Cotidiano

'Me arrumei, tomei banho e tentei me matar', afinal, por que as pessoas cometem suicídio?

Por trás do comportamento suicida há uma combinação de fatores biológicos, emocionais, socioculturais, filosóficos e até religiosos que, embaralhados, culminam numa manifestação autodestrutiva

Lucas Mamédio Publicado em 13/09/2021, às 07h30

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(Foto: Leonardo França)

Era uma manhã ensolarada de segunda-feira. No trabalho, o namorado de uma advogada de Campo Grande recebe uma chamada de vídeo dela. Caída no banheiro e pálida, ela mal consegue pronunciar as palavras “desculpa, desculpa, eu não consegui”.

Desesperado ele encerra a chamada e liga para o irmão dela, que por sorte estava em casa junto do pai. Os dois a encontram escorada na parede.  Ela acabara de ingerir uma grande quantidade de remédios para depressão de uma vez. Estava tentando se matar.

A advogada preferiu não se identificar, mas não se furtou de falar sobre o assunto para lá de delicado. Aliás, se tivesse de escolher um adjetivo, não seria esse.

“Apesar de a idealização de suicídio, e apesar da minha depressão me acompanhar há muitos anos, no dia em que eu acordei (se referindo ao dia da tentativa) era como se aquele dia fizesse mais sentido do que nunca. Eu tomei banho, me arrumei e tomei vários remédios e, alguns minutos depois, quando eu não conseguia mais ficar de pé, foi como se todos os sentimentos que tinham me abandonado aquela manhã aparecessem”, conta ela se referindo ao feixe de luz sobre sua cabeça em meio à escuridão em que estava perdida.

“Eu pensei nas pessoas que me amam e que eu estava tratando a depressão e aquilo era eu ouvindo essas vozes. Senti muito medo de morrer e de não conseguir avisar alguém a tempo e também senti vergonha por não ter conseguido ser forte o bastante”, conclui.

O motivo pelo qual a advogada de apenas 25 anos tomou a atitude que tomou, até hoje é difícil de explicar para ela. Podem ter sido sentimentos somatizados que desaguaram num dia de fragilidade maior, no agravamento de uma depressão já aguda, é o contexto, a oportunidade.

Mas esse foi um caso dela e, quando se fala em suicídio, nada é generalizado.

E por que então as pessoas cometem suicídio?

Apesar da simplicidade da pergunta, a resposta, se é que ela existe, é bem complexa. Por trás do comportamento suicida há uma combinação de fatores biológicos, emocionais, socioculturais, filosóficos e até religiosos que, embaralhados, culminam numa manifestação autodestrutiva.

Para decifrá-los, estudiosos recorrem a uma espécie “autópsia psicológica”, que visa de alguma forma reconstruir a biografia da pessoa falecida e, assim, delinear as características psicossociais que a levaram ao suicídio.

Perceba como o motivo depende de uma série de variáveis ligadas à história de cada um, daí a dificuldade do tão famoso “motivo”.

A psicóloga, especialista em terapia familiar e professora universitária, Juliana Maria Del Grossi reforça essa percepção. “Os principais motivos são doenças mentais, depressão, síndrome do pânico, a bipolaridade, a esquizofrenia. Todas essas são situações patológicas, mas ainda têm perdas financeiras, perdas de um ente querido, algum trauma muito marcante na vida da pessoa, todo isso pode ser motivo”.

Além disso, essas condições e contextos podem ser combinados na mesma pessoa em maior ou menor proporção. “O que as pessoas relatam é que se sentem sem saída, sentem um vazio existencial, é uma dor emocional que, às vezes, tem até sintomas físicos. Lembrando que não é frescura, as pessoas têm queda na produção de serotonina, dopamina, de neurotransmissores que são importantes. Então, é uma doença físico-química”, explica ela também atentando para o contexto biológico da mente suicida.

“Conhecendo” os motivos, é possível prevenir?

Faz dois anos que a cabeleira Patrícia Romero se faz essa pergunta. A tragédia dela, de alguma forma, ajuda a encaixar mais uma pecinha nesse quebra-cabeça que é o funcionamento de nossa mente.

