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Gilbert cresceu engraxando sapatos em hotéis e conhecendo histórias

Gilberto Gilbert, nome dado pelo americano dono de uma fazenda onde nasceu, cresceu ouvindo muitas histórias em Campo Grande. Nascido em uma família de 5 filhos, era o único homem de José, pai paraibano, e Gina, mãe carapoense. O pai, na época em que a irmã mais jovem nasceu, em Campo Grande em 1973, trabalhava […]

Bruna Vasconcelos Publicado em 21/12/2020, às 17h38 - Atualizado às 17h59

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Gilberto Gilbert, nome dado pelo americano dono de uma fazenda onde nasceu, cresceu ouvindo muitas histórias em Campo Grande. Nascido em uma família de 5 filhos, era o único homem de José, pai paraibano, e Gina, mãe carapoense. O pai, na época em que a irmã mais jovem nasceu, em Campo Grande em 1973, trabalhava com obras para o sustento da família.

Antes da família embarcar para a Capital, em março de 1972, a vida não era nada fácil na pequena casa de pau a pique e bambu macetado na colônia Canadense, próximo ao Paraguai. O sonho da família era se instalar e, assim, o pai virou carpinteiro e construiu uma casinha no bairro Guanandi. Aos poucos, as irmãs de Gilberto começaram a trabalhar vendendo sementes de flores. Já ele, aos 10 anos, comprava garrafas vazias e revendia.

Gilbert cresceu engraxando sapatos em hotéis e conhecendo histórias

“Sempre com honestidade”, lembra.

Cerca de 3 anos depois que estavam em Campo Grande, o garoto começou a levar o almoço para o pai, que trabalhava como carpinteiro em prédios.

“Os motoristas de ônibus começaram a dizer para eu criar uma caixa de engraxar sapatos.”

Gilbert viu na nova profissão uma oportunidade de ganhar dinheiro e, usando um triângulo de madeira com pisador, começou a lustrar sapatos de clientes em locais movimentados como a Praça Ary Coelho.

“Certa vez fui engraxar no mercadão, achei uma carteira debaixo de um caminhão e devolvi. Os hotéis eram meus pontos preferidos. Lembro que bolivianos executivos com roupas sociais me davam muita gorjeta. Hotéis na Avenida Calógeras me deixavam trabalhar na área de estar.”

O garoto ficou como engraxate até os 12 anos quando, com o lucro dos sapatos, seu pai comprou um carrinho para vender bananas.

“Conheci um sargento do exército e a esposa dele me incentivava nas compras das garrafas vazias. Assim fui para as ruas de Taveirópolis e Amambai comprar garrafas nas casas para revender.”

Gilbert cresceu engraxando sapatos em hotéis e conhecendo histórias
Naturalizado brasileiro, ele serviu exército (Foto: Arquivo Pessoal)

Nessa mesma época que Gilbert ganhou um novo amigo: um burro, que o ajudava na venda de bananas. “Era um burro e um moleque metido a inteligente”, brinca.

Alguns anos mais tarde, já rapaz, Gilbert se interessou por pintar casas e ajudou, segundo ele, a pintar a Coophavila 2. Quando atingiu a maioridade, entrou no exército, mas logo saiu para trabalhar como motorista. A bagagem, nesta época, já lhe proporcionava grandes histórias e lições de vida.

Gilbert cresceu engraxando sapatos em hotéis e conhecendo histórias

“Caminhão e máquinas pesadas eram o que eu dirigia. Nos tempos de guri eu sonhava em ser polícia, locutor ou motorista, mas tudo é experiência.”

Hoje, aos 54 anos, com tantas profissões, tantas experiências, boas e ruins, quando questionado se a vida valeu a pena, Gilbert é enfático:

“Com muita luta, apesar de não ter chance nem de estudar e concluir estudos, valeu a pena pois segui o conselho de meu pai: lutar.”

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