Brasil

Transexual crucificada processa Feliciano e pede indenização

Viviany entrou com pedido de retratação ao pastor por ter sido indevidamente exposta

Gerciane Alves Publicado em 30/06/2015, às 21h04

None
trans.jpg

Viviany entrou com pedido de retratação ao pastor por ter sido indevidamente exposta

A atriz e modelo transexual Viviany Beleboni, que simulou uma crucificação na edição deste ano da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, abriu um processo contra o deputado e pastor Marco Feliciano (PSC). Ela alega que teve sua imagem indevidamente exposta pelo parlamentar e que, por conta disso, passou a receber ameaças e teve que mudar completamente sua rotina.

“Ele colocou minha foto junto a imagens tiradas em outras marchas de outros lugares do mundo, e não na parada LGBT de São Paulo, para manipular a população brasileira. Aquelas pessoas são de outros países e não estão com o rosto em evidência como eu. Então fui a única prejudicada. Isso é distorção de imagem. Venho recebendo ameaças de morte por causa dele. Emagreci, estou com Síndrome do Pânico, passei a tomar remédios, convidei amigos para morar comigo para eu não ficar sozinha, liguei a câmera de segurança do meu prédio 24 horas na minha televisão. Tudo mudou”, contou ela em entrevista.

A advogada da modelo, Cristiane Leandro de Novais, explicou que trata-se de uma ação de indenização com pedido de tutela antecipada para que Feliciano seja intimado a excluir de seu gabinete, de seu site e de suas redes sociais “todos os vídeos que criou, todas as imagens que editou e todas as ofensas que fez” contra a população LGBT no geral e contra Viviany. Além disso, existe um pedido de retratação e indenização por difamação e injúria por conta da incitação criminal que teria feito na web e em redes de televisão. O processo corre na 1ª Vara Cível do Fórum João Mendes Júnior.

“A partir do momento em que praticou esses atos, ele fez com que outras pessoas, seus ‘seguidores’, começassem a fazer ameaças a Viviany nas redes sociais, por mensagens ou telefone. Nossos pedidos visam manter a integridade física dela. É isso que tememos. Ele tem medo de sair de casa, precisa ser amparada”, afirmou a advogada.

Até o fechamento desta reportagem, a assessoria de imprensa do deputado não se posicionou sobre o caso.

Internautas também serão processados

Ao mesmo tempo em que abriu processo contra o pastor, a dupla entrou com uma ação contra o Facebook exigindo que a empresa forneça os IPs virtuais de todos os usuários da rede social que compartilharam esses mesmos conteúdos e/ou fizeram comentários ofensivos direcionadas à modelo.

“Com essas informações, conseguiremos chegar nessas pessoas para processá-las também. Vivemos em um País com liberdade de expressão, mas as pessoas têm que aprender que devem se responsabilizar pelo que fazem, inclusive na internet. Ações como essa são comuns, o Facebook logo deve nos fornecer esses dados”, concluiu Cristiane.

“Mensagem de amor gerou ódio”

Na 19° edição da Parada, realizada no dia 7 de junho, a intervenção de Viviany foi feita no topo do trio elétrico da organização não governamental ABCDS (Ação Brotar pela Cidadania e Diversidade Sexual). Na ocasião, ela foi criticada por alguns religiosos mais exaltados que se ofenderam com a utilização da cruz em seu protesto contra a homofobia. Feliciano, especificamente, a acusou de praticar “cristofobia” e fez uma convocação a seus seguidores.

“Cadê os líderes de denominações evangélicas, principalmente do Estado de São Paulo? Cadê os líderes da Igreja Católica? Eles feriram a minha fé, a sua fé. Até quando vocês vão assistir de camarote?”, questionou em um dos vídeos publicados em sua página.

Na época Viviany contou que em nenhum momento quis afrontar alguma religião . Até porque ela, que se define como espírita, também acredita em Deus. O intuito da cena foi apenas representar o sofrimento de gays, lésbicas, bissexuais, trangêneros, travestis e transexuais que são violentados no Brasil.

“Posso garantir que não teve nenhum caráter religioso. O que eu quis dizer é que as minorias sempre foram crucificadas. Há alguns dias, uma amiga minha travesti morreu levando seis tiros no Rio Grande do Sul. Em São Paulo, tivemos o caso da Verônica recentemente. E isso acontece todo dia. As pessoas estão morrendo. Foi isso que eu quis dizer. Quis mostrar, para quem não conhece nossa realidade, o preconceito que existe. Quis passar amor. As pessoas não estão acostumadas com a realidade. Quando a vêem, se chocam”, afirmou.

Jornal Midiamax