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Camila é cenógrafa de TV e seu desafio é fazer da ilusão uma verdade

Campo-grandense dedicou carreira à construção de cenários

Guilherme Cavalcante Publicado em 14/08/2017, às 15h40

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Campo-grandense dedicou carreira à construção de cenários

Sabe tudo aquilo que você vê na TV, desde os quartos decorados e favelas das telenovelas às bancadas dos telejornais? Há um complexo trabalho de ilusionismo por trás de toda essa estrutura. A magia, no caso, são estacas, ripas, caibros, compensados, tinta, pregos, parafusos e, claro, o talento dos cenógrafos, que com maestria e após conquistarem muito conhecimento, fazem os cenários transmitirem emoções e verossimilhança direto para seu aparelho televisor.

Camila e um dos cenários que fez em Joia Rara (Arquivo Pessoal)Toda essa estrutura sempre chamou a atenção de Camila Zavalo, arquiteta formada na UFMS que hoje se dedica ao ramo de cenografia – o que ela chama de ‘arte da emoção e do efêmero’. Atualmente em São Paulo para executar alguns projetos, a campo-grandense já integrou diversas equipes que assinaram cenários da ficção, como na novela ‘Joia Rara’, da Globo, em 2013, e ‘Êta Mundo Bom’, em 2016. Atualmente, Camila está na equipe que desenvolve o cenário da nova edição do reality show ‘A Fazenda’, na TV Record, e também faz parte da equipe do programa Entubados, da Sony.

“Desde a faculdade eu já tinha essa ideia de trabalhar com arquitetura efêmera, de sair da construção civil e me dedicar a essa atividade de montar e desmontar. Isso me encanta, é desafiador. Tem cenário que em três dias tem que estar pronto, então é preciso ser muito qualificado”, conta.

Para entrar neste mercado, portanto, qualificação e persistência são fundamentais, já que cenografia no Brasil é muito exigente e pede dos profissionais profundo conhecimento para a elaboração e execução dos projetos. Camila aceitou o desafio. Após a formatura, ela foi para o Rio de Janeiro e fez uma especialização em ‘Direção de Arte e Cenografia’ na Casa de Arte de Laranjeiras, além do curso de ‘Iluminação para Artes’, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, tudo para conseguir entrar no mercado. Foi quando ficou sabendo que para entrar na Globo, a empresa onde a montagem de cenários é mais requisitada, era preciso fazer uma prova.

Montagem da cidade cenográfica de 'Êta Mundo Bom' (Foto - Arquivo pessoal)

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Camila é cenógrafa de TV e seu desafio é fazer da ilusão uma verdade

Ela se refere ao programa ‘Entubados’, que vai para a segunda temporada no canal Sony. Na produção, ela integra a equipe geral, mas assina os quartos do reality, desde o papel de parede ao mobiliário. E na sequência, ela segue para o interior paulista, em Itapecerica da Serra, onde atuará até dezembro na cenografia de ‘A Fazenda’.

“É tudo fake”

Durante oficina, Camila também visitou cenários de outras telenovelas (Arquivo pessoal)A necessidade de formação do cenógrafo é contínua, não tem tempo para descanso, como revela Camila. “A busca pelo aprendizado é pra vida toda, porque todo dia é uma lição diferente. Mas, só de cursos e experiência profissional com montagem e desmontagem de estandes, que me deram uma boa bagagem, eu acho que foram uns dois a três anos…”.

Segundo ela, além de por a mão na massa, o cenógrafo também precisa ser bom na concepção, pois há todo um estudo psicológico sobre a sensação que se pretende passar ao expectador. “O cenário vai ajudar o ator a incorporar o personagem e por isso aquela estrutura tem que ‘falar’. Se o cara é vilão, ele pode ter, por exemplo, uma coleção de soldadinhos de chumbo. Se ele é metódico, ele vai limpar e polir as peças”, revela a artista.

Quase 100% dos elementos de cena são cenográficos, ou seja, não são reais. “É claro que quando um o ator está comendo algo, aquela comida é de verdade. Mas, quando tem uma confeitaria, quando tem uma quitanda, aquilo é tudo fake. Tudo que vai na vitrine é cenográfico: cebola, alho, fruta, nada é de verdade, mas faz parte da magia”, explica a cenógrafa.

Mantendo as raízes

Em Mato Grosso do Sul, o mercado de cenografias infelizmente não é dos melhores. Entretanto, no período de um ano e meio em que ficou em Campo Grande após ‘Êta Mundo Bom’, Camila fez o mapa do Festival América do Sul, em 2016, que ocorreu em Corumbá. Ela também vai assinar a cenografia do Festival Literário de Bonito, que ocorrerá em novembro. Ah, vale lembrar que Camila também é um dos nomes por trás das estampas do Capivaral, marca que explora as identidades regionais e que se tornou uma das queridinhas do Estado.

Com Tico Santa Cruz, do Detonautas, e Leo Dalferth, com quem mantém a marca Capivaral (Arquivo pessoal)

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“Aqui o mercado de cenografia é realmente mais restrito, por isso retornei para São Paulo para trabalhar. Aqui eu fico só até dezembro, porque eu quero manter as raízes em Mato Grosso do Sul. Eu tive uma galeria de arte e um gastrobar em Corumbá, ano passado. E pretendo reabri-los em Campo Grande, em parceria com o artista plástico Guido Drummond”, conta a arquiteta.

O espaço será uma galeria de arte biosustentável, cujas obras devem ter início em julho de 2018. Porém, ela já inaugura em outubro um espaço coworking, o ‘Motirô’, uma forma que a arquiteta encontrou para viver em Campo Grande, próximo a minha família e aos amigos. “Porém, sem esquecer meus sonhos, dentre eles, fazer uma trabalho na Disney, que é o que mais me motivou a ser cenógrafa. Parafraseando Oscar Niemeyer, a gente tem que sonhar, se não as coisas não acontecem”, conclui.

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