Polícia

Pandemia atrapalha mulheres que sofrem violência na hora de pedir ajuda, diz delegada

Titular da Deam afirma que mulheres vítimas de violência estão mais tempo com os agressores; denúncias podem ser feitas por canais virtuais

Humberto Marques Publicado em 07/06/2020, às 08h03 - Atualizado às 10h01

 (Foto: Arquivo/Midiamax)
(Foto: Arquivo/Midiamax) - (Foto: Arquivo/Midiamax)

A pandemia de coronavírus se tornou mais um obstáculo para que mulheres vítimas de violência busquem ajuda da Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher) de Campo Grande. Isso porque, com as cobranças de isolamento social, a convivência entre agressor e vítima foi intensificada em um ano no qual já foram registrados 16 feminicídios no Estado.

A informação partiu da delegada Fernanda Félix, titular da Deam e palestrante convidada do workshop virtual “Violência contra a mulher em tempos de pandemia”, realizado na sexta-feira (4) e que reuniu especialistas do setor e vítimas para a troca de experiências sobre o tema. O evento foi organizado pelo CED-MS (Conselho Estadual dos Direitos da Mulher de Mato Grosso do Sul”.

“Sabemos que os casos de violência doméstica têm aumentado, mas a busca por ajuda tem sido menor pelo fato de as mulheres estarem em casa com um contato maior com o agressor”, afirmou a delegada da Deam.

A fim de tentar superar a dificuldade para denúncias, foram criados neste ano o site http://www.naosecale.ms.gov.br, que recebe denúncias virtuais sobre violência contra a mulher, e instituída a mesma funcionalidade o aplicativo MS Digital –que reúne uma série de serviços online do Governo do Estado e pode ser baixado no Google Play e na App Store.

Luciana Azambuja, subsecretária de Políticas Públicas para a Mulher, destacou que as medidas foram criadas como forma de dar atenção à mulher “que está constantemente com o agressor neste tempo de pandemia”. “O silêncio mata. Não se cale, procure ajuda”, prosseguiu ela.

“Com o isolamento social, as mulheres vítimas de violência estão com sua rede de apoio comprometida, além de estarem convivendo diretamente com o agressor”, destacou a presidente do CED-MS, Mara Caseiro, que defendeu o workshop como meio de divulgar os mecanismos de denúncia durante o isolamento social.

Vítimas de violência doméstica

Duas vítimas de agressões e tentativa de feminicídio contaram suas experiências durante o workshop. “Ele me batia na frente dos meus filhos e depois se fazia de vítima. Fica o trauma psicológico e a luta contínua pela minha proteção e a de minha família”, lamentou uma delas.

A segunda convidada detalhou o episódio de violência que viveu. “Eu já estava separada havia 2 meses quando ele entrou na minha casa de madrugada e começou a me bater com um pé de cabra. Eu estava dormindo, acordei com as pancadas e demorou para entender se o que estava acontecendo era real ou um pesadelo”, disse ela.

“Eu quero alertar as mulheres de que a violência não é sua culpa, pois era assim que eu me sentia. Quando estávamos casados, eram constantes as pequenas demonstrações de violência. Eu achava normal, pensava que casamento era assim mesmo. Infelizmente, isso acontece com outras mulheres também”, alertou a vítima.

Violência vai vitimar 1 a cada 3 mulheres, afirma psiquiatra

A médica psiquiatra e professora do curso de Medicina da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) Danusa Guizzo afirmou que 1 em cada 3 mulheres sofreram ou irão sofrer violência sexual e psicológica durante suas vidas. Na maioria dos casos, os agressores são os parceiros ou homens que seguem um roteiro comum.

“Geralmente a violência começa com humilhação e xingamentos, depois dá uma escalada para a agressão física. É um fenômeno da nossa cultura machista que ainda é muito predominante”, relatou a médica psiquiatra, segundo quem a culpa é um dos fatores que levam as mulheres a não levarem denúncias adiante.

“O homem diz que se arrependeu e pede perdão ou culpa a mulher pela agressão e se faz de vítima. Isso cria uma culpa na mulher e, ao mesmo tempo, uma esperança de que tudo vai melhorar”, disse Danusa Guizzo.

Para a especialista, conhecer seus direitos e não aceitar agressões –sejam verbais, físicas, virtuais, sexuais ou psicológicas– são necessárias para romper o ciclo de violência. Ela também afirma que o agressor muitas vezes precisa de tratamento.

“Geralmente o homem violento é uma vítima que precisa de um tratamento adequado para não voltar a agredir. Além do histórico e das questões culturais, existem fatores como a dependência de drogas, de álcool, bem como doença mental”, explicou.

Além do site http://www.naosecale.ms.gov.br e do MS Digital, denúncias (inclusive anônimas) podem ser feitas pelo telefone 190 ou no site da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul. (Com assessoria)

Jornal Midiamax