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Briga de médicos que teria motivado morte de bebê em parto faz 1 ano sem nenhuma punição

Um dos médicos envolvidos mudou-se para Alta Floresta (MT), onde trabalha para o hospital da prefeitura; delegado de Ivinhema (MS) pediu à Justiça de MT para ouvir o médico lá, mas até agora, nada

Arquivo Publicado em 11/02/2011, às 18h55

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Um dos médicos envolvidos mudou-se para Alta Floresta (MT), onde trabalha para o hospital da prefeitura; delegado de Ivinhema (MS) pediu à Justiça de MT para ouvir o médico lá, mas até agora, nada

Um dos médicos que trocou socos com colega também médico dentro de uma sala de parto de hospital em Ivinhema, a 345 km de Campo Grande (MS), mudou-se para Alta Floresta, interior de Mato Grosso e, até agora não prestou depoimento à polícia. A confusão atrasou o procedimento e a criança nasceu morta. O episódio ocorreu na noite do dia 23 de fevereiro do ano passado.

O delegado Lupérsio Degerone Lúcio disse que já ouviu um dos médicos e pediu para que a Justiça de Mato Grosso ouvisse o outro por meio de carta precatória. Isso quase quatro meses atrás e, até agora, nada.

O obstetra Sinomar Prado envolveu-se na briga com o também obstetra Orozimbo Ruela Oliveira Neto. A discussão teria como motivo o atendimento a gestante. Prado estaria no quarto se preparando para fazer o parto quando Oliveira Neto apareceu no local dizendo que a paciente era dele. Daí, a confusão.

Sinomar Prado, segundo o delegado, trabalha hoje como médico da prefeitura de Alta Floresta, cidade distante 830 km de Cuiabá, a capital de Mato Grosso que fica a 700 km de Campo Grande (MS). Já Orozimbo Neto atua como médico na cidade Novo Horizonte do Sul (MS). Após a briga no hospital de Ivinhema, a dupla foi demitida pela prefeitura da cidade.

O delegado Lupércio Lúcio disse que o relatório do inquérito só depende do depoimento do médico que foi embora para Mato Grosso. “Pedi isso há quatro meses, mas até agora não tive uma resposta”, lamenta o policial.

Lúcio disse que os dois médicos foram indiciados por aborto com dolo eventual, crime cuja pena pode superar quatro anos de prisão. Dolo eventual não quer dizer que os médicos quiseram matar a criança, mas ignoraram o risco disso acontecer.

De acordo com o policial, a criança morreu por “sofrimento fetal agudo e anoxia, o mesmo que falta de oxigênio”.

Ele disse ainda que a briga dos dois obstetras influiu na morte do bebê, afirmação sustentada, segundo ele, por provas testemunhais e também por avaliações médicas.
“Se não houvesse a confusão e, mesmo se o parto apresentasse problemas daria tempo de os médicos recorrerem logo à cirurgia cesariana, o que não aconteceu”.

A briga

O pai do bebê, o soldado do Corpo de Bombeiros Gilberto de Melo Cabreira, 32, disse ao Midiamax dois dias após o episódio (25.02.2011), por telefone, que sua mulher Gislaine de Matos Rodrigues, também de 32 anos, foi internada domingo por volta das 17 horas no Hospital Municipal de Ivinhema. O casal, segundo Cabreira, havia combinado com o médico Orozimbo Neto que o parto seria normal.

O médico, narrou Cabreira, disse que ia sair do plantão e retornaria no dia seguinte, o que aconteceu. Gislaine, segundo o marido, fora levada até uma sala do hospital, preparado para o pardo. Isso aconteceu por volta das 23h30, disse o bombeiro, que aguardava o nascimento da filha na recepção do hospital.

Quinze minutos após ter sido avisado pelo médico Orozimbo que o parto ia começar, Cabreira viu alguns atendentes correndo em direção a sala onde sua mulher era atendida. Ele foi ao local e soube pela mulher que o médico Orozimbo e outro plantonista, Sinomar Ricardo, havia se enfrentado numa briga corporal.

O médico Sinomar, segundo versão da mulher, teria expulsado Orozimbo da sala e dito que quem ia cuidar do parto de Gislaine seria ele. De acordo com a mulher, quando os médicos começaram a brigar, ela já estava sem roupa, pronta para dar à luz.

Policiais foram ao hospital, conversaram com os médicos e Gislaine fora para outra sala. “A barriga de minha mulher já estava enrijecida e os médicos naquela monstruosidade. Milha mulher sem roupas e um monte de gente entrando e saindo da sala, foi horrível. Gislaine suplicava para os médicos pararem e atenderam a ela, mas não foi atendida”, disse.

Depois de levada para outra sala, a direção do hospital teria acionado um médico que não estava de plantão para cuidar da gestante. Meia hora depois apareceu o médico. “Preste atenção numa coisa: minha mulher entrou na sala de parto às 23h30 e a cesariana só foi acabar uma hora e meia. Minha filhinha nasceu toda roxa e minha mulher sofreu muito, ela só dizia que tinha acabado suas forças, eu vi tudo isso”, disse o militar.

Cabreira saiu do hospital e registrou o caso na polícia e prestou depoimento no Ministério Público Estadual. “Não quero acusar ninguém agora, mas se houver culpados que sejam punidos”, disse

Cabreira e Gislaine já tinham comprado o enxoval do bebê. “Minha filha estava bem, já tínhamos ouvido o coração dela nos exames feitos durante a gravidez. E ela morreu por anoxia, está registrado isso”, protestou o militar.

A criança morta no parto se chamaria “Mibsan Rodrigues Cabreira”, segundo o bombeiro, que havia escolhido o nome por influência da igreja que frequenta com a mulher, evangélica. Mibsan significa “doce aroma” na linguagem hebraica.

Jornal Midiamax