Política

Aliança do PT com Ciro Gomes para presidente é possível, diz Rui Falcão

Ciro já é pré-candidato pelo PDT

Aliny Mary Dias Publicado em 01/06/2017, às 19h13

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Ciro já é pré-candidato pelo PDT

Presidente do PT há seis anos e que deixará o partido assim que o novo líder for escolhido em congresso da legenda, Rui Falcão disse em entrevista ao site UOL que existe a possibilidade de aliança do PT com Ciro Gomes, pré-candidato pelo PDT, para as eleições presidenciais do ano que vem.

Confira abaixo parte da entrevista:

UOL – O PT disse que o impeachment de Dilma Rousseff era uma violação à Constituição e o classificou como golpe. Agora, defende alterar essa mesma Constituição para convocar eleições diretas. Isso não seria uma incoerência? Um golpe?

Rui Falcão – Não. A Constituição já foi emendada várias vezes, inclusive para pior. Porque o Fernando Henrique Cardoso emendou a constituição para introduzir a reeleição, para acabar com o monopólio estatal da Petrobras e a pior mais recente é a 95 que congela o orçamento por 20 anos. A Constituição prevê a sua mudança.  Não tem golpe nenhum em propor isso quando o país está mergulhado na corrupção, afunda na recessão e o desemprego atinge 14 milhões [de pessoas]. É absolutamente legítimo querer solucionar a crise ouvindo o povo.

Convocar eleições presidenciais neste contexto não paralisaria o país ainda mais?

Mas o país já está parado. A população vislumbra uma saída diferente. Um governo com legitimidade, não um governo usurpador. A única saída que a gente vê para começar a resolver os problemas do país são as eleições diretas. Há muitas propostas tramitando no Congresso Nacional que preveem as eleições diretas, mas a condição para que alguma delas se concretize é a saída do Temer, seja por renúncia, impeachment ou pelo julgamento do TSE. Se não for assim, aí é deposição. E aí, sim, seria golpe.

Como é que o sr. avalia as críticas de que esse posicionamento firme do PT em favor das eleições diretas seria, na realidade, uma tentativa de blindar o ex-presidente Lula?

Não tem nenhuma blindagem. Ele depôs um mês atrás. Os processos injustos, sem provas, continuam. E as eleições não blindam o Lula de nada. Os processos vão continuar. E nós nem estamos dizendo que ele é candidato.

Mas é o PT que anuncia o Lula como o único plano do partido para eleições diretas…

Nós iniciamos agora uma frente parlamentar pró-diretas, com PSB, PCdoB, PSOL, PT e a Rede ficou de analisar. Uma das coisas que nós falamos lá é: é um movimento interpartidário por diretas contra as reformas e não tem candidato. Ninguém está discutindo candidatura nessa fase. É tudo precipitado. Não tem eleição ainda. E mais importante que definir o nome do Lula [como candidato] é impedir que ele seja interditado. Seria antidemocrático você proibir, por meio de uma condenação, que ele seja candidato.

Considerando que a Operação Lava Jato hoje investiga o presidente Michel Temer e o ex-presidente nacional do PSDB (Aécio Neves), ainda há argumento para dizer que a operação é politicamente direcionada?

Estou dizendo que ela é bastante direcionada e continua a privilegiar as coisas que envolvem o PT. Se pegar a manchete do UOL, você vai ver. A Lava Jato se estendeu a São Paulo para investigar a campanha do [Fernando] Haddad na véspera do congresso do PT. Como sempre acontece. A Lava Jato saiu de uma fase seletiva e exclusiva para uma fase mais generalizada, mas em que o PT continua sendo priorizado. E, mais que direcionada ou não, a Lava Jato é uma operação que vem violando direitos e garantias constitucionais. Quase não tem habeas corpus, inverteram o ônus da prova, [ainda tem] as prisões provisórias continuadas e excessivas como disse o [ministro do STF] Gilmar Mendes, e a ideia de que provas ilegais podem ser validadas.

Na sua avaliação a Lava Jato tem mais erros que acertos?

Sim. Os mecanismos de apuração da corrupção, que são um fato positivo do país, nada disso foi criado pela Lava Jato. O combate à corrupção, que é uma coisa saudável, não decorre da Lava Jato. E mais, no curso dessas operações todas, o que está acontecendo é que os corruptores fazem acordo, ficam com boa parte do  dinheiro e vão passear por aí no exterior. Então a corrupção continua. Estão isentando os corruptores e condenando alguns corruptos, além de condenar pessoas inocentes sem provas.

O PT vai apoiar o chamado acordão para anistiar a prática de caixa 2?

