Cotidiano

Mãe de vítima de Nando enfrenta ‘calvário’ ao não conseguir dizer adeus à filha

Sem recursos para exames, Imol não devolve o corpo à mãe

Midiamax Publicado em 01/07/2017, às 11h35

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Sem recursos para exames, Imol não devolve o corpo à mãe

É necessário ir até a última rua do Jardim Noroeste, de terra batida, em meio a sítios e animais, para encontrá-la. É onde vive Matilde Farias da Silva, num ‘barraco’ que espera para se tornar uma casa de alvenaria. Diarista, ela carrega o calvário de ser a mãe de uma das vítimas de ‘Nando’, suposto autorde uma série de assassinatos no Danúbio Azul. Apenas 39 anos, duas netas para criar e a morte dupla de Aline, a filha de 22 anos que ela perdeu.

É que Matilde sofre cada dia mais um pouco mais ao não conseguir ter acesso ao corpo da filha, ‘parado’ no Imol (Instituto de Medicina e Odontologia Legal) há cerca de 8 meses. O motivo? Faltaram recursos para adquirir os produtos necessários para os exames finais da perícia.

Aline sumia, mas sempre voltava

Matilde conta que a filha começou a usar drogas com 12 anos. Enquanto relata, a mãe surpreende pelo tom de voz, uma espécie de calma resignada de quem nunca desistiu. Uma dor de quem já gastou todo o choro que tinha para sair. Matilde chegou a vender a própria casa para pagar um tratamento clínico para Aline.

“A Aline desde os 12 anos já começou a fugir de escola, não queria mais ficar em casa. E virou a cabeça. De repente ela falava que estava aqui e estava em Cuiabá. Aí ela foi presa no Pará com 20 kg e lá mandaram ela responder por isso. Chegou aqui e mentiu pra mim, disse que não precisava responder, ela tinha que ficar em casa, cumprir em casa, e ela nem se apresentar foi. Então ela estava como fugitiva né”, conta ela.

E Aline teve a primeira filha. Hoje criada por Matilde, a menina tem 9 anos. “Moro com as minhas duas netas e com o meu esposo. A mais velha é órfã de pai e mãe agora. A outra tem pai, mas é a mesma coisa como se não tivesse”.

A jovem estava sempre por aí, é como a mãe relata. Levou a filha para Cuiabá e voltou, com outro companheiro, para se abrigar na casa de Matilde. Mais um ‘jogo de erros’ que Matilde acompanhou sem ter poder de interferir.

“E trouxe esse cara, acolhi na minha casa e eu nem conhecia quem era ele. Passou até na televisão: ele começou a roubar camionete no Paraguai e começaram a mexer com droga. Ele foi preso e está preso vai fazer uns três anos. E ela praticamente já não morava mais comigo. Eu falei: ‘fica aqui em casa’”, explica Matilde.

Aline teve outra filha, hoje com 6 anos. “O conselho tutelar já tirou as meninas dela, com dois meses elas já moravam comigo e já não deixaram ela se aproximar. Mas como ela é minha filha, eu jamais falaria: ‘vai embora’. Eu falava: ‘Aline, fica com a mãe pra você ajudar a levar elas na escola, pra você me ajudar’, e ela nunca quis saber de querer ficar não”.

“Ela ficava na rua, por aí, mas ela ligava: ‘mãe, abre a porta que eu estou chegando’”.

Onde estará Aline

Sem ligações. Nem visitas inesperadas. O primeiro mês passou, o segundo mês passou, o terceiro mês passou e assim somaram-se 8 meses. Por 8 meses Matilde procurou a filha.

“De repente a menina sumiu. Nunca ninguém sabia, ninguém viu. Ou sabiam, mas várias pessoas falavam que não era para contar, e daí eu comecei a ir na Praça, na televisão. Eles me ligavam, pessoas que eu não conheço. Falavam que ela estava no Tijuca, no Talismã, mas a delegada falava: não vai, pode ser para você também”, relata.

