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Nise Yamaguchi nega ter participado de 'gabinete paralelo'; senadores apontam contradições

Agência Senado Publicado em 01/06/2021, às 18h42

A médica Nise Yamaguchi foi questionada por mais de sete horas na CPI da Pandemia
A médica Nise Yamaguchi foi questionada por mais de sete horas na CPI da Pandemia - Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado

Décima primeira pessoa a ser ouvida pela CPI da Pandemia, a oncologista e imunologista Nise Yamaguchi prestou depoimento por pouco mais de sete horas, nesta terça-feira (1), e negou várias vezes a existência de um gabinete paralelo junto ao Palácio do Planalto para formular políticas relacionadas ao combate à pandemia de covid-19. Mas os senadores de oposição estão convencidos de que havia um grupo de aconselhamento do presidente da República, Jair Bolsonaro, ditando diretrizes de atuação do governo à margem das decisões do Ministério da Saúde. 

—  Nós já temos provas e fortes evidências da participação de algumas pessoas no gabinete paralelo em circunstâncias variadas, como o vereador Carlos Bolsonaro, o deputado Osmar Terra, o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub, o médico Luciano Azevedo, o empresário Carlos Wizard e a senhora também — afirmou o relator, senador Renan Calheiros (MDB-AL), depois de buscar de uma confissão da médica. 

O senador Rogério Carvalho (PT-SE) chegou a apresentar um organograma do gabinete paralelo, composto, segundo ele, por núcleos teórico, operacional e de comunicação do chamado "gabinete de ódio". 

— É uma pena um país com a academia que nós temos, com as universidades e a potência em saúde pública que nós representamos para o mundo estar passando por um vexame deste. O Brasil já foi uma potência em saúde pública — afirmou. 

Nise Yamaguchi disse ser uma "colaboradora eventual" de qualquer governo que precise dela, inclusive de outros países, como Chile, México, Áustria e Canadá, e garantiu não ter partido político e não ter conflito de interesses.

—  Desconheço gabinete paralelo, sou uma colaboradora eventual. Participo como médica, cientista, em comissões técnicas, reuniões governamentais, com setores específicos; trabalho com regulamentações, sempre contribuí com todos. Entendo que o governo é um só e minhas conversas com parte técnica do Ministério da Saúde sobre dosagens da cloroquina foram feitas dentro de ambiente técnico. Na realidade sempre fui bem recebida por todos os governos com os quais colaborei cientificamente — afirmou.

"Aconselhamento informal"

O primeiro a registrar uma espécie de aconselhamento paralelo ao presidente Bolsonaro foi o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, o que despertou o interesse de senadores da CPI para investigar o tema.

A senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) duvidou da versão da médica e lembrou que ela atuou de forma voluntária e informal junto ao governo federal. 

— A senhora era uma voluntária. Formalmente não tinha nenhuma função, dava aconselhamento informal, e isso não é orientação paralela? Nenhuma política pública do governo pode ser feita sem sustentação de entidades científicas. E todas elas nos últimos meses baniram a aplicação deste medicamento [cloroquina]. Essas entidades não poderiam ser levadas em consideração? — indagou. 

Perguntada pelo senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) sobre o relacionamento dela com o empresário Carlos Wizard, a especialista disse que o contato dos dois se limitou à criação de "uma conselho consultivo independente", sem vínculo oficial com o Ministério da Saúde.

— A gente queria oferecer o conhecimento de uma forma organizada, sem que houvesse um vínculo oficial. E o que teve foi um conselho consultivo independente. Aliás, várias pessoas acabaram não ficando, porque, antes de ele começar, acabou havendo uma perseguição tão grande da mídia que a gente acabou dissolvendo o grupo — explicou. 

Rebanho

Nise Yamaguchi também foi muito questionada sobre a chamada imunidade de rebanho por meio da própria disseminação do vírus. O relator Renan Calheiros exibiu um vídeo do ano passado em que a médica falava do tema e quis saber se ela mantinha a defesa da tese. A imunologista disse que a imunidade é um fato, mas pode ocorrer de várias formas e não significa mandar as pessoas indiscriminadamente para as ruas a fim de se contaminarem. 

— É preciso deixar claro que as opiniões são circunstanciais. Neste momento a imunidade deve ser alcançada pelas vacinas. Naquela época, em junho do ano passado, a realidade era diferente, imaginávamos que uma segunda onda viria com o mesmo vírus. Se viessem com os mesmos vírus, nós teríamos, sim, uma imunidade. Naquele momento a discussão do assunto era pertinente. A própria Organização Mundial da Saúde não sabia se deveria fazer lockdowns absolutos ou horizontais — esclareceu. 

Contradições

Nise Yamaguchi declarou ainda que nunca discutiu o tema com Jair Bolsonaro. Com o presidente, ela disse ter estado "umas quatro ou cinco vezes", sempre na presença de mais pessoas. Imediatamente o relator rebateu dizendo que um grupo de checagem que auxilia a CPI levantou que ela esteve ao menos uma vez com o presidente a sós, em 15 de maio do ano passado. A oncologista disse, então, não se lembrar dos episódios.  

A profissional de saúde também foi corrigida pelo senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), que desmentiu a informação passada por ela de que o Amapá apresenta uma das menores taxas de mortalidade do mundo, justamente por ter apostado no tratamento precoce. 

— Gostaria que fosse verdade, mas proporcionalmente, o Amapá não é um dos estados em que menos se morre por covid-19 em nosso país e muito menos no planeta. Os dados apontam que, por 100 mil habitantes, nossa taxa de mortalidade é de 121,1 pessoas. Aliás, é uma taxa de mortalidade muito ruim, que assemelhava-se, em janeiro deste ano, à mesma taxa de mortalidade do Peru, 123,3, que é o quarto país [com mais mortes]por covid-19. 

Ao ser perguntada pelo senador Alessandro Vieira (Cidanania-SE) por estudos científicos qualificados, que tenham sido publicados a respeito da eficiência da hidroxicloroquina, ela mencionou pesquisa da Fundação Henry Ford, nos Estados Unidos, e foi novamente contestada. Segundo ele, o trabalho foi descontinuado pelo própria entidade, por não ter apresentado resultado que indicasse proveito no uso do medicamento.

—  Ainda tenho a expectativa de que a senhora, em algum momento, consiga fazer a volta e recuperar a credibilidade que merece pelo seu histórico, mas continuo dizendo: é inaceitável um profissional de alta qualidade rejeitar estudos técnicos de entidades qualificadas e tentar valorizar ou divulgar estudos que foram encerrados, como é o caso deste da Henry Ford. A senhora sabe que esse estudo foi descontinuado porque ele não gerou os resultados que a está dizendo? — indagou. 

A médica admitiu que não tinha tal informação. 

Próximos passos

Com o início da sessão do Congresso Nacional, o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), encerrou a reunião. A CPI da Pandemia volta a se encontrar às 9h30 desta quarta-feira (2) para ouvir a médica infectologista Luana Araújo. No início de maio, o nome dela chegou a ser anunciado pelo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, para o cargo de secretária extraordinária de Enfrentamento à Covid-19, mas a nomeação foi cancelada  dias depois.

Jornal Midiamax