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Leis e pesquisas ajudam a tornar os carros nacionais menos poluentes

Desde a década de 1980, a emissão de poluentes por veículos nacionais caiu 99%

Clayton Neves Publicado em 10/08/2015, às 11h57

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Desde a década de 1980, a emissão de poluentes por veículos nacionais caiu 99%

Quando um motorista gira a chave de um carro fabricado há três ou mais décadas, o motor anuncia num ronco grave a queima do combustível. Esse barulho era o principal componente da sinfonia que compunha a trilha sonora das grandes cidades: em tempos de combustível barato e da colheita dos frutos do milagre econômico, as ruas se enchiam de máquinas que deixavam para trás uma trilha de fumaça escura. Na época, a paisagem era banal. Mas até os mais apaixonados pelo charme dos carros antigos não podem sentir saudade do cheiro tóxico exalado pelos veículos do passado. Se antigamente a potência mandava no mercado, os modelos mais modernos ganham espaço na garagem com a ajuda de termos como flex e eco. São os novos tempos do transporte a favor da natureza.

A metamorfose verde do carro brasileiro teve início nos anos 1980, quando uma interferência do governo colocou um basta na fumaceira. A ordem veio por meio do Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve), em 1986. Desde então, o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) estabelece fases gradativas de restrições a serem atendidas pelos fabricantes e importadores de veículos. Se o carro poluir mais do que o limite determinado, não é liberado para venda.

Essas medidas amenizam o impacto ambiental do aumento da frota no Brasil, que somente na última década cresceu 120%. Desde o início do projeto, que está na sexta fase, a restrição reduziu a emissão de poluentes automotivos em até 99%. Se um carro produzia em média 28,7g de monóxido de carbono por quilômetro rodado em 1985, um veículo novo em folha libera hoje apenas 0,25g do poluente ao circular a mesma distância. O programa também reduziu a emissão de hidrocarbonetos totais em 95%, além de cortar a produção de óxidos de nitrogênio em 98% e dos aldeídos em 96%.
Desafios

Essas cotas serviram como incentivo para a modernização da indústria automotiva, que se viu obrigada a reinventar o modelo de produção para fabricar um produto mais verde. “Hoje, um veículo a diesel, em termos de particulado, polui menos do que a fumaça de um cigarro”, compara Sidney Oliveira, vice-presidente da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA). “As montadoras, sem dúvida, se adaptaram. A legislação tem que acontecer, porque senão a gente ainda estaria na era do carburador. Se você não forçar através de leis, de novos desafios, você fica onde está”, avalia Oliveira.

Durante esse período, modelos que chamavam a atenção pela potência deram lugar no mercado a versões mais compactas e econômicas, e marcos como a popularização da injeção eletrônica e o desenvolvimento do motor flex mudaram o mecanismo de carros de luxo e populares no Brasil e no resto do mundo. “Foram 13 anos de desenvolvimento até o primeiro veículo flex fuel ser lançado, em 2003. Mas é uma tecnologia nossa”, ressalta Sidney Oliveira, que trabalhou no desenvolvimento da tecnologia na Bosch. Atualmente, o sistema passa por uma nova revolução com a implementação do sistema de partida a frio, que elimina uma fonte de poluentes do motor, o tanquinho de gasolina reservado para ligar o carro abastecido a álcool.

Grande parte desse avanço ecológico vai andar de mãos dadas com o interesse do bolso do consumidor. “Há uma relação direta entre reduzir o consumo de combustível e reduzir o consumo de CO2”, ressalta o engenheiro Clayton Zabeu, membro da Comissão Técnica de Motores Ciclo Otto da Sociedade de Engenheiros Automotivos do Brasil (SAE Brasil). As mudanças que podem poupar o tanque variam desde pequenos ajustes no motor até sistemas inteligentes, que monitoram a pressão dos pneus e alertam para o momento da passagem da marcha. Enquanto algumas dessas tecnologias são rapidamente adotadas pelo consumidor justamente pela economia que elas representam, outras acrescem uma quantia alta ao valor do veículo, e ainda não fazem parte dos carros da maioria das pessoas, apesar do seu potencial ambiental. “Essas tecnologias precisam da aceitação do cliente, e à medida que elas vão ganhando escala, vão ficando mais baratas de produzir e acabam virando série”, analisa Zabeu.

Detalhes
O processo de adaptação do mercado é lento, mas algumas das tecnologias que antes eram exclusividade dos veículos feitos lá fora começam a chegar timidamente às pistas brasileiras. A maior delas provavelmente é o sistema start-stop, que desliga o motor quando ele não é necessário. O mecanismo é acionado automaticamente sempre que o veículo está parado, e retoma o funcionamento do carro assim que o motorista coloca o pé no acelerador. A função, que promete reduzir o consumo em até 20%, está disponível em modelos populares nacionais e sua adoção pelos fabricantes pode fazer a diferença em metrópoles onde o engarrafamento é regra.

De acordo com um estudo divulgado pela Agência Internacional de Economia, a simples adaptação do modelo existente até 2050 poderia evitar a liberação de 2 bilhões de toneladas de CO2 na atmosfera. “Podemos fazer uma comparação com um regime. No primeiro mês, você perde 5kg ou 10kg. Depois, passa a perder só 1kg, ou alguns gramas. Nessa questão, eu acho que é a mesma coisa. Temos um efeito muito grande no começo, que dá esse embalo, e agora os avanços estão restritos à casa decimal”, analisa a consultora ambiental Fabiana Avelar.

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