Política

E-mail que sugere proximidade entre Lula e Odebrecht cita Puccinelli

Ex-governador teria emprestado avião para agilizar reunião

Jessica Benitez Publicado em 19/01/2016, às 21h48

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Ex-governador teria emprestado avião para agilizar reunião

Troca de e-mails entre o empresário Marcelo Bahia Odebrecht, dono da empreiteira que carrega seu nome, revelou proximidade entre ele, o ex-presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-governador de Mato Grosso do Sul André Puccinelli (PMDB), supostamente para tirar do papel o famigerado Pólo Gás Químico que ligaria o Estado à Bolívia.

Tanto que em mensagem eletrônica de Marcelo, preso desde 19 de junho pela Operação Lava Jato, a um grupo de executivos em 2009, ele conta conversa que teve com Lula durante agenda em Corumbá, sendo que na mesa de reunião também estavam o presidente da Bolívia Evo Morales, bem como Puccinelli. As informações são da Agência Estado.

O interesse aparente do empreiteiro era nos negócios do grupo no setor petroquímico boliviano. "Acabei tendo oportunidade de conversar com Lula e Chaves enquanto estavam na sobremesa. (Andre, Gov. do MS estava ao lado)", escreveu Odebrecht em mensagem de 15 de janeiro de 2009 data em que ocorreu a agenda confundindo Evo com Hugo Chavez então presidente venezuelano, morto em 2013. 

No mesmo dia Lula esteve na Bolívia para ato inaugural de trechos da pavimentação asfáltica da rodovia, conhecida como rota interoceânica. Na conversa com seus executivos, Odebrecht apontou interesse no Pólo Gás Químico que uniria unidades do setor petroquímico em terras bolivianas e brasileiras.

Isso porque a empreiteira é acionista majoritária, junto com a Petrobras, da Braskem (que se tornou a maior petroquímica da América Latina) e tinha interesses no negócio.

"Lula insistiu com Evo a questão do Polo Petroq. Evo chamou o Ministro de Hidrocarburos e foi combinado uma apresentação por parte da Braskem", seguiu contando no e-mail. A empresa tem como sócios majoritários a Odebrecht e a Petrobras. Puccinelli foi citado porque, como governador do Estado, poderia auxiliar e acelerar o processo.

"Na minha opinião este projeto não é (ou era) 'top of the mind' de Evo e equipe", explica. "O governador Andre e o Prof Marco Aurélio pediu para serem acionados para empurrar/ajudar". Para Polícia Federal "Prof Marco Aurélio" é o assessor especial da Presidência, Marco Aurélio Garcia.

A PF investiga a atuação de políticos em defesa dos interesses da Odebrecht sob acusação de ser uma das líderes do cartel que fatiava obras na Petrobras, mediante o pagamento de propinas de 1% a 3% dos contratos da estatal para agentes públicos e políticos.

Ainda conforme a mensagem, Puccinelli teria supostamente conversado com a chefe da Casa Civil, hoje presidente da República Dilma Rousseff (PT). "Alex ficou de fazer a ponta com o Governador André (que quer estar com a Dilma logo para falar deste projeto) e Gustavo Assad ficou de fazer a ponte com o Ministro com que já se alinhou na hora”.

Mais planos – Lula ainda teria pedido, em nome de Evo, atenção ao projeto de açúcar e álcool no norte de Santa Cruz de la Sierra. Puccinelli disponibilizaria avião para que a agenda fosse concretizada.

"JCG: Gustavo Assad (executivo da Odebrecht) ficou de fazer a ponte com o Ministro (que também foi convocado por Evo na hora para a conversa) e marcar uma visita as nossas plantas no MS e dai evoluir", explica o empresário. A sigla "JCG", para a PF, é a sigla de João Carlos Grubisich, ex-presidente da Braskem copiado no e-mail.

Ao Jornal Midiamax a assessoria do ex-governador do Estado ratificou explicação emitida ao Estadão e ressaltou que o peemedebista não falará mais sobre o assunto. Ao diário ele disse que não tratou, no evento "de qualquer assunto de interesse da Odebrecht. Convidado, acompanhei o presidente Lula nas solenidades que tinham relação com a Rota Bioceânica".

Passado – O plano já havia sido citado em outra mensagem na rede de computadores. Desta vez em 2008 que o preso contou aos associados sobre a tentativa de buscar em Lula apoio para os negócios da empresa na Bolívia, com o projeto do polo, bem como na Argentina e no Peru.

Prática – Em outubro de 2010, o vice-presidente da Braskem para a área internacional, Roberto Ramos, retomou as negociações para implementar o Pólo Gás Químico, avaliado em US$ 3 bilhões. A construção do polo era uma das principais reivindicações feitas pelo então prefeito de Corumbá, Ruiter Cunha de Oliveira, à época do PT hoje do PSDB.

Tanto que no encontro de 2009 entregou na Carta dos Municípios da Fronteira Pantaneira para Lula e Evo destacando a oportunidade, que "a integração com a Bolívia é fundamental para nós". O estudo para implementação começou em 2001.

O pólo seria formado por três indústrias, uma separadora de gás que vai extrair o GLP (gás de cozinha), uma transformadora (Cracker), que é responsável pela transformação do etano em eteno, matéria-prima para terceira indústria que é a polimerização. Todos esses empreendimentos serão licenciados juntos e o processo deve demorar cerca de 2 anos.

Os produtos gerados seriam gás de cozinha, polietileno – que é a matéria-prima da indústria do plástico – e amônia para produção de fertilizantes. Inicialmente o polietileno seria consumido por São Paulo (75%), exportação (15%), Bolívia (8%) e Mato Grosso do Sul (2%). (Com informações da Agência Estado)

Jornal Midiamax