Cotidiano

Setembro Amarelo: campanha na internet oferece ‘ombro virtual’ e divide opiniões

Assunto está ganhando atenção nas redes sociais

Tatiana Marin Publicado em 08/09/2016, às 20h36

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Assunto está ganhando atenção nas redes sociais

Talvez você não saiba, mas este é o terceiro ano em que a campanha Setembro Amarelo acontece no Brasil. Mas é a primeira vez que a ação ganha as mídias sociais. Ainda relutante, sem a viralidade de outros assuntos, mas alguns tem a coragem de compartilhar postagens falando sobre a prevenção ao suicídio. Há inclusive quem se ofereça para ouvir e dar conselhos. É, sem dúvida, uma atitude louvável e altruísta, mas será que esta atitude é válida para ajudar num caso grave como este? 

Há quem critique ou não veja esse movimento com bons olhos. Nesta terça-feira (6) a fan-page Cartazes & Tirinhas LGBT fez uma postagem no Facebook reprovando o ato, porém o 'post' foi removido. O texto afirmava que uma rede de guarda deveria ser formada entre familiares e amigos próximos daqueles que sofrem de depressão e tem pensamentos suicidas. Na postagem lia-se “isso não só não vai ajudar a pessoa em nada, como pode adoecer mais gente e criar um ciclo de relatos pesados a serem disseminados em aumento. Não é psicólogo? Não recebeu treinamento do CVV? Não dê conselhos nem ofereça serviços que vc não pode fazer” (sic).

Para a psicóloga Ester Rostey, o compartilhamento deste 'meme' até pode expressar uma boa intenção, mas faz um alerta para o tipo de inteiração que existe nas mídias sociais. "Nas redes digitais há um comportamento muito comum, as pessoas compartilham as coisas de uma forma inconsequente, por impulso e isso faz parecer que você é legal, está na onda. Compartilhar esse 'meme' e propagar essa ideia de que simplesmente ouvir uma pessoa e de que você vai ajudá-la efetivamente na questão do suicídio é uma forma de banalizar um tema que é muito sério e muito delicado", explica a psicóloga.

O capelão e professor Edilson dos Reis, que é coordenador do curso de prevenção ao suicídio do HU/UFMS diz que o ato é válido pois para quem está sofrendo, às vezes não há como esperar um agendamento e desabafar pode iniciar o processo de cura. Segundo ele "em Campo Grande não temos CAPS suficientes pra atender a população, assim como não há atendimento 24 horas para crianças e jovens. Nem todos tem acesso a atendimento profissional ou conselheiro espiritual que seja". 

Setembro Amarelo: campanha na internet oferece 'ombro virtual' e divide opiniõesEntretanto o capelão adverte que o ato de disponibilizar o inbox auxilia somente quando as pessoas atuam como ouvinte. "É necessário ter formação e conhecimento para fazer intervenção ou um encaminhamento. Mas se estão querendo ouvir, já é um bom começo. Normalmente pessoas depressivas tem dificuldade de procurar ajuda, falar já é um processo terapêutico pra procurar ajuda", conclui professor Reis.

Segundo Roberto Sinai, coordenador de divulgação do GAV (Grupo Amor Vida), o antigo CVV de Campo Grande, os voluntários são treinados por 3 meses para dar atendimento aos que recorrem a esse tipo de ajuda. A psicóloga Ester diz que pessoas que expressam desejos suicidas precisam ser tratadas por quem possua treinamento e por profissionais. "O que de fato precisa ser feito é a sensibilização do suicídio. Precisamos observar as pessoas ao nosso redor e aprender a reconhecer os sinais, porque muitas vezes o suicídio acontece de baixo dos nossos olhos e não percebemos. Devemos ajudar, sim, as pessoas que estão próximas a receber ajuda efetiva e profissional. Suicídio é uma questão séria e que precisa ser tratada com a mesma seriedade", explica ela.

O capelão Reis ensina que os que estão sofrendo precisam de alguém que os ouça, de alguém em quem confiar e alguém para fazer companhia pois não querem sentir-se sozinhos. Além disso, depressivos não querem ser condenados, julgados e ignorados. "Eu vejo um processo benéfico em quem se dispõe a ouvir. É necessário quebrar o tabu de que suicídio não pode ser falado. Quanto mais aumentar a rede de pessoas aptas a ouvir a dor do doutro, menor a incidência deste mal. Uma dor não compartilhada dói mais, não podemos negligenciar as dores das pessoas", ensina ele.

Para quem deseja ajudar, segue programação de conscientização e prevenção ao suicídio.

​X Seminário de Promoção à Vida e Prevenção ao Suicídio

Nos dias 12 e 13 de setembro, segunda e terça-feira, acontecerá no Teatro Glauce Rocha, o X Seminário de Promoção à Vida e Prevenção ao Suicídio. O evento tem o propósito de criar uma rede de alternativas ao suicídio e indicar um caminho de busca de auxílio aos que estão passando por uma situação de crise, e veem o suicídio como uma única saída. Além disso, a proposta do Seminário é de desmistificar o assunto por meio de ações culturais, integrar a sociedade na prevenção, e proporcionar momentos de trocas de experiências entre as diversas instituições e profissionais que atuam na promoção à vida.

O seminário está sendo realizado pela UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), pelo HU(Hospital Universitário) e a FATHEL – Centro de Formação Humana. Podem participar profissionais de todas as áreas, acadêmicos de diversas Universidades, residentes, preceptores, tutores e docentes em saúde, religiosos e a comunidade em geral. Inscrições e mais informações no site da FATHEL. Será emitido certificado aos participantes.

Ato em Defesa da Vida

No próximo sábado (10), no Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, um Ato em Defesa da Vida será realizado no centro de Campo Grande. Mensagens serão distribuídas e haverá exposição de faixas e conscientização da população acerca da importância de falar sobre o assunto.

A ação faz parte da Campanha de Prevenção ao Suicídio Camilo Castelo Branco, promovida por espíritas de todo o país. Para o coordenador da campanha em Campo Grande, Leonardo Liziero, o objetivo é demonstrar que viver é sempre a melhor solução. “Seja qual for o motivo que leve alguém a pensar em tirar a sua própria vida, esse motivo não é maior e mais valioso que viver”, destaca Leonardo.

“Ações simples, pequenos gestos são capazes de mudar pensamentos. Por isso, precisamos falar sobre o assunto, precisamos demostrar que amamos viver. O amor é contagiante”, afirma Leonardo que convida a todos para participar da campanha de prevenção ao suicídio.

A concentração do Ato em Defesa da Vida será a partir das 10 horas da manhã de sábado, na Avenida Afonso Pena, esquina com a Rua 14 de Julho. Mais informações pelo telefone 99847-6254.

Jornal Midiamax