Em 2019, o filho de Patrícia, César Romero, de apenas 12 anos, se suicidou. O fato aconteceu pouco depois de sua primeira namoradinha de colégio também se matar, talvez, e muito provável, um dos motivos.

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Patrícia e o filho, César (Foto: Arquivo Pessoal)

O intervalo entre as duas tragédias foi de 24 dias. Ela se foi em 4 de julho e ele no dia 28 do mesmo mês. “Então, ele começou a falar para os amigos que iria fazer (cometer suicídio). E pegou uma lista da internet do que deveria fazer antes de morrer. E uma delas era levar alguém que você ama pra sair, e ele fez, me levou para lanchar, mas eu não achava que ele iria chegar ao ponto de fazer”, lembra Patrícia.

Porém, antes mesmo do trauma derradeiro, a criança já apresentava comportamentos passíveis de desconfiança e que inspirava cuidados.

“Antes ele se cortava e falava que sentia uma dor grande, que quando ele se cortava ele passava a sentir a dor no corte e não aquela dor que sentia sem saber onde era. Encontrei uma mensagem dele antes um pouco de morrer, que ele não queria fazer aquilo, mas que não estava aguentando”.

Agora, mãe de novo, de um bebezinho de um ano, Patrícia vai se reconstruindo aos poucos. “Nós iremos carregar a dor eterna, não tem como esquecer um dia sequer, buscamos força ajudando outras famílias a não passar por isso!  Só Deus para anestesiar uma dor que corrói na alma”.

Há vida possível após uma tentativa de suicídio?

Patrícia busca reconstruir sua vida após um caso consumado, mas e no caso de quem tentou e não conseguiu, existe vida possível? Tanto para a pessoa quanto para as que estão a seu redor? Tentar se matar é um trauma insuperável?

Assim como se busca motivos para tirar a vida, busca-se para tê-la. Além do esforço pessoal e coletivo, há hoje uma série de especialistas e remédios amplamente testados que ajudam indivíduos que tentaram se suicidar.

“Às vezes, a tentativa aconteceu justamente porque a pessoa nunca tinha recorrido a um médico. E os medicamentos, médicos e terapeutas podem reconstruir todas as bases da vida dela, que a partir dali terá uma vida normal”, finaliza a psicóloga.

Número de casos em MS

Mato Grosso do Sul é o 3º Estado com a maior taxa de mortalidade por suicídio no país, com taxa média de 9,5 por 100 mil habitantes, número expressivo se comparado com a taxa nacional que é de 5,7.

Casos20202021Total
Total158178336

Dentre a faixa etária mais prevalente para mortalidade, os jovens entre 20 e 39 anos são os que mais tiram a própria vida em relação à população geral do Estado. A população indígena também apresenta prevalência elevada nos jovens com idade entre 15 e 29 anos. Apesar da queda no número de mortes de 2019 para 2020 (o que já se esperava devido à pandemia), a preocupação agora é com o pós-pandemia, considerando o aumento da demanda em saúde mental (pessoas com transtornos ansiosos, depressão, uso abusivo de álcool/drogas, luto, sequelas pós-covid).

Quanto às tentativas de suicídio, a população jovem de 15 a 29 anos também é a mais prevalente, sendo as mulheres as mais atingidas. Quanto à população indígena, o perfil fica entre 10 e 29 anos, homens são a maioria. O Estado registra queda de 2020 a 2021, porém os números são subnotificados, tendo em vista o acúmulo de funções dos profissionais de saúde em razão da própria pandemia.

Ajuda

Em Mato Grosso do Sul, o Grupo Amor Vida (GAV) é um dos que prestam serviço gratuito de apoio emocional a pessoas em crise através dos telefones (67) 3383-4112, (67) 99266-6560 (Claro) e (67) 99973-8682 (Vivo), todos sem identificador de chamadas.

"Nossa missão é prevenir o suicídio mediante o apoio emocional à pessoa em crise. Você poderá falar sobre seus sentimentos sem expor sua identidade", afirma o Grupo.

O horário de funcionamento, segundo o site do GAV, é das 7h às 23h, inclusive sábados, domingos e feriados. 

Jornal Midiamax