Política

Delcídio volta ‘entregar’ Lula e Dilma e diz que foi de Harley protestar na Paulista

Senador concedeu entrevista à Veja e contou mais detalhes

Ludyney Moura Publicado em 19/03/2016, às 14h05

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Senador concedeu entrevista à Veja e contou mais detalhes

Depois de se auto-intitular ‘profeta do caos’ o senador Delcídio do Amaral (sem partido) parece disposto a, segundo ele, delatar um esquema de corrupção envolvendo seu ex-partido, o PT, que supostamente era comandado pelo ex-presidente Lula.

O sul-mato-grossense, que já assinou um termo de delação premiada com o MPF (Ministério Público Federal) , revelou mais detalhes do esquema em entrevista à Revista Veja, divulgada no fim da noite de ontem, sexta-feira (18).Delcídio volta 'entregar' Lula e Dilma e diz que foi de Harley protestar na Paulista

Outro fato curioso contado por Delcídio, é que ele participou dos protestos contra a presidente Dilma Rousseff (PT), de quem era o líder no Senado até o fim de 2015, na Avenida Paulista no último domingo (13).

Ele teria ido ao local em uma moto  Harley-Davidson, que pegou emprestada de um irmão. Para não ser reconhecido e evitar tumulto, o senador permaneceu pouco tempo no local e sem tirar o capacete.

Licenciado do mandato por questões médicas, Delcídio destacou o papel de Lula no comando do esquema de desvio da Petrobras, e destacou que Dilma quis atrapalhar as investigações da Operação Lava Jato:

Confira a entrevista que o senador concedeu a Veja:

Veja: Por que delatar o governo do qual o senhor foi líder?

Delcídio: Eu errei ao participar de uma operação destinada a calar uma testemunha, mas errei a mando do Lula. Ele e a presidente Dilma é que tentam de forma sistemática obstruir os trabalhos da Justiça, como ficou claro com a divulgação das conversas gravadas entre os dois. O Lula negociou diretamente com as bancadas as indicações para as diretorias da Petrobras e tinha pleno conhecimento do uso que os partidos faziam das diretorias, principalmente no que diz respeito ao financiamento de campanhas. O Lula comandava o esquema.

Veja: Qual é o grau de envolvimento da presidente Dilma?

Delcídio: A Dilma herdou e se beneficiou diretamente do esquema, que financiou as campanhas eleitorais dela. A Dilma também sabia de tudo. A diferença é que ela fingia não ter nada a ver com o caso.

Veja: Lula e Dilma atuam em sintonia para abafar as investigações?

Delcídio: Nem sempre foi assim. O Lula tinha a certeza de que a Dilma e o José Eduardo Cardozo (ex-ministro da Justiça, o atual titular da Advocacia-Geral da União) tinham um acordo cujo objetivo era blindá-la contra as investigações. A condenação dele seria a redenção dela, que poderia, então, posar de defensora intransigente do combate à corrupção. O governo poderia não ir bem em outras frentes, mas ela seria lembrada como a presidente que lutou contra a corrupção.

Veja: Como o ex-presidente reagia a essa estratégia de Dilma?

Delcídio: Com pragmatismo. O Lula sabia que eu tinha acesso aos servidores da Petrobras e a executivos de empreiteiras que tinham contratos com a estatal. Ele me consultava para saber o que esses personagens ameaçavam contar e os riscos que ele, Lula, enfrentaria nas próximas etapas da investigação. Mas sempre alegava que estava preocupado com a possibilidade de fulano ou beltrano serem alcançados pela Lava-Jato. O Lula queria parecer solidário, mas estava mesmo era cuidando dos próprios interesses. Tanto que me pediu que eu procurasse e acalmasse o Nestor Cerveró, o José Carlos Bumlai e o Renato Duque. Na primeira vez em que o Lula me procurou, eu nem era líder do governo. Foi logo depois da prisão do Paulo Roberto Costa (ex-diretor de Abastecimento da Petrobras, preso em março de 2014). Ele estava muito preocupado. Sabia do tamanho do Paulo Roberto na operação, da profusão de negócios fechados por ele e do amplo leque de partidos e políticos que ele atendia. O Lula me disse assim: "É bom a gente acompanhar isso aí. Tem muita gente pendurada lá, inclusive do PT". Na época, ninguém imaginava aonde isso ia chegar.

Veja: Quem mais ajudava o ex-presidente na Lava-Jato?

Delcídio: O cara da confiança do Lula é o ex-deputado Sigmaringa Seixas (advogado do ex-presidente e da OAS), que participou ativamente da escolha de integrantes da cúpula do Poder Judiciário e tem relação de proximidade com ministros dos tribunais superiores.

Veja: Quando Lula e Dilma passam a trabalhar juntos contra a Lava-Jato?

Delcídio: A presidente sempre mantinha a visão de que nada tinha a ver com o petrolão. Ela era convencida disso pelo Aloizio Mercadante (o atual ministro da Educação), para quem a investigação só atingiria o governo anterior e a cúpula do Congresso. Para Mercadante, Dilma escaparia ilesa, fortalecida e pronta para imprimir sua marca no país. Lula sabia da influência do Mercadante. Uma vez me disse que, se ele continuasse atrapalhando, revelaria como o ministro se safou do caso dos aloprados (em setembro de 2006, assessores de Mercadante, então candidato ao governo de São Paulo, tentaram comprar um dossiê fajuto contra o tucano José Serra). O Lula me disse uma vez bem assim: "Esse Mercadante… Ele não sabe o que eu fiz para salvar a pele dele".

Veja: O que fez a presidente mudar de postura?

Delcídio: O cerco da Lava-­Jato ao Palácio do Planalto. O petrolão financiou a reeleição da Dilma. O ministro Edinho Silva, tesoureiro da campanha em 2014, adotou o achaque como estratégia de arrecadação. Procurava os empresários sempre com o mesmo discurso: "Você está com a gente ou não está? Você quer ou não quer manter seus contratos?". A extorsão foi mais ostensiva no segundo turno. O Edinho pressionou Ricardo Pessoa, da UTC, José Antunes, da Engevix, e Otávio Azevedo, da Andrade Gutierrez. Acho que Lula e Dilma começaram a ajustar os ponteiros em meados do ano passado. Foi quando surgiu a ideia de nomeá-lo ministro.

Jornal Midiamax