Política / Transparência

Gráfica levou R$ 37,4 milhões do Governo com livros que ficaram guardados

Até obra de Procuradora de Justiça foi comprada

Evelin Cáceres Publicado em 11/05/2017, às 12h24

None

Até obra de Procuradora de Justiça foi comprada

Uma única empresa, a Gráfica Alvorada, recebeu R$ 37.419.390,36 entre 2012 a 2014, dois últimos anos de André Puccinelli (PMDB) como governador de Mato Grosso do Sul. O valor corresponde a 67,3% dos R$ 55 milhões gastos, ao todo, com livros didáticos naqueles anos, segundo relatórios da Polícia Federal.Gráfica levou R$ 37,4 milhões do Governo com livros que ficaram guardados

Entre os livros comprados estão obras como “Caco” e “Caco – Orientações Didáticas”, “Tosco” e “Compreendendo o Tosco”, de Gilberto Mattje; “Cada um é do seu jeito, cada jeito é de um”, de Lucimar Rosa Dias, e três livros da procuradora de Justiça Ariadne Cantú, do MPE-MS (Ministério Público Estadual de Mato Grosso do Sul), “O barato das baratas”, “O barato das baratas – Orientações Didáticas e “Mãos ao alto! Passa o boné”.

Boa parte do material didático ficou só nas prateleiras das escolas, como comprovou o Ministério da Transparência (Controladoria-Geral da União). Na Escola Estadual Padre José Scampini, no Coophavilla II, onde estudam cerca de 1,3 mil alunos do ensino médio e outros 400 de ensina fundamental, foram entregues quase três vezes mais exemplares que o número de estudantes, por exemplo.

De acordo com as investigações, existe suspeita de que o contrato celebrado pelo governo peemdebista com a gráfica, com inexigibilidade de licitação, tenha sido fonte de propina.

Os repasses para a Gráfica cresceram vertiginosamente e sem explicação, segundo os relatórios de investigação. Em 2012, foram pagos R$ 6.032.345,90 à Alvorada; em 2013, R$ 9.553.520,00 e em 2014, R$ 21.419.390,36.

Somente no último mês da gestão de André Puccinelli, a Gráfica Alvorada recebeu R$ 11,2 milhões, sendo que metade deste valor, R$ 5,5 milhões, foi pago no dia 30 de dezembro de 2014, ou seja, um dia antes do ex-governador deixar a administração estadual.

Como se não bastasse o vultuoso montante, de acordo com os autos, ‘a investigação apurou forte suspeita de fraude nos contratos do governo do Estado com a Gráfica Alvorada, de propriedade de Mirched Jafar Junior, a ponto de o governador André Puccinelli autorizar no última dia de seu mandato (31/12/2014) o pagamento de R$ 13 milhões àquela empresa’, diz trecho do relatório da PF.

Nesta quinta-feira (11), foram presos preventivamente o ex-secretário adjunto de Fazenda de Mato Grosso do Sul, André Cance Júnior, o dono da Gráfica Alvorada, Mirched Jafar Júnior, e o ex-assessor de André Puccinelli, Mauro Cavalli, na quarta fase da Operação Lama Asfáltica, Máquinas de Lama.

“Alvorecer”

Pouco foi comentado por André Puccinelli ao telefone durante os anos de investigação dos órgãos. Mas um diálogo deixa claro, para a Polícia, a intenção do ex-governador. Durante a Operação Lama Asfáltica, o juiz federal Dalton Igor Kita Conrado ressaltou que Puccinelli foi citado por duas interceptações onde o secretário adjunto da Fazenda, André Luiz Cance, falava sobre a “alvorada e alvorecer”, que seria,segundo a Polícia Federal, referente a contrato com a Gráfica Alvorada, firmado no final da gestão dele.

Apesar das viagens no avião de Amorim e das doações de campanha, ainda não foi autorizada a prisão, nem a apreensão de documentos na residência do ex-governador. “Os indícios não são suficientes para busca e apreensão”, alegou o juiz à época.

Doações

Doadora de campanha, a empresa de Mirched repassou em 2010 R$ 15 mil ao candidato a deputado federal Roberto Hashioka (PMDB) e em 2012, R$ 5,2 mil ao candidato a prefeito de Corumbá Paulo Duarte (PT). Em 2014, doou R$ 36 mil a 15 candidatos a deputados estaduais.

Também em 2012, a Gráfica Alvorada doou R$ 109 mil ao candidato a prefeito Edson Giroto (PMDB). A maior doação de campanha foi feita ao candidato peemedebista, com quem Jafar aparece conversando em ligações gravadas pela PF durante a Operação Vintém.

Na época, eles foram apontados pela PF como parte de uma operação para montar um falso flagrante de compra de votos para Semy Ferraz. Entre os gravados estão André Puccinelli Júnior, Edson Giroto, Mirched Jafar e Edmilson Rosa, conhecido por Rosinha.

Jornal Midiamax