Cotidiano

Alunos da UFMS que vendem alimentos para se sustentar estão com medo

Depois de uma abordagem agressiva e que acabou em briga na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), os estudantes que precisam de um extra para se manter na universidade tiveram medo de levar seus produtos nesta quinta-feira (28). Para quem estuda no período integral e mora longe da família, a venda de doces […]

Mylena Rocha Publicado em 28/03/2019, às 13h44 - Atualizado às 19h38

Nos corredores, ninguém se dispôs a vender doces ou salgados nesta quinta-feira (28). (Foto: Marcos Ermínio)
Nos corredores, ninguém se dispôs a vender doces ou salgados nesta quinta-feira (28). (Foto: Marcos Ermínio) - Nos corredores, ninguém se dispôs a vender doces ou salgados nesta quinta-feira (28). (Foto: Marcos Ermínio)

Depois de uma abordagem agressiva e que acabou em briga na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), os estudantes que precisam de um extra para se manter na universidade tiveram medo de levar seus produtos nesta quinta-feira (28). Para quem estuda no período integral e mora longe da família, a venda de doces ou salgados nos corredores é uma fonte de renda. Mesmo assim, o receio falou mais alto.

Alisson Victor, de 19 anos, é um deles. Filho de um dono de bar no interior e de uma doméstica, ele é motivo de orgulho por ingressar em uma universidade pública, apesar da dificuldade para se manter sozinho na Capital. Com o ensino integral, não há tempo para trabalhar e a venda de doces é uma alternativa para ganhar um dinheirinho e se virar. As vendas iam bem e ele conseguia tirar pelo menos R$ 50 por semana, mas nesta quarta-feira (28), preferiu deixar a caixa de doces em casa.

Alunos da UFMS que vendem alimentos para se sustentar estão com medo
Alunos tiveram medo de abordagem de seguranças. (Foto: Marcos Ermínio)

“Pelo que a gente viu nos vídeos, dá um medo né? Eu trabalho com isso também. Eu ganho bolsa, R$ 400 é uma ajuda, mas não dá para pagar aluguel e as contas. Eu tirava pouco com as vendas, mas faz falta porque agora eu tenho que dar um outro jeito de me virar, meus pais não têm muito dinheiro”, explica. Alisson conta que foi abordado na semana passada por um segurança por causa da venda dos brigadeiros, mas alega que foi tratado com respeito e não houve confusão.

A estudante Samara Ortiz, de 18 anos, começou a vender trufas e alfajores na UFMS neste ano. Ela gasta cerca de 8 horas por semana para fazer os doces e consegue vender cerca de 50 unidades, o suficiente para arcar com as despesas dos materiais exigidos para o curso. “Eu já tinha dificuldade para pagar o aluguel porque é muito caro e eu sou de fora. Agora a gente fica com medo, se não for de ser abordada, tenho medo de ser processada, como o segurança falou para o menino no vídeo”, diz.

O estudante Endrew Metzler, de 20 anos, afirma que, se tivesse talentos culinários, também venderia algo para se sustentar. Assim como Samara e Alisson, ele tem dificuldades para se manter sozinho em Campo Grande.

“É uma questão de sobrevivência, a gente acha super difícil se manter aqui. Na faculdade tem ou gente muito rica ou gente muito pobre, aí ainda não dá para trabalhar porque o ensino é integral”.

Lanche Coletivo

O comércio ambulante também é um reflexo da dificuldade dos estudantes em comprar algo para comer no intervalo das aulas. Comidas ruins ou mal preparadas, grandes filas e a distância das salas até as cantinas ou o Restaurante Universitário são algumas das reclamações.

Alunos da UFMS que vendem alimentos para se sustentar estão com medo
Ricardo e Samita contam que não há muito tempo para se alimentar. (Foto: Marcos Ermínio)

Os acadêmicos Ricardo Trinca e Samita Nunes, ambos de 19 anos, dizem que a venda de produtos por alunos é uma ajuda, já que há pouco tempo de intervalo para se alimentar. “Tem o RU e as cantinas, mas às vezes é longe e tem fila, nem todo mundo tem tempo”.

Nesta quarta-feira (27), o estudante Haricson Freitas, de 19 anos, foi assunto tanto na universidade como fora dela. Ele teve os salgados e café apreendidos pela equipe de segurança da faculdade no que parecia um comércio ambulante. Entretanto, ele explica que sabia das normas e que participa de um projeto para fornecer alimentos aos alunos.

“É um lanche coletivo, envolve os cursos de ciências sociais, psicologia e história. Funciona assim: cada um traz uma comida e sempre tem alguém cuidando para receber o dinheiro. Não é para gerar lucro, é um valor simbólico para que a gente possa continuar comprando e assim ter um alimento disponível para o bloco, que não tem uma cantina há dois anos”, explica.

Alunos da UFMS que vendem alimentos para se sustentar estão com medo
Haricson explica que fazia um lanche coletivo e sabia que os seguranças não podiam recolher os salgados. (Foto: Marcos Ermínio)

Segundo Haricson, o intervalo entre as aulas dura entre 10 e 15 minutos e, como as cantinas ficam localizadas em outro bloco, fica difícil sair, comer e voltar a tempo de responder a chamada. Assim, surgiu a ideia de reunir os cursos e assim fazer um projeto sustentável para a venda de salgados.

O estudante diz que explicou aos guardas que os salgados não eram para obter lucro e faziam parte de um lanche coletivo dos cursos, assim, eles não tinham o direito de recolher os alimentos. “Eu faço parte do conselho universitário, eu sei como são as normas. Eu sabia que ele não podia confiscar assim”.

Em nota, a UFMS respondeu que um novo processo de licitação está andamento para cantinas no campus. “Na Cidade Universitária, espera-se com a nova licitação instalar cantinas nas proximidades da Unidade 6 e dos prédios da Faculdade de Engenharias, Arquitetura e Urbanismo e Geografia (Faeng), da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (Famez) e da Secretaria Especial de Educação a Distância e Formação de Professores (Sedfor).

Jornal Midiamax