Cotidiano

Programa de recuperação pós-Covid do Município traz alívio em meio às dúvidas e sequelas

Programa da Prefeitura Municipal é pioneiro do amparo nos pacientes pós-covid

Mariane Chianezi Publicado em 28/06/2021, às 19h09

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Divulgação/PMCG/Karine Matos

Após vencerem a fase aguda da Covid, muitas pessoas estão evoluindo com queixas respiratórias e motoras tais como fraqueza global e falta de ar para realizar pequenos ou médios esforços. Atividades simples do dia a dia como varrer a casa, passar um pano, lavar a louça ou dar uma pequena caminhada têm sido muito difícil para pacientes que tiveram sequelas.

O assistente de saúde Wílson Pina, que é gerente da Unidade de Saúde da Família Vila Corumbá, pegou a doença e ficou 56 dias internado. Quando saiu, não conseguia nem se sentar sozinho. Hoje, ele faz diversas terapias para voltar à rotina antes da Covid e fala sobre as conquistas diárias.

“Eu fui intubado, tive uma parada cardíaca e fiquei três minutos sem o coração bater. Quando você é intubado, é sedado, você apaga e dá muito medo de não voltar. Eu fiquei quase dois meses na cama de um hospital, e quando vim pra casa não conseguia nem me levantar sozinho da cama, não conseguia nem me sentar”, diz.

Usuário do serviço pioneiro de reabilitação no país, implantado pela Prefeitura de Campo Grande em parceria com a Apae, Wilson Pina conta que teve que reaprender a ter autonomia e cada ação conquistada é motivo de comemoração.

“Eu fiquei sem conseguir me movimentar. No início, devido ao meu peso, era preciso que um guincho me levantasse para fazer a terapia. Agora já ando, sento, tomo banho sozinho. Na última semana consegui cortar novamente as unhas sozinho. Para mim é uma vitória”, afirma.

Inaugurado em setembro de 2020 pela Prefeitura de Campo Grande, em parceria com a Associação dos Amigos dos Excepcionais (APAE), o Centro Especializado em Reabilitação da APAE de Campo Grande (CER/APAE), primeiro ambulatório para tratamento de pacientes com doenças residuais provocadas pela Covid-19, já recebeu 573 encaminhamentos, destes, 410 apareceram para o acolhimento.

Atualmente, 350 seguem em atendimento. Do total, 30 pacientes já receberam alta e outros 28 desistiram do tratamento. Para fazer o encaminhamento é preciso passar em uma Unidade Básica de Saúde, onde será feito o agendamento para avaliação do caso.

A psicóloga Beatriz Ferreira, de 26 anos, que faz terapia respiratória no local, conta que contraiu a doença em outubro de 2020 e de início não teve nada grave, mas meses depois começou a sentir falta de ar todas as vezes que se esforçava mais em alguma atividade.

“Minha avó pegou e eu fui fazer o exame só por precaução e deu positivo. De início eu não tive nada, não precisei tomar medicamentos. Mas em janeiro comecei a ter dificuldade para respirar e procurei a unidade básica de saúde, lá me encaminharam para a reabilitação. Comecei o tratamento e sinto que minha respiração está melhor, já há avanços”, relata a jovem.

Já a funcionária pública Ângela Gomes Medeiros acompanha a mãe na fisioterapia, Dona Neusa de 82 anos, que pegou a Covid no fim do ano passado. Ela ficou 4 dias internada na UPA Universitário e mais 12 dias na Santa Casa.

“Quando ela saiu percebeu que perdeu a força das pernas. Ela usava andador, mas fazia tudo sozinha. Agora ela precisa do nosso auxílio em tudo. Hoje, ela faz a fisioterapia respiratória e motora. Já voltou a andar e nossa expectativa é que ela volte a ter a autonomia que tinha antes”, diz Ângela, confiante na recuperação da mãe.

Dona Neusa Gomes da Silva diz se sentir bem melhor e não vê a hora de retomar às suas atividades.

“Eu não conseguia andar, agora vou devagarzinho. Eu faço várias coisas e me sinto bem melhor. O trabalho aqui é muito bom”, comenta ela sobre o serviço oferecido na Apae/CER.

O psicólogo Ariallísson Monteiro dos Santos ressalta que a queixa principal dos pacientes é déficit pulmonar e cardíaco, mas no geral, eles apresentam uma ansiedade muito elevada, declínio do humor e incertezas com o futuro.

“Esses pacientes passaram muito tempo na unidade hospitalar ou em UTI e chegam com a expectativa de que tudo vai se normalizar de imediato e, muitas vezes, isso não acontece. O trabalho da psicologia é dar apoio a esse paciente para que tenha estrutura para passar pelo processo, para que não se torne mais um fator ansiogênico. É preciso trabalhar essa expectativa para que ele perceba os pequenos progressos ao longo do tratamento e não foque na perda e sim no ganho”, diz.

A fisioterapeuta neurofuncional Patrícia de Moraes Ferreira Brandão concorda e diz que a maior dificuldade enfrentada pelos profissionais em atender é a expectativa do paciente.

“Eles saem esperando retomar a vida como era antes. Aí eles se deparam com uma realidade que muitas vezes tem sido diferente. No início, as doenças residuais afetavam muito a população de idosos, mas agora têm afetado a população mais jovem, o adulto jovem. E, muitas vezes essa pessoa é o provedor do lar e tem a esperança do retorno ao trabalho.

“A importância da reabilitação é fazer com que esse paciente retorne o quanto antes e o mais próximo do que ele tinha antes da Covid. Tem paciente que se recupera mais rápido, outros demoram mais”, explica.

Pioneira neste tipo de serviço de reabilitação no país, a Prefeitura de Campo Grande também inaugurou uma Unidade Especializada em Reabilitação e Diagnóstico (UERD). Localizada na Vila Almeida, a UERD oferece uma avaliação global promovida por uma equipe multidisciplinar e, a partir de então, é traçado o programa de tratamento.

O pedido de encaminhamento deve ser feito na unidade básica de saúde mais próxima pelo profissional médico, via sistema de regulação (Sisreg), acompanhado de atestado de liberação para realização de atividade física.

A gerente da UERD Laisa Oliveira Andreolli explica que todo paciente que sinta muito cansaço ou falta de ar para conseguir fazer atividades que eram realizadas rotineiramente antes da Covid, além de fadiga, fraqueza muscular ou respiratória, principalmente quando afetar o desempenho das atividades diárias ou laborais devem procurar por ajuda.

“O paciente vai passa por uma avaliação global com a equipe multidisciplinar e, a partir de então, será traçado o programa de tratamento do mesmo, podendo ser de frequência de duas a três vezes por semana”, diz.

Desde a inauguração, a Unidade Especializada em Reabilitação e Diagnóstico (UERD) já realizou 791 atendimentos. Todos os serviços que são feitos pela equipe multidisciplinar, composta por profissionais da área de fisioterapia, educação física, psicologia e nutrição, são realizados integramente pelo SUS.

Serviço:

Centro Especializado em Reabilitação da APAE de Campo Grande (CER/APAE)

Endereço: Rua Carlinda Tognini, 221, Vila Progresso

Unidade Especializada em Reabilitação e Diagnóstico (UERD)

Endereço: Rua Mal. Hermes, 842, Vila Almeida

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