Eu desconheço esse tipo de acordo. O que me parece complicado é que todas as doações legais, que nós recebemos e registramos e resultaram na aprovação das nossas contas, agora são consideradas suspeitas porque alguém disse que aquela doação registrada é resultado de propina. Como é que o PT ou qualquer outro partido recebe uma doação, declara, e depois tudo isso é considerado propina? Você acha que o cara fala para você: “Olha…isso aqui é propina, tá?”. O problema não está em legalizar ou não legalizar o caixa 2, mas em barrar essa tentativa de criminalizar as doações legais. Como é que prova que uma doação legal é propina? Só porque alguém disse que é?

Mas é justamente isso o que as investigações sustentam. Que o chamado petrolão aperfeiçoou o sistema de pagamento de propina transformando tudo em doação legal.

Mas como é que eu fico sabendo disso? Uma empresa doou para mim e eu recebi e declarei. Como vou saber que é propina? Se o agente dessa doação fez algum ato de corrupção, eu não posso ser culpabilizado por isso.

Vocês temem a delação de Antonio Palocci?

Primeiro, eu não sei se efetivamente ele estaria fazendo isso. O que eu vi é que ele fez uma declaração agora sobre compra do Banco Panamericano, envolvimento do BTG. Agora, não posso opinar sobre uma coisa que eu não conheço.

Mas, conhecendo o Palocci como o sr. conhece, uma delação dele decepcionaria o PT?

Ele foi ministro e tal. E não creio que ele tenha a dizer algo que possa comprometer o PT.

Vocês acreditam que uma eventual delação do Palocci possa causar um efeito dominó em relação a pessoas como João Vaccari Neto (ex-tesoureiro do PT), que também está preso?

O Vaccari está lá há praticamente dois anos. Não apareceu nenhuma prova material em relação às condenações. Ele já foi condenado injustamente e o advogado dele está com um pedido de habeas corpus tramitando no Supremo porque não faz sentido que ele ainda esteja preso. Ele não foi condenado em segunda instância e poderia estar solto ainda que com restrições, com o José Dirceu. Não se entende o motivo dessa prisão tão prolongada. Mas eu entendo. É porque ele ainda não falou nada. No caso dele, é mais uma prova, um indício de que as prisões prolongadas servem como coação para provocar delações.

O governo Temer criou um ministério para Moreira Franco e estuda reeditar uma MP, garantindo a ele o foro privilegiado. Em meio à revelação de que aliados faziam pressão pela troca do ministro da Justiça, o governo acabou mudando o comando do ministério. Mesmo assim, a reação nas ruas foi praticamente nula. Por que o senhor acha que a reação popular a essas medidas foi tão diferente daquela de quando Lula foi nomeado ministro do governo Dilma?

Porque tem uma mídia direcionada para isso.

Mas essa “culpa” seria só da mídia? As gravações envolvendo Temer foram amplamente divulgadas em todo o país por praticamente toda a mídia…

Passa também por setores do Judiciário… mas tem o que o Lula diz: foram 20 horas de “Jornal Nacional” contra ele em um ano. As coisas envolvendo o Temer e o Aécio saíram, mas de forma muito menos contínua, até porque a mídia, neste momento, está dividida. No caso da Dilma havia um movimento organizado, de entidades de classe, mobilizando para que ela caísse. Quase todas as grandes corporações se mobilizaram para derrubar a Dilma.

Por outro lado, as centrais sindicais de todo o país também se mobilizaram recentemente para protestar contra o presidente Temer. Mas olha a diferença entre o poderio de Fiesp, CNI, CNA. As centrais não têm dinheiro a rodo para ficar comprando gente. Entre os nomes mais cotados para uma disputa em 2018, João Doria e Jair Bolsonaro surgem como os candidatos “anti-Lula”. Qual dos dois preocupa mais o PT?

Não temos preocupação com candidato. Em eleições democráticas, todo mundo pode se apresentar como candidato. O que nos preocupa em relação ao Bolsonaro é que ele defende ideias como a volta dos militares, o sexismo e o racismo, como já ficou demonstrado em vários pronunciamentos dele. Isso é ruim para o país. O Doria, por outro lado, é um farsante. Fala que não é político, que não é gestor, mas nenhum prefeito deixa de ser político. É uma concepção de política que não é legal para o país. A pessoa fica encobrindo sua condição política. E tem atitudes condenáveis como essa política higienista na cracolândia. Vocês são muito orgulhosos de dizer que o PT seria o único partido orgânico e de militância do país.

O PT está aberto a fazer uma composição com Ciro Gomes?

Num processo eleitoral democrático, você terá que apresentar um programa para o país. Inclusive o Lula terá que fazer isso. Os anos de 2017 ou 2018 não são 2003. O contexto é outro. Fomos vitimados por um golpe. Tem outras circunstâncias. Vamos ter que apresentar propostas para o futuro, mas revogando os entulhos aprovados no governo Temer. Isso precisa ser partilhado com outras forças e é nesse contexto que você vai discutir quem são suas alianças. Nesse contexto, uma pessoa como o Ciro pode compor uma aliança conosco.

Jornal Midiamax