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Fechamento do lendário “Poeirinha” tira o único lazer da comunidade Tia Eva

Sem praça ou parque, a comunidade Tia Eva perdeu seu único espaço de lazer 

Mikaele Teodoro Publicado em 05/07/2015, às 09h17

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Sem praça ou parque, a comunidade Tia Eva perdeu seu único espaço de lazer 

Em 1905, Eva Maria de Jesus chegou ao que mais tarde se tornaria Campo Grande. A ex-escrava nascida em Goiás foi uma das primeiras moradoras a se fixar por aqui. Em 1910, por pagamento a uma promessa feita a São Benedito, iniciou a construção de uma igrejinha que ficaria pronta apenas em 1912. Em torno dessa igreja surgiu o reduto de seus descendentes, hoje consolidada e intitulada: Comunidade Quilombola Tia Eva ou Comunidade São Benedito.  

Por lá, na região norte de Campo Grande, seus descendentes se espremem em mais ou menos 60 casas, a maioria delas localizadas na Rua Eva Maria de Jesus, a principal da comunidade. Sem praça, parque ou qualquer outra área de convívio, eles acabam de perder o único espaço de lazer de que dispunham: o campinho do “Poeirinha”, na Avenida Tamandaré.

O tradicional “terrão” foi fechado em junho sem qualquer aviso prévio. Com isso, os projetos sociais, as caminhadas e o “mando de campo” do time de futebol da comunidade foram perdidos.

“Você não imagina como nós ficamos tristes com isso. Um dia chegamos para fazer as atividades e estava cercado. Pedimos para que deixassem um vão aberto para que tivéssemos acesso ao campo. Felizmente eles deixaram, mas no dia seguinte já estava tudo fechado. É muito triste”, conta Eurides Antônio da Silva, o Bolinho, diretor-presidente do Projeto Social Comunidade Negra Integrada.

Com mais de dez anos de história, o campinho já revelou vários talentos do futebol do Estado e é um dos personagens principais do “boom” que o futebol amador vive em Campo Grande.

Futebol à moda antiga

É da “várzea”, dos campos de terra batida que surge e sempre surgiu o melhor do futebol brasileiro. Quando digo o melhor, não falo necessariamente de qualidade técnica – não que isso fosse uma inverdade já que nossos principais nomes começaram por eles – mas me refiro principalmente à “festa” que o espetáculo proporciona.

Ali, no campinho da comunidade, nas partidas amadoras, surgem os heróis do bairro, os saudosos Zelão, Neneco, ou Valmir da padaria que entram em campo apenas nos fins de semana para a alegria geral da galera.

Em tempos de goumertização da vida e também do futebol, essa festa tem saído de cena para habitar a memória dos mais saudosistas. Com transmissão na TV, rádios e tudo mais, o futebol sul-mato-grossense profissional – que parece viver novo fôlego – não atraiu, muitas vezes, a média de público alcançada pelo amador. E toda essa narrativa é só para dizer que o fechamento do campinho lá na zona norte é um golpe duro para esse “boom” vivido por Campo Grande.

“Agora teremos de jogar no campo do São Caetano. Lá não teremos a torcida, o pessoal da comunidade não vai comparecer. Já é tradicional por aqui isso de ir para o campo no fim de semana. Vamos sentir muito”, diz Valdenir Alves da Rocha, responsável por transmitir, em uma rádio comunitária, a 12ª edição do Campeonato Integração de Futebol Society da Região do Segredo.

Neste fim de semana, as partidas pelas quartas de final do campeonato foram disputadas no campo do São Caetano, local onde será realizada última partida do torneio. O encerramento será no dia 12 de julho às 10 horas. “Estamos preparando uma grande festa. Vai ter bateria de escola de samba, roda de capoeira e tudo mais”, nos explica Bolinho ao deixar claro que, ansioso por reviver, o futebol à moda antiga não sucumbiria mesmo com o fechamento do poeirinha.   

Jornal Midiamax