Cotidiano

Documentário independente registra história da Comunidade Tia Eva

Criada em 1905, a Comunidade Quilombola de São Benedito vem resistindo através da história de luta de sua fundadora, Eva Maria de Jesus. Mulher, negra, mãe, sozinha e alforriada.  Em 2019 a Comunidade completou seu 114º aniversário e junto com isso, este ano é celebrada a 100ª edição da Festa de São Benedito, o Santo […]

Ana Paula Chuva Publicado em 12/05/2019, às 15h00 - Atualizado às 16h51

Dia de gravação com Sergio Antônio da Silva mais conhecido como Sr.Michel Bisneto de Tia Eva. Foto: André Lopes
Dia de gravação com Sergio Antônio da Silva mais conhecido como Sr.Michel Bisneto de Tia Eva. Foto: André Lopes - Dia de gravação com Sergio Antônio da Silva mais conhecido como Sr.Michel Bisneto de Tia Eva. Foto: André Lopes

Criada em 1905, a Comunidade Quilombola de São Benedito vem resistindo através da história de luta de sua fundadora, Eva Maria de Jesus. Mulher, negra, mãe, sozinha e alforriada.  Em 2019 a Comunidade completou seu 114º aniversário e junto com isso, este ano é celebrada a 100ª edição da Festa de São Benedito, o Santo dos pretos e padroeiro de Tia Eva.

De forma independente, o documentário “Tia Eva” registra esta história para mostrar a força da mulher e do povo preto que mesmo em tempos sombrios, onde o racismo era mais evidente, resistiu.

Para os descendentes, Tia Eva deixou um legado de luta e fé, que devem ser relatados e registrados na história de Campo Grande, afinal a Comunidade é parte importante na Capital.

Com ajuda de amigos e pessoas que acreditam no projeto, o diretor, Caio César dos Reis, relata que a ideia de gravar o documentário surgiu em janeiro de 2018 quando resolveu pesquisar sobre a história da Comunidade. “Por curiosidade mesmo fui até lá e sai nas ruas perguntando sobre os descendentes da Tia Eva. Eu ia fazer um minidoc, coisa de uns 20 minutos só para guardar mesmo. Mas tem tanta coisa a ser falada, que a coisa cresceu e decidimos trabalhar nunca coisa maior.”, conta.

Documentário independente registra história da Comunidade Tia Eva
Caio em uma das gravações. (Foto: André Lopes)

São mais de 100 anos de historia que não podem passar em branco. “Que outra festa nós temos em Campo Grande que comemora sua 100ª edição? São cem anos de festa. Não tem porque não registrar isso. Fora os 114 anos da comunidade, que hoje luta para não cair no esquecimento”, diz.

Segundo Caio, um outro documentário foi gravado na Comunidade, mas este traz apenas as falas dos descendentes. “Já teve um outro documentário realizado lá, parece que a pessoa que fez colocou algumas de não descendentes. Estamos tendo o cuidado de pegar apenas descendentes de sangue mesmo. O intuito é que essa história pela primeira vez seja contada por eles e não pelos outros, explica.

As gravações começaram em janeiro de 2019, e a previsão é de que o documentário seja lançado até o final do ano. “Estamos finalizando as gravações, e ai todo o material vai para a ilha de edição, a previsão é de que no máximo em dezembro deste ano a gente faça o lançamento” conclui.

Ficha técnica

Além de Caio na direção, alguns amigos fazem parte da equipe, e entre os empregos e as rotinas diárias tiram um tempo para conciliar com as gravações. Na cinegrafia temos Maurício Duarte e Alessandro Segato, direção de fotografia Frederico Almeida, operação de áudio Giancarlo Marques. Na produção Gabriel Lima e como assistente de produção Lydiane Marques, André Lopes como fotógrafo de cena, já a edição e finalização ficam por conta de  Larissa Neves.

Caio conta que além do apoio fundamental dos amigos e equipe, ele conta apenas com a ajuda da produtora Vila Filmes, que cede os equipamentos para as filmagens.

Tia Eva

Mulher negra, alforriada em 1887, aos 49 anos de idade, Eva Maria de Jesus nasceu em Mineiros no estado de Goiás, e veio para o antigo estado do Mato Grosso em 1905, onde criou a Comunidade Quilombola de São Benedito.

Em 2019, Tia Eva, como é conhecida, completaria 181 anos. Mas o que ficou para seus descendentes após sua morte aos 88 anos em 1926, foi um legado de muita luta e fé.

Devota de São Benedito, o santo dos pretos, há 100 anos a Festa em homenagem ao santo começou a ser celebrada na comunidade e agora em maio de 2019, os descendentes de Eva Maria, lutam para que a história da Tia Eva e seu legado de fé não caiam no esquecimento.

Uma mulher sozinha que sonhava com uma vida melhor para seus três filhos, e

Documentário independente registra história da Comunidade Tia Eva
Busto da Tia Eva, inspirado em uma de suas filhas. Foto: André Lopes.

com 85 mil réis, em uma terra desconhecida comprou oito hectares de área e fez ali a sua vida.

Não existe nenhum registro fotográfico da Tia Eva, em frente à igreja da comunidade há apenas o busto, baseado em uma de suas filhas. E em tempos onde o racismo é tão presente, a história da Tia Eva, vem de encontro a toda discussão não só da luta do povo preto, mas ainda mais da luta de uma mulher preta, que sozinha deixou muita lições para as gerações seguintes.

Festa de São Benedito

A centésima edição da Festa de São Benedito, tem entrada gratuita e é realizada até o dia 19 de maio, este ano, e a programação conta com várias atividades esportivas, culturais e religiosas. Entre shows, torneios de futebol e missas realizadas na igreja da Comunidade Tia Eva, localizada na rua Eva Maria de Jesus, 273, Jardim Seminário.

Jornal Midiamax