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Editorial da ‘Charlie’ faz humor com jihadistas, virgens e mártires

A primeira edição da revista após o ataque da redação se esgotou em minutos.

Clayton Neves Publicado em 14/01/2015, às 17h29

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A primeira edição da revista após o ataque da redação se esgotou em minutos.

A primeira edição da revista “Charlie Hebdo” publicada depois dos ataques a tiros de militantes islâmicos se esgotou em minutos nas bancas de jornais de toda a França nesta quarta-feira (14), com pessoas fazendo fila para comprar exemplares em apoio ao semanário satírico. Uma tiragem de cerca de três milhões de cópias foi programada para o que vem sendo chamado de “edição dos sobreviventes”, superando em muito os habituais 60.000 exemplares. Mas, ainda assim, em muitas bancas o jornal se esgotou rapidamente.

A edição desta quarta-feira mostra uma caricatura de um Maomé choroso segurando um cartaz com os dizeres “Je suis Charlie” (Eu sou Charlie) sob a manchete: “Tout est pardonné” (Tudo está perdoado). “Eu escrevi ‘tudo está perdoado’ e chorei”, contou Renald “Luz” Luzier, que criou a imagem, em entrevista coletiva na terça-feira (13). “Esta é a nossa capa… não é o que os terroristas queriam que desenhássemos.” “Eu não estou preocupado de modo algum… Confio na inteligência das pessoas, na inteligência de humor”, afirmou ele.

Dentro da edição, vê-se o humor irreverente habitual do semanário. Uma das tiras mostra jihadistas dizendo: “Não deveríamos tocar no pessoal do Charlie… caso contrário, eles vão ser vistos como mártires e, uma vez no céu, esses bastardos vão roubar nossas virgens”.

“O que nos faz mais rir é que os sinos de Notre-Dame tocaram em nossa homenagem”, diz o editorial do semanário, que surgiu do movimento de libertação de 1968 e há muito zomba de todas as religiões e dos pilares do poder.

Toda a receita da venda da edição desta semana irá diretamente para a “Charlie Hebdo, o que dará novo fôlego para uma publicação que vinha lutando com dificuldades financeiras. O preço de capa era de 3 euros (4 dólares). Um pedido de doações também foi ao ar na mídia nacional.

Fila para comprar

Em uma banca no leste de Paris, filas se formavam numa manhã ainda escura diante de uma banca normalmente tranquila até que as pessoas chegassem mais perto e pudessem ver um cartaz dizendo “Charlie Hebdo: esgotado”.

O vendedor da banca disse que esperava obter mais cópias na quinta-feira, mas se recusava a fazer reservas.

Versões digitais serão publicadas em inglês, espanhol e árabe, e haverá também edições impressas em italiano e turco.

“Eu nunca comprei antes, não é bem minha linha política, mas é importante para mim comprá-lo hoje e apoiar a liberdade de expressão”, disse David Sullo, aguardando no final de uma fila de duas dezenas de pessoas em um quiosque no centro de Paris.

“Para mim, é importante comprar e mostrar solidariedade dessa maneira, e não apenas com a presença na marcha”, disse Laurent, de 42 anos, na mesma fila, acrescentando que não estava certo de que conseguiria um exemplar porque não havia reservado um dia antes.

A poucos quarteirões de distância, ao lado da estação de metro Jules Joffrin, no norte de Paris, uma vendedora disse que as pessoas já estavam esperando do lado de fora de sua banca quando ela abriu às 6h (3h em Brasília). “Eu tinha 10 exemplares. Foram vendidos imediatamente”, disse ela.

O quiosque na estação de trem Gare du Nord informou ter aberto às 5h15 local em vez do horário habitual, às 6h, e suas 200 cópias se esgotaram em menos de 15 minutos.

No entanto, o grão mufti do Egito alertou o jornal contra a publicação de uma nova caricatura de Maomé, dizendo que era um ato racista que iria incitar ao ódio e aborrecer os muçulmanos em todo o mundo.

Dezessete pessoas morreram em Paris em três dias de violência que começaram com o ataque de dois homens islâmicos armados contra a redação do Charlie Hebdo no dia 7 –no qual 12 pessoas foram mortas– e terminaram com um cerco em um supermercado kosher dois dias depois.

Pelo menos 3,7 milhões de pessoas participaram de uma marcha em Paris e outras cidades da França neste domingo para honrar a memória das vítimas, entre as quais jornalistas, policiais e clientes do supermercado.

Jornal Midiamax