Cotidiano

Setembro Amarelo: famílias usam a fé para superar a dor da perda

Religiosos têm opiniões diferentes sobre o assunto

Tatiana Marin Publicado em 05/09/2016, às 21h30

None
oracao.jpg

Religiosos têm opiniões diferentes sobre o assunto

Somente quem carrega a dor, sabe o quanto ela pesa. Segundo o psiquiatra Juberti Antônio de Souza, uma pessoa que se mata, na verdade não quer morrer, mas pôr fim a seu sofrimento. Entretanto, ao tentar findar sua própria agonia, inicia-se um processo angustiante para os que ficam. Familiares e amigos próximos podem se sentir culpados e impotentes diante da situação. O que fazer? Onde buscar ajuda?

Para os religiosos ou aqueles possuem alguma crença, uma das questões mais dolorosas é supor a condição da alma de quem põe fim à própria vida. As questões religiosas sobre suicídio são um tanto divergentes, porém o consolo é certo, apegar-se à sua religião com orações, leituras de escrituras sagradas e boas lembranças faz bem tanto para quem morreu quanto para quem vive.

O que dizer de quem comete suicídio? Para o Padre Carlos Alberto Pereira, vigário da Paróquia Sagrado Coração de Jesus, é necessário ter respeito por quem toma tal decisão. “Não cabe a nós julgar, somente Deus pode julgar. Entende-se que a vítima não está nas suas faculdades mentais normais, está tão abalada que a única solução que encontra é morrer, porque não suporta a dor e o sofrimento”, explica.

O líder religioso de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, Sérgio Bauer de Borba, une-se ao coro do representante da Igreja Católica. “Não temos a capacidade de julgar a situação de quem comete suicídio. Somente Jesus Cristo sabe exatamente o que se passa na cabeça de uma pessoa que chega a este ponto”, afirma ele.

Relatos

Foi a religião que ajudou o empresário de 36 anos, Rudnei Assis Henrique. Na próxima quinta-feira (8), completará 8 anos que seu pai deu fim a própria vida. Por questões financeiras, ele estava depressivo há cerca de um ano antes de tomar a decisão e, segundo o filho, 6 meses antes dava muitos sinais de sua intenção.

“Ele falava que queria morrer e a gente falava pra ele não fazer isso, mostrava saídas, ele poderia vender propriedades e quitar as dívidas. Ele não fazia terapia, mas tomava remédios, ficava muito dopado, emagreceu bastante. Apesar de estarmos muito presentes na vida dele e tentarmos ajudar, não foi suficiente”, conta o empresário.

Quando Rudnei foi informado da morte do pai, procurou um pastor da igreja evangélica a qual pertence. “Meu pai não morreu na hora, ele foi levado com vida pra Santa Casa e tinha esperanças que ele tivesse algum momento de consciência em que pudesse falar com o pastor e pedir perdão a Deus por este ato que sei que é condenado pela Bíblia, mas ele morreu poucas horas depois”, relembra ele.

Desta experiência, Rudnei diz que aprendeu a se dedicar mais à vida e ao filho, que na época tinha 1 ano. Ele diz que não entende o ato do pai, mas o perdoa. “Nós mostramos as saídas pra ele e elas existiam, mas ele fez a escolha dele. Foi um momento muito difícil pra toda família, tivemos orientação de uma psicóloga, mas nenhum de nós quis fazer terapia em grupo, como foi sugerido. Eu escolhi me aconselhar com Deus e com a Bíblia e foi isso que me ajudou. Não recebi nenhuma indicação, mas vejo meu pai no céu e não no inferno”, declara.

Os ensinamentos dados pelos religiosos podem ser um grande consolo. Entretanto algumas opiniões são um tanto divergentes. Para o pastor da Igreja Evangélica Mensagem do Amor de Deus, Denilson Marinho da Silva, “quem nos deu a vida foi Deus e somente ele pode tirar. Nós não temos esse direito”.

A opinião do pastor está em consonância com a doutrina espírita. “Seria um insulto recusar a vida que Deus concedeu”, explica o presidente do Centro de Estudos Espíritas Chico Xavier, Ademar Vaz de Moura. Ademar declara que, de acordo com os ensinamentos espíritas, o suicídio não resolve, somente agrava o problema enfrentado e que o estado da alma no mundo espiritual é de sofrimento.

A musicista e escritora Lenilde Ramos, de 64 anos, tem uma história muito singular. Ela conta que perdeu a mãe quando tinha 7 anos, mas somente ficou sabendo de todos os fatos pelo pai depois de alguns anos. “Eu era interna do colégio Auxiliadora e só ia pra casa nos finais de semana. Como eu era amparada pelas irmãs, tive um suporte muito bom para lidar com a perda da minha mãe e também depois quando fiquei sabendo do suicídio”, relembra ela.

Apesar de ter estudado em escola católica e ter sido criada nesta religião, Lenilde conta que o pai era espírita e acabou recebendo amparos dos dois lados. Hoje ela considera-se espírita e diz que para ela “nada é por acaso. Nóś não somos um corpo que tem um espírito, somos espíritos tendo experiências terrenas. Estamos de aqui de passagem. Sei que o espírito da minha mãe já encontrou uma maneira de resolver a questão, sinto isso. O sentido da vida vai além da parte física que temos aqui. A vida continua. Tudo isso é experiência pro espírito se aprimorar e evoluir”, explica a escritora.

Oriente

A ótica budista analisa os fatos pelas causas, condições e consequências. Segundo o monge budista Mauricio Hondaku da ordem Otani, alguém que comete suicídio não é um pecador.

“Todos somos responsáveis pelos nossos próprios atos. Pela ótica budista compreendemos esta atitude como sendo resultado de uma série de causas e condições que a vida gerou. Devemos analisar o conjunto da obra e não somente o ato final”, explica o ele. Ainda segundo o monge o budismo é compreensível com o ato e não julga quem o cometeu, e faz a ressalva: “não é incentivado, é uma coisa grave! Buda dizia que a vida humana é uma das coisas mais valiosas e deve ser preservada”.

Existe esperança na redenção dos suicidas. Padre Carlos acredita que a dor e a angústia sentida pelos suicidas são agentes purificadores e afirma que Deus certamente os receberá em seu amor e misericórdia.

Apesar de dizer que negar a vida vai contra as doutrinas da Bíblia, o pastor Denilson desconhece o destino da alma dos suicidas: “Não sei dizer se vão para o céu ou para o inferno”. Mas o consenso entre os líderes cristãos é que nós não devemos julgar.

O consolo e o conforto para os que permanecem neste mundo, segundo os líderes religiosos, é a sabedoria de que o ser superior é justo e misericordioso. O espírita Irmão Moura afirma que Deus vai considerar todos os agravantes e atenuantes e é preciso ter confiança na sobrevivência da alma e no aperfeiçoamento do ser. Padre Carlos enfatiza que Deus não condena as pessoas que tiram a própria vida. Finalmente, o Santo dos Últimos Dias, Sérgio, dá esperanças: “A ressurreição é para todos”.

Jornal Midiamax