Entre março e novembro Matilde não desistiu. Foi então que veio à tona a sequência de crimes de Luiz Alves Martins Filho, o Nando. Por anos jovens, adolescentes, a maioria mulheres, sumiam do bairro Danúbio Azul. A polícia descobriu o esquema digno de filmes de terror, em que as jovens com vícios em drogas, eram mortas, em ‘novelo’ que envolve tráfico e exploração sexual.

Foi na delegacia, em meio a outras vítimas, invisíveis, cujos restos mortais desafiam os peritos, que Matilde descobriu a filha durante a confissão de Nando. Ainda assim, “o coração”, conta ela, “já avisava”.

“O pai dela ainda pensava que ela estivesse em Cuiabá. Mas eu, no meu coração, sabia que estava morta, porque ela não é de sumir. Sempre estava ali por perto”.

Morre aos poucos quem não se despede

A marcha começa novamente, o ponteiro avança: é o ‘tempo do Estado’ brincando com a vida de Matilde. Mais 8 meses se foram na espera de poder ter acesso ao corpo da filha. Matilde procurou a defensoria pública, o Ministério Público Estadual e todas as instâncias que conhecia. Nada resolvido. Agora, a dor se transforma em revolta e Matilde quer processar o Estado por danos morais.

“Porque se ele está sem verba não é um problema meu, é um problema deles”.

Faz parte da cultura social o velório, o enterro, a conclusão. A despedida, explicam os psicanalistas, é parte do processo de luto. É esse ritual que almeja Matilde, pois conforme relatou a mãe, o sofrimento parece não ter fim.  “A gente fica esperando, porque nunca finaliza. Os restos mortais da menina estão lá. Eu vou recorrer, porque se o Estado está quebrado ou alguma coisa, eu vou ficar como? Eles só falam que estão quebrados, que não tem verba. Meu Deus e eu, como eu fico?

“É o que eu queria, finalizar. Já aconteceu, tranquila a gente não vai ficar, enfim. Ela já sofreu, a gente já sofreu, uma morte trágica, feia. Agora a gente fica sofrendo aos poucos. Fica praticamente jogado lá no Imol. Dá uma impressão que eles… como ela era dependente química, parece que eles vão deixando lá, você entendeu?”, conta.

Se o Estado é o responsável pelo conjunto social, parece falhar em proteger parte dele. É assim que conclui Maria: “Eu acho que é descaso, porque você corre atrás e todo lugar que você vai, você se sente jogada. Todo lugar que você vai as portas estão fechadas. Se fosse um parente deles [governo] lá, já tinha dado um jeito fazia era hora”.

O que diz o Estado

Procurado, o defensor público Guilherme Cambraia explicou que “em consulta ao sistema de atendimento informatizado da Defensoria Pública Estadual (SAP), há atendimentos registrados em nome da assistida MATILDE FARIAS DA SILVA nos dias 30/06/2016,m 21/07/2016 e 01/12/2016, relacionados a área de família e pedido de segunda via de documentos”.

“Em nenhum deles houve recusa de atendimento por parte da Defensoria Pública Estadual”, pontuou o defensor.

Já a Sejusp (Secretaria de justiça e segurança pública), declarou, por meio da assessoria de imprensa, que a “coordenadoria Geral de Pericias já adquiriu os insumos necessários para o andamento do trabalho de identificação dos corpos. Porém, como os produtos são importados, aconteceu uma demora que não foi prevista, mas os fornecedores estão sendo cobrados”.

OAB pode ajudar – A reportagem consultou o presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-MS (Ordem dos Advogados do Brasil Seccional Mato Grosso do Sul), Christopher Pinho Ferro Scapinelli.

Por telefone, ele explicou que Matilde pode procurar o setor de comissões na Ordem. Conforme explicou, a Comissão pode oficiar a secretaria para que tomem providências “urgentes”. Caso não seja atendida, a OAB pode ingressar com ação civil por danos morais.

Matilde mudou-se há poucos meses para o Jardim Noroeste. Na casa onde viveu com a filha, “tudo lembrava Aline”. Hoje, com depressão, a mãe e avó dorme com auxílio de remédios.

Jornal Midiamax