Grosso do Sul). Atendendo em média 20 pacientes por dia cada um, […]

Karina Campos Publicado em 15/12/2020, às 09h08 - Atualizado em 16/12/2020, às 08h08

 (Foto: Ilustrativa/Arquivo)
(Foto: Ilustrativa/Arquivo) - (Foto: Ilustrativa/Arquivo)

“Estamos exaustos”. Este é o desabafo de uma profissional da saúde, que terá a identidade preservada, e está atuando na linha de frente de combate ao coronavírus, no hospital de referência para tratamento da doença no Estado, o HRMS (Hospital Regional de Mato Grosso do Sul). Atendendo em média 20 pacientes por dia cada um, os trabalhadores da saúde defendem que um decreto mais rígido que determine lockdown no Estado pode reduzir a lotação e aumento dos casos e mortes.

Trabalhando 10 anos na unidade, uma enfermeira conta que não consegue abraçar o filho por medo do que passa e vê diariamente na rotina hospitalar. No começo da pandemia, chegava do plantão e dormia em quarto separado do marido, mas ele foi infectado.

“Não dá para saber da onde se pega, a gente que trabalha no hospital se cuida, mas a doença é traiçoeira. Vejo pessoas em festas sem nenhum medo, sem nenhum respeito por nós que damos a vida todo os dias. Determinar medidas mais extremas no começo ajudou, agora é necessário”, disse.

O questionamento é levantado pela colega. A enfermeira relata que a rotina mudou completamente. Todos os setores do hospital foram adaptados para receber pacientes positivos. Setores que eram especializados para outras patologias, foram direcionados para atender exclusivamente pessoas com diagnóstico positivo.

“Acredito que ajudaria muito (lockdown) principalmente porque não temos ajuda da população, infelizmente, não tem bom senso e continuam indo a shoppings, bares, restaurantes etc. Enquanto houver aglomeração indiscriminada a doença vai continuar fazendo vítimas exponencialmente. As únicas medidas conhecidas até agora contra a Covid é o distanciamento social, uso de máscara e higiene das mãos. A vacina está perto, mas até lá se não considerarmos essas medidas ainda vamos ter muitas mortes e sequelas”, explicou.

Crianças infectadas

Trabalhando no tratamento infantil, uma profissional da área, explica que nos últimos dias deram entrada quase o dobro de crianças com a doença, em muitos casos, mães acabam tendo o filho prematuro em decorrência do vírus.

“Na noite passada, por exemplo, estávamos com dois recém-nascidos na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) Neonatal e um no centro obstétrico aguardando vaga na UTI. Tem fisioterapeutas, na linha adulto, que chegam a atender 18/20 pacientes em 12 horas de plantão. ”

Ainda segundo a servidora, a situação se agrava pelo aumento da demanda. “Não há lugar mais para colocar pacientes. Salas e locais que não eram leitos, como endoscopia, viraram UTI. Os pacientes que saem da UTI, que vão para as enfermarias não conseguem ter o acompanhamento adequado, pois os profissionais estão deslocados para as áreas críticas, como UTI e Pronto Socorro. O lockdown consegue reduzir a movimentação de pessoas, mas elas se aglomeram em casa mesmo, precisam ser conscientes”, desabafa.

Exigidos ao máximo

Com a rotina intensa, os especialistas precisam centralizar as forças para ‘não errar’. Responsável pelos medicamentos, ela conta que devido à demanda, são vários prontuários para cuidar e, por vezes, em equipes reduzidas. Alguns internados por muito tempo, se não melhoraram, acabam contraindo bactérias hospitalares.

“Os pacientes com Covid precisam de cuidados específicos, o sistema acaba ficando fragilizado, se não vem a óbito pelo coronavírus, pode morrer de infecção hospitalar”, conta.

A pandemia já completa nove meses de trabalho nas unidades de saúde de Campo Grande, desde o início do primeiro positivo e início de coleta, porém, conforme uma servidora, devido as flexibilizações, as pessoas perderam o medo dos decretos.

“Nós perdemos o respeito, quem paga somos nós. O lockdown, desde o início, traz uma sensação de medo, o que impediu as pessoas de saírem por um tempo. Até agora com o toque de recolher, precisa de mais fiscalização, assim, quem colocar as vidas em risco, assume a responsabilidade”, finaliza.

Descartado

Na segunda-feira (14), o Jornal Midiamax ouviu o secretário Geraldo Resende, titular da SES (Secretaria de Estado de Saúde). Para Geraldo, determinação de lockdown, pelo menos neste momento, está descartada pelo Estado.

“Município (deve) tomar medidas conforme suas bandeiras para evitar mobilidade social excessiva, situação de extrema dificuldade no Estado. O Governo exige o cumprimento do que estatuto do programa prosseguir, lá não está inserido o lockdown, medidas restritivas, extremas”, disse.

Assim como indica o secretário da pasta, cada município deve avaliar as medidas estudadas pelo programa para contribuir e tratar simultaneamente diferentes áreas afetadas pela pandemia, como a situação sanitária da saúde, associada à segurança das atividades econômicas, não apenas para mitigar a doença, mas também e especialmente evitar a todo custo medidas ainda mais drásticas e restritivas, como o lockdown.

Jornal Midiamax