Cotidiano

Com a visão prejudicada por erro médico, cabeleireira teve que fechar salão e entrou em depressão

Ela foi mais uma vítima de erro médico supostamente ocorrido na Caravana da Saúde

Renan Nucci Publicado em 19/05/2021, às 16h46

Imagem mostra um olho com pterígio
Imagem mostra um olho com pterígio - Foto Ilustrativa

Em 2016, a vida da cabeleireira e manicure Ângela Aparecida de Jesus Lopes Cardoso mudou completamente por causa de um erro médico, ocorrido segundo ela, durante cirurgia no olho esquerdo feita pela Caravana da Saúde, programa realizado pelo Governo do Estado de Mato Grosso para zerar a fila da rede pública. Com 90% da visão comprometida, ela não conseguiu mais trabalhar, entrou em depressão e teve que fechar o salão que tinha no Jardim Leblon, em Campo Grande.

Ângela conta que sofria com pterígio, doença também conhecida como ‘carne no olho’, um tipo de lesão que cresce lentamente ao longo dos anos e pode comprometer a visão. Ela já havia procurado tratamento via SUS (Sistema Único de Saúde) e aguardava oportunidade para ser operada. Foi então que teve conhecimento da Caravana da Saúde, que estava realizando atendimentos no Pavilhão Albano Franco. No entanto,o que parecia ser a solução do problema, piorou ainda mais a situação.

Naquele momento, o pterígio já tinha avançado sobre a íris e era preciso removê-lo, porém, durante o procedimento cirúrgico, a médica responsável não foi capaz de conter o sangramento e precisou fazer uma cauterização. “Ela acabou queimando a córnea”, disse Angela. “Acho que não poderiam ter feito a cirurgia ali,  deveriam ter feito em um local mais apropriado”, reclamou. A campo-grandense recebeu alta em seguida, mas dias depois começou a sentir desconforto e constatou inflamação do olho.

Alega que procurou novamente médicos da caravana, que receitaram colírio e recomendaram que ela ficasse em repouso. Como a situação não melhorou, fez consulta com um médico particular e, após exame realizado no CEM (Centro de Especialidades Médicas), foi comprovado que a visão havia sido comprometida em 90%. “Eu já não conseguia mais trabalhar. Ia tirar uma cutícula, não enxergava o que estava fazendo. Quando ia passar produto químico no cabelo de alguma cliente, não suportava a irritação”, lamentou.

“Tive que parar, porque eu já não era mais capaz de fazer o que eu sabia. Entrei em depressão, fechei o salão e hoje faço acompanhamento psiquiátrico. Nunca mais consegui trabalhar”. Ângela disse que tentou afastamento inicialmente pelo INSS (Instituto Nacional de Previdência Social), mas mesmo com laudos do olho, não conseguiu o benefício pois, em tese, ainda teria outro “olho bom”. No entanto, agora ela também tem laudo psiquiátrico e disse que já constitui um advogado para acionar judicialmente o Governo do Estado.

Conforme noticiado mais cedo pelo Midiamax, o Estado e a empresa 20/20 Serviços Médicos S/S foram apontados como réus em ao menos 12 processos por erros médicos ocorridos durante a Caravana da Saúde, especialmente no setor de oftalmologia. Como no caso de Ângela, pacientes tiveram piora significativa da visão e até ocorrência de cegueira. Eles ingressam com ação na Justiça cobrando indenizações e pensões. Em um dos processos, o Estado foi condenado ao pagamento de R$ 30 mil por danos morais.

Jornal Midiamax