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Médico de Kalil diz não ser possível concluir que cloroquina o curou do Covid-19

Um dos médicos da equipe do cardiologista Roberto Kalil Filho, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, disse em entrevista à Folha de S.Paulo, que não é possível concluir se foi o tratamento com hidroxicloroquina que o curou da doença causada por coronavírus. Professor da Universidade de São Paulo (USP), Carlos Carvalho, afirmou à Folha que […]

Matheus Maderal Publicado em 09/04/2020, às 08h38

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Um dos médicos da equipe do cardiologista Roberto Kalil Filho, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, disse em entrevista à Folha de S.Paulo, que não é possível concluir se foi o tratamento com hidroxicloroquina que o curou da doença causada por coronavírus.

Professor da Universidade de São Paulo (USP), Carlos Carvalho, afirmou à Folha que além da chamada cloroquina, Kalil teria tomado vários outros remédios para conter os efeitos da infecção e, por isso, não é possível concluir se foi a cloroquina, de fato, que o salvou. “Cientificamente, estou certo de que ainda não há estudos que comprovem a eficácia da cloroquina contra o coronavírus”, disse Carvalho.

“Eu mesmo tive coronavírus, tomei Novalgina e outros remédios e estou curado. Vou dizer que a Novalgina cura coronavírus?”, acrescentou. Vale lembrar que muitos portadores do coronavírus são assintomáticos e podem se “curar” do vírus sem tomar medicamento algum.

O caso de Kalil ficou famoso após o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) ter citado o doutor como um caso de sucesso de tratamento com cloroquina. O presidente tem insistido no uso do polêmico medicamento para tratar pacientes com coronavírus, mas vários membros da comunidade cientifica internacional afirmam que os efeitos colaterais da cloroquina são muito intensos e que não há estudos que comprovem sua eficácia contra o novo covid-19.

Além disso, o medicamento é usado no tratamento de doenças graves, como malária e lúpus e há a preocupação de que se acabem os estoques do remédio para quem realmente precisa, em meio à pandemia de coronavírus.

Na semana passada, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou, após uma reunião com Bolsonaro, que foi pressionado por dois médicos a editar um protocolo de hicroxicloroquina para tratamento do novo coronavírus no Brasil por meio de decreto. Mandetta disse que recusou por falta de embasamento científico e recomendou que os profissionais procurassem o secretário de Ciência e Tecnologia da pasta, Denizar Vianna.

De lá pra cá, cogitou-se o desligamento de Mandetta do governo, devido às divergências entre o ministro e a retórica de Jair Bolsonaro contra o isolamento para conter os avanços da pandemia. Após muita especulação sobre possíveis substitutos e uma insistente propaganda de Bolsonaro pelo uso de cloroquina, Mandetta mudou o tom e passou a recomendar, nesta semana, o medicamento – inclusive para casos moderados de coronavírus.

O debate sobre o uso de cloroquina levou o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, a proibir a exportação do produto. A Índia é um dos maiores produtores de medicamentos do mundo. O governo afirma ter suspendido a exportação porque muitos países estavam estocando a cloroquina diante da pandemia de coronavírus, podendo deixar muitas pessoas que precisam sem o medicamento.

Como resultado, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump – que também é um defensor da cloroquina – disse que imporia sanções à Índia, caso a proibição de exportação não fosse suspensa. Na imprensa americana, discute-se o interesse de Trump na liberação da cloroquina, uma vez que assessores próximos ao presidente são acionistas da companhia que fabrica o medicamento, a francesa Sanofi.

Jornal Midiamax