Política / Transparência

Investigação por lavagem de dinheiro revela laços de conselheiro do TCE com braço-direito de Beira-Mar

Polícia Federal suspeita que Osmar Jeronymo tenha usado transações imobiliárias para lavar dinheiro de origem criminosa

Jones Mário e Mayara Bueno Publicado em 09/06/2021, às 18h19

Conselheiro Osmar Jeronymo, alvo da Operação Mineradora de Ouro
Conselheiro Osmar Jeronymo, alvo da Operação Mineradora de Ouro - Divulgação/TCE-MS

A Polícia Federal suspeita que o conselheiro do TCE-MS (Tribunal de Contas do Estado) Osmar Domingues Jeronymo tenha usado transações imobiliárias para lavagem de dinheiro com suposta origem criminosa. Uma das negociatas investigadas na Operação Mineradora de Ouro envolveu megatraficante apontado como braço-direito de Fernandinho Beira-Mar na fronteira com o Paraguai.

Segundo as apurações policiais com base na quebra de sigilos do conselheiro, Jeronymo permutou, em 2019, um imóvel seu localizado em Ponta Porã por uma casa situada em Campo Grande, até então propriedade de Carlos Alberto da Silva Duro. “Carlinhos Duro”, como é conhecido, é tido como comparsa de Beira-Mar e já foi preso em investigações relacionadas ao tráfico internacional de drogas e lavagem de dinheiro.

Além disso, há suspeita em relação à casa de Ponta Porã adquirida pelo conselheiro, uma vez que a filha dos até então proprietários é ré em ação movida pelo MPF (Ministério Público Federal) para apurar crimes de lavagem de dinheiro relacionada ao tráfico.

Os valores envolvidos também levantaram suspeita. A residência de Ponta Porã havia sido adquirida por Jeronymo por R$ 500 mil, à vista, também em 2019. Já a casa do megatraficante em Campo Grande tinha valor de alienação de R$ 905,3 mil.

“[...] em um intervalo de 4 meses, Osmar Jeronymo conseguiu negociar o bem com uma valorização de 81,06%”, descreveu a Polícia Federal em relatório apresentado ao STJ (Superior Tribunal de Justiça).

De acordo com as investigações, não há registros de movimentações bancárias que comprovem essas transações.

Ainda no mesmo ano de 2019, os policiais identificaram que Jeronymo recebeu recursos de pessoas físicas e jurídicas não declarados em Imposto de Renda ou mencionados em negociações de imóveis. Foram os casos dos créditos de R$ 1,8 milhão de Luciano Junio Verbena e de R$ 41,278,00 da Hexxa Shows Gestão Artística Eireli, ambos investigados por suposto envolvimento em tráfico internacional de drogas e lavagem de dinheiro. Verbena chegou a ser preso temporariamente.

PF viu R$ 2,9 milhões em 'movimentações suspeitas' nas contas do conselheiro

Os relatos policiais ainda dão conta do recebimento, por Osmar Jeronymo, de R$ 2,9 milhões em transações financeiras “com características de movimentações atípicas ou suspeitas”, também em 2019.

Parte dos créditos vieram de empresas com menos de um ano de atividade, com sócios que não declararam impostos e de firmas que foram baixadas pouco depois das transferências.

“É importante mencionar que diversos esquemas criminosos destinados à ocultação de bens, direitos ou valores (lavagem de dinheiro) utilizam empresas recém-criadas, com sócios de baixa capacidade financeira, para movimentar vultosos recursos de dinheiro, por um breve período de tempo. Após cumprirem a sua finalidade, as pessoas jurídicas são baixadas. Não pode ser descartada a hipótese de que muitas das empresas listadas na tabela tenham sido criadas com este objetivo”, pontuou a Polícia Federal em relatório.

Os investigadores ainda flagraram outras inconsistências entre 2015 e 2018, como aquisição de móveis e veículos de valor expressivo com pagamento em espécie, e registro de compra de imóvel que já havia sido adquirido em ano anterior.

Osmar Jeronymo é conselheiro do TCE-MS desde janeiro de 2015.

Operação Mineradora de Ouro

Deflagrada ontem (8), a Operação Mineradora de Ouro levou Polícia Federal, CGU (Controladoria-Geral da União) e Receita Federal às ruas para cumprir 20 mandados de busca e apreensão, em Campo Grande, Sidrolândia e Brasília. A investigação mira favorecimento de terceiros por servidores públicos, enriquecimento ilícito, lavagem de dinheiro, fraude em licitação, superfaturamento e contratação de funcionários “fantasmas”.

O balanço divulgado revelou R$ 1,6 milhão apreendido. Além de Jeronymo, os conselheiros Waldir Neves e Ronaldo Chadid também foram alvos da investida.

O TCE-MS ainda não se manifestou oficialmente sobre o caso.

Jornal Midiamax